O Reencontro

Uma das melhores coisas de se envelhecer junto, e de pertinho, é não ver a idade passar. O tempo parece ser menos cruel com aqueles que convivem, sejam amigos, namorados, marido e mulher. Qualquer que seja a configuração, quando nutrida constantemente, parece enganar a passagem dos dias, anuviando rugas, pintando cabelos e escondendo barrigas. A gente vê a mudança-na-gente, mas não vê no outro, pois o tempo passou para ambos, e essa espécie de espelho da idade funciona sempre que olhamos para as pessoas que estão perto de nós, próximas.

Quando o envelhecer acontece em polos opostos, a história pode ser bem diferente. Com o tempo, chega a memória e a distância que, juntas e eternas amantes, criam outras narrativas.

A que começa quando o telefone toca já é, por si só inusitada. Quem, nos dias de hoje, telefona para alguém? Joyce. Sim, ela era desse tipo, ousada-que-ligava. Nada de mensagens de texto e similares. E se quisesse falar, chamava. Se o outro não atendesse, que se fosse. Mas o Beto não; pelo pelo contrário: “Alô”.

“Beto, tudo bem? Aqui é a Joyce, da faculdade, lembra?”

É claro que ele lembrava. O amor do primeiro ano; talvez do segundo, do terceiro… o tempo não esfumaçara por completo as lembranças que agora vinham novamente de atropelo. E pousavam sem conforto, pois a unilateralidade do sentimento de outrora deixara um residual infindo. Resíduo que agora, pelo fio inexistente do telefone celular, carrega a migalha que ele sempre recebeu dela, quiçá um pãozinho francês.

Há vinte e um anos; Há dezessete que não se sabiam. Por quatro foram, para ele, um casal. Para ela um amigo. Mais ou menos como a história da “Menina Má”, de Mario Vargas Llossa, que convivia com um, mas que amava muitos outro; menos ele, que acabou perfazendo um papel parecido com o personagem do autor argentino, durante os anos de Arquitetura. Tolo. Ela esperta, sem pensar até, fazia o que queria; o que desse na telha, ou no telhado. Não passava fome; tampouco vontade.

Saçaricou.
Brincou.
Namorou

Ele esperou.
Quatro anos e nada.

Nada além dos pensamentos do que poderia ter sido; especulara sobre tudo, desde o beijo, o abraço, o abraço sem roupa, o gozo. Os passeios de mãos dadas, as viagens, os jantares. No auge do amor injusto, fantasiou até com filhos, um altar, família.

Ela sequer tinha planos.

Os anos se passaram.
Anos universitários,
que por fim, desaguaram
para fora do campus,
para fora da cidade,
e de volta para o bairro de origem;
onde uma nova história foi forjada,
com novos dedos entrelaçados.
Que depois se vestiram de anéis,
e que migraram de um dedo para o outro,
e perpetuaram esse laço,
que justamente por ser laço
eventualmente se desfaz.
Eventualmente se desfez.

Solteiro ele. Solteira ela, vai saber?

Fato é que o passado vinha agora oferecendo uma nova oportunidade. O passado que não quis ficar lá; sim bendito pela chance, mas maldito pelo assombro.

A amor dantes tinha desbotado deveras, mas o fardo da lembrança era como uma farpa capturada pelo corpo que, embora não mais incomodasse, estava lá. Sentia-se. E agora estava logo ali, do outro lado daquele fio inexistente, cutucando mais uma vez.

Doera. Dessa vez não doeria.

Ao invés de ‘oi’ portanto, diz “olá’. “Joyce?” pergunta como se não reconhecesse a voz que nunca esquecera: “De onde mesmo?”, emenda, sugerindo ainda mais indiferença.

Ela incrédula, pois acostumada aos holofotes, explica entusiasmada: “A Joyce, da turma de arquitetura…” que ele ouve pacientemente e com atenção disfarçada enquanto elabora uma resposta para o que quer que viesse daquela conversa que, eventualmente se revelaria: Joyce diz que está por perto e quer encontrá-lo. 

As palavras dela foram “estou com saudades”. Falsa.

“Eu também”, dissimula ele. “Quando você vem?”

Logo.

E sem delonga começam os preparativos. 

Ela dançou na frente do espelho, ele enfrentou o espelho e brigou com a barba que acinzentava; e a barriga que crescia. Ela ouviu muita música, o tempo todo, e cantou. Cantou enquanto fez e desfez a mala, enquanto pensou nas roupas, imaginou a maquiagem, com que rosto iria chegar? Ele trocou a cama, em todo caso; e os travesseiros. Arrumou a casa, trocou lâmpadas, passou um pano. Tirou teias da adega; comprou vinhos com a certeza de que as mulheres gostavam. Joyce odiava. Nem por isso não bebia; Dojão era seu apelido. Já ele nem tinha um: José, e bebia pouco.
Ela foi centro comprar seus extravagantes adornos: anéis, colares, piercings; e tinta pois na sequência foi ao cabeleireiro. Ele foi ao shopping pois precisava de uma mão do vendedor; assim fazia compras. Gastou com meias, sapato, calça, camisa de linho.

Tudo o que faziam, e fizeram deixou de ser fortuito. Mas a motivação por trás d’ação estava bem longe dos sentidos, tanto que o tempo, a percepção do tempo os fez mergulhar no cosmos da indomável expectativa. E como o controle não habita o universo dos hábitos, ele voltou a roer as unhas; não parava, arrancava cutículas. Ela paralisou; por algum motivo desconhecido, angustiou-se demasia. Ele trabalhava sem parar, tentando espantar o pensamento. Ela só pensava, sucumbindo às emoções, aos confusos sentimentos e a um futuro que ela sempre desprezara. Qualquer que fosse, era sempre no presente que agia. Mas o tempo verbal de repente se alterou e o porvir passou a ocupar todo o seu horizonte. 

Uma perspectiva.
Um ponto de fuga.
Ou seria um ponto de encontro?

O local estava definido.
Faltavam poucos dias, um tempo que
ora se alongava,
ora se espremia.
Horas que corriam morosas, e de repente
voavam num piscar de olhos.
E no ócio da mente nasceu o diabo,
e depois a ansiedade, que na cabeça,
costuma fabricar minhocas.

“Ele foi frio comigo ao telefone”, meditou. Mas ela foi gelada com ele ao longo da vida, e reconheceu. Teve plena consciência de que o fizera sofrer, e queria sinceramente escrever um novo capítulo, mas o tom do Beto ao telefone sugerira muito pouco. Quiçá só indiferença. Por isso o diabo nascido da pasmaceira não largava do pé das suas ruminações. E como o capeta também é onipresente, onisciente e os diabos, fez o mesmo com ele, que se agitava cada vez mais à medida que o dia do encontro se aproximava, e só dormia às custas de muita vontade, e depois de muitas horas.

“Doera, dessa vez não doeria”, foi dito.
Quem dera!

A Esperança, neste ponto, já em ambos residia. Superara a expectativa e se tornara chance. Uma escolha, no fim das contas; e com a qual era muito difícil de lidar. Para ele certamente; para ela um ato corriqueiro mas que que vinha, com o tempo, adquirindo mais complexidade.

No ar ela pouco dormiu. No chão ele bem que tentou.
No horário do pouso ele já tinha estacionado.
Ela foi a primeira a descer. A última a pegar a mala; o destino é cruel.
Ele também vai levar uma multa.

Se veem; se desconfiam.
É ela mesmo? É ele mesmo?
Se aproximam. Não muito.
Lentamente.
Joyce? Beto?

Sorriem quando chegam mais perto pois o reconhecimento mutuo automaticamente tempera a lembrança. As bocas se abrem; os dentes se mostram e as rugas dos olhos se intensificam alegremente. 

De orelha a orelha paralisam.
Mais perto e se tocam.
Vem um longo abraço
apertado.

A conversa que se seguiu foi como se tivesse sido ontem. Há tantos anos sem sequer-se-ver, falaram sem parar: enquanto caminhavam, dentro do carro, durante o caminho, nem os semáforos impediam seu progresso; e quando o silêncio vinha, era momentâneo: pausas naturais durante diálogos que fluem, sem cobrança, e sem tensão que, se porventura houvesse, fora rapidamente dissolvido pelas risadas e pelas lembranças compartilhadas lá nos idos da década de setenta. Todas as que vinham eram boas, fato curioso, ele pensou. Todas as que vem quando fechamos os olhos normalmente são, a ciência diz. Por isso, ou talvez por acaso, fecharam os olhos quando chegaram ao destino; não importa onde, só queriam estende-las. Ao máximo. 

Os bancos se deitam. Minutos se passam. Os dedos se tocam. Mindinhos.

Segundos depois, os dedos se entrelaçam. Os pelos ficam em pé. 

Eles se viram de lado e o tempo para. Seus olhos se encontram, nas profundezas. Conversam silenciosos. Revelam tudo o que uma visita à alma pode revelar. E repousam um no outro, serenos.

eCp
#euriscritor

Acaso & Ocasião

Nem a música alta que ouvia antes e durante o banho conseguiria abafar o som que vinha do lado de fora do apartamento onde morava. Uma mistura de berros e batidas graves, incomuns àquela hora, naquele lugar, em qualquer medida.

Aumentou seu som para abafar aquele.  Mas tomado o banho, o outro persistiu. A curiosidade suplantou o descaso e ele acionou o olho mágico para ver o movimento lá fora: alguém, presumivelmente uma mulher – ele conhecia o vizinho -, espancava a porta do 114 com o aparente intuito de colocá-la abaixo.

Mas com o olho embaçado por meses sem uso, a necessidade de matar a curiosidade urgiu, e ele abriu a porta. O que viu foi um misto de medo e admiração, pois a confirmação da presença feminina veio acompanhada de uma admiração que ele, imediata e inconscientemente transformou em algo mais.

“Está tudo bem?” foi a voz da curiosidade.

As batidas pararam imediatamente, a gritaria cessou, a pergunta foi ignorada e a moça veio firme em sua direção. O algo mais agora tinha um e setenta, um rosto vermelho-momentâneo, e contrastantes olhos verdes. Mais um passo decidido e a saia veio dançando; e com ela as pernas, os cabelos, um conjunto suado que perguntava ofegante: “Você tem uma chave de fenda?”

Uma pergunta inusitada. Ele tenta se antecipar e pingar os ‘is’, mas é ela que se antecede: “O Verme está com uma mulher lá dentro.” ‘Verme?’ ele não entende. “Sim, meu namorado que mora ali. Seu vizinho, a propósito! E eu preciso entrar lá dentro.” ‘Verme?’ ele insiste confuso. “Sim! A gente chama ele de Verme. Agora vai. Me dá uma chave de fenda para eu abrir a porta. 

Luci, era o verdadeiro nome daquele por trás da porta. Um ‘galinha’, como se costuma dizer daqueles que não conseguem ficar longe dos rabos de saia, sempre tecendo uma nova costura; fazendo remendos e comprando linhas. E lá estava ele agora com um novo novelo. Se de lã ou de seda, um enigma a ser desvendado.

a resposta era um dos enigmas da perigosa empreitada.

Enquanto o devaneio em torno do apelido do vizinho e o pedido pela chave de fenda ocupava todo os seus sentidos, incluindo sua visão, a loira já tinha espiado para dentro da casa e apreciado uma grande e pontuda tesoura – sim, também servia – em cima da mesa da sala. Iluminada em foco, brilhava como uma solução talvez até melhor que a fenda. Por isso entra sem licença no apartamento e alcança o utensílio. Pega. Empunha: aquela empunhadura dos filmes de terror.

E num piscar de olhos ela já foi. No outro ela já está no corredor, caminhando de volta. Agora de costas para o vizinho solícito, sua saia foi determinada. Ele admirou o mundo invertido, sorriu para si mesmo e resolveu assistir de camarote: ela enfia a chave na fechadura, vira para um lado, cutuca de outro, tentar furar a porta. Esmurra com o punho esquerdo, crava a ponta com a mão direita, repetidas vezes, é pura fúria. Um urso ferido por certezas e esfomeado de evidência. Ela tinha que ter certeza, pleonasmo absoluto.

A cena é quase poética, basta enxergar a arte: um Picasso emoldurado, as páginas de um Dostoiévski, um conto de Cortázar. A história estava sendo contada ali mesmo, sem distorções ou anexos; ao vivo e captada em tempo real por um morador cuja lente saboreava dissabores, e tinha memória. Registrava tudo em seu caderninho mental enquanto a moça, provável personagem principal, atuava com perfeição.

Como se não houvesse amanhã, ela não só manteve a determinação, como aumentou a brutalidade. Usou também os pés, que vestidos de botas bicudas, amplificaram ainda mais a dramaticidade da cena; os punhos se alternavam; a tesoura também, e a voz que mudava de tom à medida que ela respirava-alternada. O vermelho do seu rosto apimentou-se e o suor começou a escorrer por todas as vias. Sua nuca molhada, seus braços úmidos, seu tremor incontrolado. Tudo sendo captado pelo vizinho que saboreava cada impropério desferido.

O tempo vai longe. Quando ela para. Pausa.

O Silêncio se instala; absoluto.

Ela encosta o ouvido na porta, nada; absolutamente.

A imaginação da asas às lentes do bom observador que consegue ver através da barreira que não abre; tampouco cai. Há duas pessoas lá dentro. Estão no quarto. Na sala. Na cozinha. Andando de um lado para o outro. Congelados. Estão em pânico. Debatem sussurros. Ela quer sair. Ele não deixa. Ela tem medo; ele tem pavor. Esperam que a tormenta passe, tic tac, tic tac.

Quarenta minutos depois, o ímpeto da moça rescinde. O cansaço da sinais de vida e um tempo é solicitado. “Me arruma um copo d’água, por favor” ela bufa ao vizinho que não tinha parado de filmar nem por um segundo, enquanto caminha em sua direção, ainda bem selvagem: seus cabelos estavam completamente desgrenhados e emolduravam um rosto ao mesmo tempo triste e emputecido. Negando a resignação e vislumbrando alternativas.

Seus passos são lentos mas firmes, e ela até esboça um sorriso quando chega próximo do vizinho que, vislumbrando outros ângulos e perspectivas, talvez um outro olhar, correu até a geladeira para pegar a água. Voltou transbordando. Talvez fosse a ficção se tornando realidade, o inconsciente vindo a tona, o acaso, a ocasião.

A tesoura troca de lugar com o copo e ele sorri de volta enquanto ela verte o liquido refrescante com volúpia. A água escorre decote adentro. A blusa é branca. Eles não trocam palavra.

A fotografia é excepcional. Personagens, estréias do ano. Melhores coadjuvantes. Ou atores principais.

O desenrolar do filme promete; e a próxima cena só é adiada pelos pensamentos que antecedem uma decisão que já foi tomada. Ela vê uma oportunidade impensada. Ele outra, pensada mil vezes. Era verdade que já a vira e há muito desejara; portanto, de fato, e aos fatos. Ela teve o lampejo no corredor, enquanto caminhava. E quando ele a comeu com os olhos, puta. As duas portas se conectaram por desejo acumulado e vingança impulsiva, equação cujo resultado só poderia dar em intensidade; assim, o corredor, ambiente naturalmente cênico, torna-se palco de um evento para lá de teatral.

Por aproximadamente duas horas ficam lá; o tempo pôde se demorar a vontade. 

A vingança é mais doce quando servida fria, dizem; mas quando é imediata e longa, tem um impacto igualmente perverso, pois quando o Verme finalmente abriu a porta, foi ele quem levou a picada. De tudo que pudera imaginar durante aquelas longas horas – o silêncio que se impusera, a dúvida sobre o que fazer, a demora do tempo, as suposições… -, o que viu foi bem-além, dois corpos nus. Ela ele reconheceu no ato. Ele, mais uma picada: o vizinho.
Entrelaçados pós-gozo, repousavam agudamente.

Com o ferrão instalado e o veneno espalhando no corpo, o impulso foi ir à desforra; deixar o macho falar; abrir a jaula. Fazer o que fosse inconscientemente necessário para estancar aquela confusão que se instalara em sua mente. De amante passara a corno? E depois de todo aquele escândalo? Quanta crueldade. 

Sentiu-se profunda e duplamente traído. Estrago amplificado.

A imagem dos dois ali estendidos perpetuou-se em tempo real. Uma daquelas cenas de cinema inesquecíveis que vemos na infância, que grudam na memória infinda; e neste caso trágica, pois a tragédia da traída se transformou em vingança ao traidor; ele perdeu.

Mas protagonistas vencem, ele achava. Por isso pensa em mudar o rumo da história mais uma vez, taí a receita das boas narrativas.

O tormento tinha amplificado o verme, e o impulso começa a assumir o comando. Vem idéias para o fim da história. Idéias tresloucadas; a razão assumindo diferentes máscaras. Os olhos, embaçados pelo tormento, tentando enxergar qualquer coisa; acabam por achar a tesoura escancarada.
Caída ao lado do casal, a poucos metros de distância, oferecia uma boa alternativa. Ele até sorri. O protagonista quer virar celebridade, e ali estavam todos os elementos necessários. Uma pena que o vizinho que estava filmando tudo, e em seus deleitosos detalhes, neste momento desfrutava o profundo sono do gozo, alheio a qualquer mundo consciente.

Desperta, contudo, estava a amante do Verme que com ele contracenara ao prazer e à angústia das escondidas. Era ela quem filmava agora. Assumira para si a direção e resolveu rodar a cena imediatamente:

Verme em movimento. 

Ele vai até o casal e se agacha. Em close, sente seus hálitos: sexo. Seus óculos embaçam. Fica ali um instante, encarando-os sem ver. Foi brilhante o que ela fez, resume, enxugando a testa com as costas da mão.

A um braço de distância repousava a tesoura que também luzia. E nutria idéias; ele a pega. 

A câmera pega tudo. O foco agora é ele, seu rosto, sua boca, seus olhos, a gota de suor que agora escorre é dele; e pinga, e quando pinga, é pimenta e não colírio. 

O despertar assustado da moça também não é refresco, ainda mais com um olho em chamas; e que nem ousa enxergar. O outro tenta, e da mesma forma suspeita o pior, ainda que totalmente distorcido. Se apavora. Se debate. 

O amigo acorda e, mesmo sem pimenta nos olhos, também vê a mesma coisa. E também a amante do Verme que, já não mais no controle da ação, deixa de filmar, aproveita a ocasião, e pega o elevador que por acaso estava ali só esperando o corte final.

Formigas tem Pernas Curtas

Quando ganhou da moça com quem dormira dois dias antes do seu aniversário um presente no dia da festa, empolgou-se. Agora vai, pensou. E deixou-se levar pelo momento: o encontro, os amigos, as oportunidades. Parabéns para mim.

Parabéns de verdade, que a festa foi de acordo. Um monte de gente, sorrisos, música de banda e aquela bebedeira-corriqueira de todos os aniversários que minimamente se prezam. Uma, duas, três, quatro horas e uma realidade que foi aos poucos se distorcendo: as luzes inebriavam, as belezas ampliavam e a memória, como sempre, foi aos poucos se diluindo. Tanto foi que o presente que ganhou, o único a propósito, acabou ficando por lá: Madame Formiga estava escrito no embrulho, isso ele lembrava. Trufas, alguém dissera. Trufas especiais. Formiga gosta de doce, pensou enquanto acordava.

As imagens do sábado iam e vinham junto com o amanhecer. Ora a todo vapor, ora só fumaça, sempre nebulosas. No arregalo do olho tentava ver entre as sombras que ofuscavam sua lembrança: nada. Embaralhada procurando o embrulho que na sua cabeça já culpada: ‘esqueci o presente da moça lá no bar.’

Uma chibata o açoita. Culpado! é a sentença.

As trufas de chocolate, ‘irrompiam’ em rompantes desconexos. Atormentou-se. 

Sempre com a certeza de um futuro acre, quiçá meio-amargo, deu início à narrativa: “como é que eu fui deixar lá?”. Deu-se início o sofrimento: “certeza que eu perdi“. Fez-se o drama: “nuca mais eu vou achar”. Fazia assim com tudo. Antecipava as dores. Conjecturava desastres. Previa infortúnios.

Mais perto no entanto estava a casa de café onde encontraria a moça das trufas na tarde seguinte. O que ela diria? Como estaria? Quais eram as expectativas dela? E as suas? Supunha o infinito. E nesse quadro sem limite pintava um óleo que como tal nunca secava. Até o último segundo os prognósticos se sobrepunham, cegando-o; um pintor que jamais acabava um quadro, era assim que se sentia sempre que o futuro negava certezas. 

Ainda assim pintava e bordava; desenhou na sua tela mental o amanhã articulado: de tudo o que ela pudesse vir a fazer, seu pedido, seus movimentos, suas falas, as risadas, ele já esboçara a réplica; e nem o silêncio fora deixado de fora. Caso viesse, falaria das trufas, doce ainda que desnecessário subterfúgio, pois o assunto de certo viria à tona, e de qualquer maneira.

E caso ela perguntasse diretamente o que ele tinha achado das trufas, inventaria. Diria, como o melhor dos mentirosos, honestamente que adorara. E se ela perguntasse a preferida? Todas. Se ela insistisse, todas.

De qualquer maneira, faria de tudo para que ela jamais soubesse que as madames tinham sido deixadas para trás. Essa verdade não podia vazar. Ele não dava conta. Supunha que ela também não desse. Supunha o horror adiante; e até a morte da moça lhe passava pela cabeça: a dor insuportável seguida do curto circuito por ele infligido. Era excruciante lidar com a dor alheia antecipada. Mas a crença lá estava, inconscientemente nutrindo essa eterna culpa que pouco conseguia conter – ele também, sinceramente as vezes preferia morrer!

Assim, seus planos mentais sempre flertavam com a mentira: um plano de contingência que via de regra se tornava principal. Por isso, ato corriqueiro, mentiu; pois ela, de fato, perguntou. “Estavam ótimas” ele disse. E ela obviamente suspeitou: o olhar que não encarou, a mão que coçou a nuca, os dedos que foram à boca, as pernas que balançavam ininterruptamente; tudo denotava engodo.

Merecido sorriso, dissimulado que ele engole.

Papo vai, papo vem, a partir daí, bem arrastado.

A parla finalmente empaca e ele pensa entre silêncios. Queria preenche-los, conforme planejado, mas no afã da urgência, sucumbe à inação. E o tempo se demora. Vêem os cafés, uma água sem gelo e sem gás e o encontro vai se diluindo à medida em que os assuntos não prosperam: nem a festa que vingara enquanto evento, vinga enquanto prosa. Não está rolando, conclui; e na primeira oportunidade, foge. Mente mais uma vez sugerindo um compromisso e a conta é chamada. Despedem-se e ele parte sem maiores delongas: o beijo que não se dera no encontro; agora nem sequer abraço. 

Ele interpreta o desfecho um sucesso. Mas o inconsciente é soberano e impõe total revés. Sai de lá atormentado e se culpa, como sempre, nem mesmo sabendo o porquê. Ela considera o desfecho, final. Nem interpreta, pois os fatos falam claros, e meu tempo é precioso demais, conclui. E nem olha para trás.

Já ele, que vive olhando para lá, fica cego-a-frente, ou ao menos embaçado. Corre tateando. Tem que chegar ao bar o quanto antes. Já são cinco horas. Visualiza o pacote. Algo o chama. ‘O presente tem que estar lá.’ ‘Tem que estar inteiro.’ ‘Devem tê-lo guardado, ao menos.’ Tudo o que supõe passa em altíssima velocidade enquanto ele esquece do semáforo; esquece o endereço, não ouve o aplicativo. Chega no impulso ao destino onde espera encontrar algum alívio para suas questões recém criadas. 

Ele sabe que evitou o confronto, sabe que mentiu, sabe que não encarou. Sabe tudo, mas como saber não basta, evoca ainda mais alguns capítulos.

Se as trufas estiverem lá, perfeito. SE, as trufas estiverem lá, repetia para si mesmo; aquele SE sugeria dúvida, algo o incomodava, seu eterno pessimismo. SE as trufas estiverem lá, suspeitando de antemão.

Está aberto? Está.

Avança. Corredor adentro. Uma luz no fim do túnel,

balcão.

Boa tarde. Boa tarde.

Ontem foi meu aniversário. Dei uma festa aqui. 

Sim.

Esqueci meu presente. Uma caixa mais ou menos deste tamanho, amarela. Embrulhado numa fita vermelha. Vocês não acharam? Tava lá na frente do bar, em cima de uma mesa.

Um minuto.

O moço some. Vai aos fundos do bar. Vai ver-Volta.

Acharam?

Achamos sim, mas estava coberto de formigas. Muitas formigas.

Como assim?

Assim, moço. Tivemos que jogar no lixo.

Como?

Alguém trouxe a caixa aqui para dentro no final da sua festa e deixou embaixo deste balcão. 

As formigas sentiram. As formigas acharam.

A caixa estava preta, você não ia nem acreditar! Tipo mudou até de cor. 

Se verdade ou mentira, a história foi contada. A desconfiança se tornou perpétua e o bar nunca mais será visitado; fato é que as madames foram comidas: se pelos humanos ou pelas formigas, nunca se saberá. Uma suposição eterna que só um acaso fortuito por ventura consiga resolver.

Fato outro é que a resignação também dá asas à imaginação: ele decide que teria que comer algumas trufas; madames, e desta vez escolhidas a dedo. A compensação melhorada; uma gratificação recheada de culpa, é verdade, mas com açúcar suficiente para lubrificar o prazer e sugerir um sorriso. E corre de pronto para o paraíso das formigas.

Ele entra na doceria, ajusta o olhar e contempla o ambiente encantador. Paira sem rumo por alguns instantes como que absorvido pelos elementos dispersos. Os sentidos se afloram.

Percorrem as prateleiras. Ele as percorre. Tateia, pega, cheira, as pupilas se dilatam.

O balcão por onde tem que passar em direção ao caixa é um palco de teatro onde os doces desfilam. A luz os enaltece. O ambiente os eleva; ao status de celebridade. As pessoas que contemplam aquele fashion week de insetos disfarçados de madames ficam absolutamente hipnotizadas; só saem do transe quando colocam a mão numa caixa; ou duas, ou quatro.

Ele tenta escapar do encanto e levanta os olhos. Mas como o destino também é bruxo, eis que sua visão é acachapada não por outros doces, mas por outros olhos: é ela, a moça de quem escapara no café há pouco, vindo em sua direção. Sem saber o que fazer, quer virar avestruz. Mas não tendo como se esconder, tenta papaléguas*. Impossível, que suas pernas congelaram. 

Assim, na impossibilidade do fugir, resignado surge. E lentamente, bem lentamente ergue a cabeça para encarar o tapa na cara. O bofetão é de pelica – ainda pior; e enxerga o fiasco da sua empreitada: o plano, o espelhamento, as perguntas pré supostas, as respostas, tudo cai por terra em meio a seus medos escondidos, sua insegurança, suas verdadeiras mentiras.

Tudo é de fato revelado quando os olhos por fim se encaram, ela já sabia e agora comprova: aqui está ele, adocicando a culpa pelos doces que largou na festa. 

Sorri para ele, que contribui sem graça. Nada se falam, e o sorriso dele some. O dela não. E se move à frente já com duas caixas de trufas nas mãos: uma com a mesma combinação de sabores que tinha dado ao aniversariante, e outra para si, com sabores totalmente diferentes, que devoraria sozinha. 

A primeira ela entrega para ele, que pega com uma das mãos, devolvendo à prateleira a que tinha na outra. Nem se dá ao trabalho de checar os sabores. Há um reconhecimento mútuo no brevíssimo olhar que se tentam. De ironia. De resignação. De verdade, que mesmo demorando para chegar, chega. Pois todas as Formigas tem Pernas Curtas.

 

Eurico_CP

Amor de Pedágio

Amor de Pedágio

Toda semana, segundas, quartas e sextas, as sete da manhã ele pegava o carro para ir ao trabalho. Operava o monótono tic-tac das planilhas financeiras durante todo o dia, e voltava já tardinha, mesmo-caminho-sentido-contrário, passando pelos quatro pedágios que já passara na ida, parando e pagando, não gostava do sistema sem parar.

Por isso sempre trocava-troco, e moedinhas com os Operadores Rodoviários. E com as Operadoras, cuja diversidade era o que mais o atraía. Uma diferente da outra, cada uma de um jeitinho, tipos de cabelo, curtos ou longos, o tempo sempre curto; brincos, tons de voz, batons e bocas, sorrisos de contrapartida.

Nada nunca levado muito a sério, até que um dia uma dessas contrapartidas o atingiu em cheio. O sorriso dela voltou de um jeito! Daqueles que congelam, e até o carro morreu. O de trás logo buzinou e a cancela se abriu. No ímpeto ele avança, mas logo se arrepende: ela ficou para trás! Tenta ir bem devagar, mas logo vem a segunda buzina e ele é obrigado seguir, olhos fixos no retrovisor. 

Ela vai diminuindo de tamanho à medida que os metros passam e ele pensa em como resgatar o passado, mas a estrada é muito dinâmica. Queria voltar, mas não tinha jeito.

Teria que rodar dez quilômetros, pegar o retorno para voltar, encontrar um lugar-para-parar, mas que cancela era a dela? Pondera o trabalho, desiste por enquanto. Segue relutante mas em frente, inconformado por não ter prestado atenção ao nome da moça que estava logo ali, fixado na janela por onde passou.

Por segundos ele o teve na retina, mas o piscar habitual fechara por hora essa cancela. 

Enquanto dirigia então, sua cabeça de finanças começa a calcular, probabilidades: quais as chances de eu encontrar a bela moça novamente? São oito pedágios, ida e volta. Quatro praças, seis pistas. Isso dá doze Operadores trabalhando ao mesmo tempo. Sendo três os turnos, trinta e seis pessoas. Vezes quatro praças: cento e quarenta e quatro funcionários!

Isso se eles não se revezarem, ou alternarem praças, ou trocarem turnos. “Ou se eu parasse com essa insanidade!?” disse para si, acima da música que ouvia. Pareceu uma conversa de doido, como assim, conquistar a garota do pedágio? Quais são as chances? 

Mas como bom homem de planilhas, resolveu investir nela, desacreditando-a. Era plausível sim, por menores que fossem as possibilidades.

Sem fazer muitas contas, ou já considerando as que já tinha feito, concluiu rapidamente que precisaria ficar mais tempo na pista caso quisesse contrariar a sorte. Por isso pede ao seu chefe que o libere para trabalhar full time Home-Office. Pedido aceito, ele logo equipa o carro. Agora tinha em mãos um escritório disfarçado: um Road-Office, que podia mantê-lo na estrada por horas a fio até achar a alma-gêmea-do-sorriso-passageiro.

Passam meses, e com isso ele passa a observar ainda mais. Checa tudo quando passa nos pedágios: a estrutura da praça, as placas, as cancelas e sua erótica dança; o tempo de parada, as luzes, os motoristas que viajam sós, os que não acham o dinheiro, os que o já tem o trocado nas mãos, tudo o que pode dizer respeito ao seu objetivo ele vê; em especial as meninas. Cada uma em sua cabine, outras andando pra lá e pra cá, sempre ocupadas. Sempre solicitas, de marrom e justas. Sabe-se lá o porque, mas combina e enche os olhos dos motoristas que, ante a rotineira monotonia da pista, abrem sorrisos privados que animam a própria viagem.

Ele observa seus andares, para onde vão. Imagina o corpo daquela que só vira o pescoço e imagina que viva de havana também. Por isso faz o caminho inverso, e se excita; a todo pedágio, a cada vai e vem.

Como um vício então, o fardo da fila vira desejo constante, e agora ele ansia pelas paradas. Alonga-as com gordas notas de duzentos ou infinitas moedas-miúdas que sempre se espalham no chão do carro. Algumas ele deixa cair enquanto as entrega, e essas vão parar na pista. Algumas rolam para baixo do carro, que conveniência! Que quando acontece, pisca alerta. Ele desce do carro, calma e gentilmente, e observa. E se agacha para pegá-las, observando ainda mais. E quanto mais procura aquela que lhe roubara o olhar, outros olhos o fitam, e ele corresponde, não tem jeito. O suposto motivo original da maluca empreitada vai aos poucos se diluindo à media que ele passa a enxergar além do que inicialmente previra – e até gostaria -, mas que dada a complexidade das contas à frente, e a variedade das coisas ao redor, resolve deixar na condução o destino. O rosto da moça sem nome ainda perdura, mas a cada passagem a janela daquela cabine vai aos poucos se fechando; enquanto outras se abrem.

As chances estão em cheque; o acaso agora é rei.

O estatístico passa a acreditar na sorte, e a noite também passa a mostrar interessantes caminhos. O número de pessoas trabalhando é menor, e são menores também as distrações: hipnotizantes tentações marrom-amarelas.

Como é bom, no meio da estrada poluída, ver belas moças desfilando para lá e para cá, nos brindando, solitários-sonolentos motoristas, com sua gratuita simpatia, seu andar castanho e por ventura singelos e despretensiosos toques para aqueles cujo sorrateiro mindinho sempre extende sua presença no momento do troco. Da oportuna troca.

Antes mesmo de chegar à cabine, já abria o planejado sorriso, depois a janela e enfim o braço era estendido como que para pegar e beijar-anos-quarenta, a mão da operadora. Como estava sempre bem vestido, o pacote carro-pessoa sempre instigava, e o pessoal todo começou a comentar. E como agora sempre dizia seus nomes, para jamais esquecer o dela, ficou popular entre os Operadores; e agora, quando se aproximava das cabines, era logo celebrado: ‘lá vem ele’, e então pensava em quanto já tinha conquistado durante aquele ano de intensa investigação.

Já entendia todo o funcionamento das praças, os rodízios, os horários de funcionamento, a quantidade de operadores e operadoras e também, de cabeça, o nome de muitas delas. Tinha criado uma planilha, e de dentro do carro, por voz, colocava cada uma delas em sua respectiva célula, à medida em que passava pelas cabines.

Ainda assim, nada da moça que tanto queria encontrar. Iludiu-se momentaneamente com as outras possibilidades, outras curvas para quem qualquer outdoor serve, mas os dias-e-dias sozinho na estrada clamavam não por aventuras, mas por companhia, e uma, exclusiva, aonde estão aqueles olhos?

Já tinha rodado, segundo seus cálculos, cento e quarenta mil quilômetros; quilômetros atentos, olhos de lince, observações de espião, toda uma parafernália tecnológica que custara as vistas da cara, e mesmo assim não conseguia achar a mais bela agulha do palheiro; os cálculos haviam alertado, mas mesmo assim ele insistira.

‘Chega’, chegou a pensar, mas a lembrança daquele dia, lá na distância do calendário passado, grudara como piche; portanto, avançou seu próprio sinal vermelho e acelerou asfalto à quente. À frente se muniu de ainda mais determinação e passou a não respeitar mais nem os feriados, período que até então ele usava para descansar sua lombar, obviamente já bem comprometida pelo tempo que passava sentado. 

Jogou as planilhas fora e foi à desforra. Custe o que custasse, a agulha teceria. Juntou todas as reservas que tinha e investiu: ajustou o carro para gastar menos, fez acordo com os postos ao longo da rodovia e modificou o banco de forma a preservar sua já desgastada coluna.

Passou a acordar mais cedo. As cinco e meia já estava na estrada, e voltava somente à noite. Assim, café da manhã, almoço e jantar, tudo se dava ao volante. Ficou então conhecido no circuito todo, e sempre que resolvia esticar um pouco mais as pernas durante as paradas, pegava uma lembrancinha para o pessoal das cabines.

Logo virou uma celebridade entre os gestores de cada uma das praças. Àquela altura, seu nome, assim como seu carro, sua placa, seus horários, seu interesses, não passavam mais em vão.

A história se espalhava francamente e até as filas aumentavam. Todos queriam encontrar o cara. Todos queriam vê-lo. As meninas-de-marrom agora tentavam prever o horário que ele passaria e ajustavam seus turnos de acordo; os revezamentos foram ampliados e sempre que ele chegava, euforia. Sempre tinha mais que uma pessoa na cabine, até três! E foi aí que ele percebeu que o jogo estava virando. Na melhor versão do ditado ‘não cace, atraia’, sem querer virou um ímã.

Sua popularidade se tornou um polo positivo de atração e se multiplicou. De celebridade local, instigou também adjacências: outras praças de pedágio ficaram sabendo e de boca em boca sua fama ampliou. Não havia mais pedágios sem fila, fosse qual fosse o horário. Motoristas paravam no acostamento para vê-lo e o sistema ‘sem parar’ começou a ter problemas pois não tinha mais movimento. Caminhoneiros lá de cima de suas cabines o viam a distância e buzinavam celebrando sua chegada. O som inusitado atraía curiosos e as monótonas viagens adquiriam um outro tom. 

O destino depois disso era viajar sem ter chegada. As estradas eram um destino em si, e todos queriam saber do celebrado motorista que, ainda incompreendido sobre suas verdadeiras motivações, vira objeto de desejo de quem tem por motivo revelar.

Entra em cena a poderosa mídia. Não só aquela antiga-monopólio, mas a atual pulverizada. E dissipa versões. E cada um lê do jeito que quer. E cada um promove como lhe apetece. Motoristas de carro, de moto, caminhões; borracheiros, frentistas, atendentes de loja, operadores rodoviários, entrevistas. Todos querem dar uma palhinha para a mocinha da TV, que só fala a verdade, e chega voando. 

Nas semanas que se seguem a notícia é ampla e nacional, e repleta de explicações: ele gosta de viajar, é mecânico de carros, testa pneus, ama a estrada, é maluco, acelera por prazer, nenhuma das alternativas. Só ele sabe o verdadeiro motivo da empreitada e resolve revelar.

Em casa, sozinha-quietinha, está a garota dos olhos dele, assistindo o noticiário e especulando sobre quem seria a sortuda por quem aquele cara se apaixonou.

 

Eurico Conceição Palazzo
#euriscritor

Meia Salsicha

Dentro do universo fálico, as possibilidades são infinitas. Basta o olhar querer, que enxerga. O cérebro logo acolhe as chances e o mundo fica mais comprido. 

Im e d  i  a   t   a   m    e    n    t     e.

E alto, pois dentre suas infinitas manifestações, o poder logo vem à tona. Ao alto, pois que a gloria via de regra abre os braços para aqueles que quererem subir – e somente a eles, cujo local de ofício, também via de regra é lá em cima. 

As demonstrações estéticas dessa constatação estão por toda a parte, a saber, de um primeiro segmento, os prédios; os edifícios, os espelhados que resplandecem nas alturas. Cada vez mais alto. Flertam além do céu, penetrando nuvens. Emanando poder.

Muitos horizontes são moldados pela sua presença e há sempre um que chega para atualizar a panorâmica. Os picos vão surgindo e subindo à medida em que o tempo vai passando; doce paradoxo entre a idade da gente e a idade do concreto; sua duração. O aço.

A natureza. Os outros picos: aqueles com neve: brancas avalanches que escorrem face abaixo. Engolem pessoas inteiras.

Há os vulcões, que também escorrem. Aquecem até a morte pessoas inteiras.

Talvez sejam menos poéticos se comparados ao frio. Porém muito mais orgásticos. Se derretem em chamas, vertendo o sangue da terra depois do gozo primordial.

Há os picos nos quais se sobe(m), picos de onde se pula, picos que chamam para a aventura: uma flecha humana na forma de pássaro. O desafio de quase morte. A subida que antecede a queda, quase que literalmente, le pettit mort, o gozo dos franceses.

O gozo do fogo. Da vela, eterno. Do isqueiro, controlado. Do palito de fósforo uma rapidinha, que logo vem outra, e outra, e mais uma que na cama cabem muitos; de cabeça vermelha e sempre prontos para mais um brasa, que é deles que o cigarro depende: um fálico acendendo outro que inspira, e aspira hipnotizado de prazer

Sobre o charuto então, prazer à flor da pele que o trago não é bem vindo. Bastam as papilas gustativas e um tamanho generoso. O cumprimento simboliza a bitola do poder e se inspirado nas alturas, inspira ainda mais. Clubes de simpatizantes que vão galgando o acesso via baforadas excludentes; o círculo da fumaça do Olímpo é obviamente para poucos. E nisso o falo também é bom: exclusividade. 

Difícil é saber onde ele não é bom, pois em tudo praticamente encaixa. Basta olhar ao redor. Garrafas, garrafas de todos os dias; vinhos, espumantes que explodem. Jorram. Eufóricos sorrisos borbulham. O vinho que é aberto; o ritual, a rolha sacada. É tinto. Escorre na taça: algumas lágrimas são mais espessas que outras, tudo sugere.

O batom, que também marca presença na borda do copo, está na bolsa. Um objeto que nas mãos de quem flerta com o espelho cresce; embeleza. Basta um movimento circular na base daquele delicado cilindro e lá está o bastão colorido para os sedentos lábios, ainda opacos, secos. O movimento da pintura é sexy; húmido. Tem seu tempo. A tampa fecha o cilindro e o batom volta à bolsa, saciado.

A caneta é pega no bolso da camisa: uma Montblanc. Deve ser de um poderoso, que trabalha num edifício muito alto e que provavelmente fuma um cumprido charuto. Ele escreve um bilhete e entrega nas mãos da moça que está ao seu lado. Ela o devolve com os números do seu quarto.

Que os homens de gravata também deixam seu rastro; está justamente no adereço mencionado: o tecido, a largura, o tamanho, a cor, tudo compõe a imagem de um desejo disfarçado. Mas que o inconsciente enxerga plenamente e age como que no controle de uma marionete que jura ter o livre arbítrio nas mãos. A cabeça não pensa. A outra age, e por vontade própria.

Falo independente. Falo que se alastra como que pulverizando a adoração; e as exibições da sua deidade estão por todas as áreas – alimentos, produtos de higiene pessoal, objetos de decoração, armas, meios de transporte, ferramentas, entre outros, moldando inclusive as relações humanas mais inocentes, como comer um cachorro quente.

Uma salsicha envolta por camadas de sabor; hoje tantos que transmutam a inocência da fome na bocada da volúpia; quanto maior, melhor e escorre pelos cantos da boca enquanto dedos melados de purê e catchup são chupados um a um.

É saboroso, é suculento. A Murta geme e o gemido é bom; interno, ninguém precisa ouvir, que o prazer é individual – uma salsicha inteira. Há quem prefira duas, que o fetiche também é exclusivo; é gula. O legado da experiência fica na memória de cada um e no guardanapo que vai ao lixo carregando as lembranças coloridas de uma orgia capital, como uma camisinha usada.

Por isso, quando ela cortou as salsichas ao meio para colocar no molho de tomate, ele pirou: “Não é para cortar as salsichas!”, disse sobressaltado. Foi como se lhe tivessem cortado ao meio; ou ainda pior, que lhe tivessem amputado o vigor.

Problema é que ela não sabia. Amputado o vigor! lhe disse o narrador. 

Como é que saberia? Então quer dizer que salsicha não é só uma salsicha? Há algo mais? Há algo por trás? 

Claro, lentamente concluiu após um constrangido e importante silêncio que se seguiu ao arroubo; e que também serviu para amenizar o clima; acabou por apiedar-se do marido.

Mas incontida, revelou-se pelo riso e gargalhadas que se seguiram. Ele não entendeu nada e ficou mais inquieto ainda. Gritou como um filho mimado que, mesmo sem saber o motivo, atua sempre na defensiva – ‘isso deve ser comigo’; e neste caso, ironicamente era, pois o mito da salsicha inteira estava dentro da cabeça dele, para não dizer das calças, que foi exatamente para onde ela direcionou o olhar enquanto ele esbravejava sem parar. Ela sequer ouvia, mas viajava profundamente no simbolismo daquele momento único; épico, que se explorado com cuidado e atenção, poderia mudar o rumo da história que a tendência natural das coisas desejava perfazer.

Por isso saca um vinho e distrai o foco. Se aproxima dele com as duas taças e dá um beijo. Ele corresponde ao sabor da uva sem doçura. Gosta dos paladares mais salgados e ácidos.

Ela estica o braço e mete a mão dentro da panela com o molho que esquentava e pega uma das salsichas ensopadas, pingando, e leva à sua boca que imediatamente abre. Pega mais duas e põe na própria boca. Eles mastigam se olhando nos olhos, escumando. Se mastigam, por fim, e trocam pedaços de luxuria sem nenhum pudor. O desejo escorre pelo canto da boca enquanto eles se beijam desesperados; como se uma obra de Jackson Pollock estivesse sendo pintada alí na hora, monocromática mas com infinitas nuances de vermelho. Tão intensas que eles resolvem literalmente se incorporar ao quadro que se perfazia no chão, e que a essa altura já esquentara até o azulejo e que aos poucos vai virando uma tela viva, cálida, escorregadia e sonora. Viram artistas do modernismo e pintam no piso um novo renascimento a óleo. A segunda demão é ainda mais unguinosa e demorada, pois a panela que lá em cima fervia, ebule e jorra abaixo gotas ainda mais gordas e deleitosas, intensificando ainda mais os sabores que apuravam.

Bacon e Azeitona.
Salsinha e Cebolinha.
Tomate
Pelado e Pimenta.
Sal.

“Está pronto”, disse ela logo após a obra finda. “Sim está”, ele replicou sorrindo e, pegando uma meia salsicha que rolava por alí, assinou o nome dele no azulejo branco. Ela sorriu de volta, pegou a mesma salsicha e fez igual. Em seguida engoliu o pincel.

Tipo masoquistas top-chef então, se abraçaram de pé e contemplaram o trabalho por alguns longos segundos, quando a panela deu um estalo. O molho havia secado. Os embutidos jaziam lá, satisfeitos como pequenos falos individuais em repouso; foi o que viram quando voltaram os olhos para a panela que não surpreendentemente tinha também virado uma obra de arte. Infinitos tons de queimado e vermelho pintavam seu fundo como um óleo recém concebido; simulando um instantâneo que complementava e emoldurava uma produção inesquecível: o dia em que uma provável discórdia fora contida por toda a amplitude do ecossistema do falo. O desejo, o impulso, a raiva, o descontrole, a pulsão, o flerte, a conquista, o poder. 

Nesse dia, os dois subiram ao trono.

E_cp

Pássaro em formação

Hoje eu acredito, mas antes, quando me diziam que a gente nunca conhece de verdade as pessoas, não acreditei, e de jeito nenhum; muito menos quando a pessoa em questão é muito próxima da gente.

Acho que eu tinha por volta de nove anos quando comecei a aprender sobre isso; lá em Gonçalves, Minas Gerais, terra onde nasci e onde desde o início já caçava passarinhos, prática herdada primeiramente de vovô que por anos sempre vi sair após o almoço para caçar pardais. Ele e seus amigos semanalmente saiam de arma na mão, como guerreiros em missão de vida ou morte e voltavam somente a noite, ora felizes, penas saindo de baldes, ou carrancudos, penas em seu devido lugar, nas asas. Na época eu ainda estava sendo fisgado pelo hábito que era, a propósito, como muitos hábitos, impensado. hoje considero hediondo.

Quem o adquirira ferozmente foi papai. Tão logo o pai dele morreu, assumiu o posto e passou a caçá-los, agora quaisquer que fossem, com tamanha avidez que algumas vezes cheguei a vê-lo dançar no pasto, tamanha a felicidade com as campanhas exitosas.

De noite no jantar sem penas, comíamos em silêncio uma fartura de carne alada e agradecíamos aos céus pela graça-da-caça dada a papai: pontaria, paciência, silêncio absoluto e imobilidade. O tiro seguido de um outro silêncio seguido de uma eufórica revoada. Adrenalina deles, adrenalina nossa, e a mistura estava posta à mesa.

Cresci, e do estilingue passei à espingarda. Caçávamos juntos, meu pai e eu. Jamais podia imaginar que a prática fosse fortalecer minhas asas com ele. Mas entendi rapidamente que a guerra faz isso com as pessoas: entrincheirados viram irmãos de sangue, caças voam lado a lado e paraquedistas caem juntos, quase como pássaros, só que estes sempre mortos. 

E foi a partir dessa ponderação que comecei a ficar incomodado com esse laço de matança que me ligava a papai, matador. Eu era de outra geração, via o mundo um pouco diferente, e simplesmente sair para caçar não fazia mais sentido.

Dessa forma o laço arrefeceu. Cada vez que o via sair para caçar, sumia; ou, como um pássaro arisco, bastava ouví-lo mexendo em suas coisas, inventava um milhão de outras pra fazer e me ocupava com o que quer que fosse: banho de que não gostava, tarefas da escola que protelava a todo custo e até mesmo a louça que mamãe implorava há anos, fazia questão de lavar, secar, guardar.

Papai, ainda que desconfiado da minha mudança, não mudou. Pelo contrário, rotina na cabeça, pensamento fora dela. Não que minha ausência não lhe tivesse trazido algum desconforto, afinal eu era sim uma boa e útil companhia, mas o ajuste à pratica da caça solitária foi rápida e em questão de semanas ele já estava novamente voando solo. Acordava cedo, coisas arrumadas desde a noite anterior, ciscava algumas migalhas, e sem dar pio já voava porta afora em busca daquilo que a mim e mamãe começava a parecer, no mínimo estranho. Vestia penas. “Camuflagem”, ele diria. 

Quanto mais pássaros abatia, mais se tornava um.

De tanto observá-los compreendeu sua dinâmica. Entendeu como dormiam, descansavam, jeitos e trejeitos. Previa o destino do voo a partir do horário da decolagem, e precisava milimetricamente o local do pouso pela velocidade do vento naquela hora do dia. Em termos de vontade, sabia até o que os pássaros queriam, seus desejos mais íntimos, amores e sexuais. Seus pios tinham significado sim. E ele os traduzia. Numa folha de papel passou a anotar os significados como que em código morse, e a partir daí a comunicação ficou mais fácil. Assoviava todo dia. Acordava assoviando, ia dormir no assovio. E mamãe me relatou certo dia que até durante o sonho ele assim o fez; tínhamos a impressão de agora conviver com um enorme pássaro dentro de casa. Já não falava mais, ao menos conosco. Mas uma vez fora de casa, era pura cantarola. Emitia sons para nós indecifráveis e, a partir de certos sinais vindos de outras laias, saia correndo e abria os braços como se asas fossem e seguia seu caminho rumo a rumos por nós também desconhecidos.

Sentíamos que voava. Que sentia que voava.
E sentimos que não tinha volta.
Que o mundo dava voltas.
E que agora era a vez de sermos nós os caçadores.

E assim papai foi posto à mesa.

Sinuca de Bico

Dizem que a vida-casada pode ser por vezes monótona; ou até sempre, pregam aqueles que perduraram pouco no rolê. A relação vira uma amizade, dizem outros; parceria de vida, os que perduram a eternidade. Para esses a água morna é benta; o marasmo, benção: uma calmaria validada pelo tempo sem mudança: vinte, trinta, quarenta anos de repetição ensimesmada e rugas que se entrelaçam por dedos idosos de bisas felizes.

Para Branca não, anti-linhas de expressão.

Casada há poucos anos, pronome poucos dela, não se via na rotina dos antigos, e muito menos na sua que se moldava; um círculo vicioso que a propósito repelia: casa, trabalho, casa, banho e cama. Não era isso o que esperava. O vislumbre do futuro cedera espaço ao tic tac do presente, e o acaso, o risco e o imprevisto, o tripé da sua extensão, simplesmente arrefecia.

No esvaziar do tempo então, resolveu preencher os dias: encontrou nas imediações do parentesco um tic tac de outra cor: Bola oito, seu concunhado tinha horas, minutos e segundos de sobra que usava, a propósito, jogando bilhar.

Um belo e hábil praticante, verdade seja dita, parecer compartilhado pela própria cunhada, que não media palavras para exaltar sua sorte no jogo. O homem encaçapava, e com proficiência, sem jamais ter rasgado o feltro.

Mas como o jogo tende a vício, e Branca é tentação, as bolas se multiplicaram sobre a mesa; tornaram-se átomos chocando-se contra as bordas: partículas se acelerando enlouquecidas. E o feltro, que sempre fora verde, foi aos poucos se avermelhando.

As partidas eram jogadas como disputas por troféu, e a entrega sempre mútua. Ora na casa de um, ora na casa de outro, ora onde quer que houvesse uma bancada, punham seus times em campo: tacos e bolas e via de regra uma melhor de seis caçapas. E como norma dava empate, sem cessar marcavam para depois uma revanche. 

Revanche vai, revanche vem, e a melhor de seis virou seis meses de tacadas soberanas; encaçapadas precisas, movimentos ousados: diretos, com efeito, com puxada, com muita puxada, até que o feltro se rasgou.  

E ela engravidou.
Bola oito agora cresce dentro dela, inesperado legado.

Inesperado movimento que ela paralisa, não consegue agir. Não sabe o que fazer, e no silêncio que se segue ao susto, pensa; pensa, pensa. Cala. Não diz nada a ninguém e só pede a seu mancebo que suspenda temporariamente as partidas: mas que guarde as bolas, o taco e a mesa pois nunca se sabe o dia da próxima peleja.

Usando a metáfora do jogo então, aventa possibilidades. Enxerga o bilhar com todas as esferas presas no triângulo e ‘estoura’: a angústia se dilui em pensamentos objetivos e a solução se apresenta logo à frente dela; com se a partir de colisões atômicas um feixe de luz iluminasse seu futuro. Ela enxerga outras bolas, e todas do mesmo tom do seu corrente desespero: uma amiga de infância, o marido dela e a descendência que nunca existira seriam a solução. Eles não podiam ter filhos, mas agora, contundente acaso, poderiam: bastaria um simples acordo e Branca seria a barriga de aluguel de uma nova geração de bolas oito. O sonho de uma se concretizando no imprevisto de outra. Uma história cujo roteiro se perfazia na base da fé, enquanto os atores eram convencidos a seguir o script.  O bebê nasceria de acordo com a exatidão da genética e a mesa do cunhado poderia ser usada novamente; uma novela em preto e branco que agora só dependia da boa vontade dos atores.

“Mas amiga, isso não vai dar certo. Seu marido não vai topar.”
“Do meu marido cuido eu. Veja com o seu negão o que ele acha.

Alguns dias depois, do lado pardo da empreitada, vem o aceite. Do outro, um bigato duvidoso. “Jamais”, o marido de Branca dizia. Achava um absurdo a mulher carregar o filho de uma outra, ainda mais de outra cor. Uma insanidade, um despropósito, “um vitupério”, dizia ele a palavra que aprendera com a avó. Mas como o tempo no caso era vital, ela perdurou no convencimento. Jamais era a sua palavra, não a dele. Uma vez que acertara com a comadre a empreitada, jamais que voltaria atrás. Jamais desistiria. A solução era perfeita; a idéia, brilhante; a aprovação do marido, um mero detalhe, um pequeno percalço que se tratado com atenção logo sumiria.

“Amor, vem para a cama vem” foi só o começo. Logo depois vieram os banhos regados de apetite, seguidos dos cafés da manhã com ovos quebrados pelo chão. Os suspiros ao pé do ouvido dele também geraram frisson e as poucos ele foi amolecendo, uma carne mal passada. O passo seguinte foi o discurso da bondade: como assim negar a vinda de um filho ao mundo? “Eu só serei a cápsula”, ela dizia. “Deus quer que ela tenha um filho. É nosso dever ajudar”, e assim, pelo apelo à culpa cristã e luxúria do inferno, ele sucumbiu.

Como não entendia nada de medicina, muito menos dos procedimentos necessários de preparação do corpo para receber um embrião alheio, bastou uma ida manipulada ao hospital e logo ela pode aparecer barriguda diante do marido; e do amante, que a propósito nem deu bola. Como um homem de categoria, o ventre pouco importou. Continuou prestando seu papel sempre que a moça vinha, agora e ainda mais com a garantia de que o fruto das suas lascivas incursões não lhe trariam problemas: fosse de quem fosse o filho, o problema não seria seu.

Os meses passam, passam.

O tempo voa, que a ansiedade dos que operam na surdina sempre acelera as horas. Os detalhes adquirem uma nova relevância. Outros detalhes aparecem, e idéias brotam para contornar hipotéticos e futuros imprevistos: o RG.

Resolvem, portanto, forjar uma identidade com a foto de uma na carteira da outra; a comadre teria o rosto da amiga, e o bebê uma mãe legítima. As bolas brilhavam enceradas.

As semanas encurtam.

Os dias encolhem.

A hora chega.

O bebê nasce: branco.

Vem um choro de bigato e ela assusta. Pega o bicho no colo e checa para ver a verdade. Duvida dos olhos e enxerga de novo: branco, branquíssimo, uma branca de Neve deitada no açúcar comendo algodão doce sabor nuvem. Indiscutivelmente branca. Inapelavelmente branco; seu filho.

Ela refuta: “não pode ser!” chora aos médicos. Mas é. 

O silêncio que se segue é uma série de especulações mudas de indignação e inconformismo. Ela volta ao passado e checa as possibilidades, as probabilidades, um termo mais exato: um por cento, dez no máximo e fica fula. Foi num dia de rotina, ela se lembra até da-data. Uma despretensiosa de ladinho, rapidinha execução protocolar. 

Bastou. E ela chorou lágrimas maquiadas.

A comadre entra na justiça por que queria o filho do acordo, fio de bigode, e o processo corre lá. Também dá com a língua que cresceu nos dentes, e a amiga perde também o marido; assim como a traída, que ao ficar sabendo da história, larga o amante da concunhada que, por sua vez escancarado no rolo, se volta para a sua amante que a essa altura não tinha mais nada a perder.

E segue o jogo.

 

Eurico_CP

Invasão de Domicílio

Eu o via de longe, aos poucos ofuscando a nossa claridade; obstruindo a nossa única janela. Nossa única porta, nossa entrada. E vinha sem hesitar.

Sem um respiro, imediatamente começávamos a recuar. Íamos até onde podíamos; até nos espremermos em medo. Até onde não dava mais, e até onde literalmente grudávamos na parede. Até quando um colega era arrancado para fora, meleca que somos.

Grudamos em nós, mas grudamos nele também.

Quando ele chega, portanto, leva um monte. Vem grandão, e sem pedir licença-sempre-entra. Adere a nós como cola e é melhor aceitar que dói menos. Lá fora ainda seremos observados com uma estranha curiosidade, como se para a checagem do nosso tamanho, nossa textura, as vezes realmente grudamos demais.  Fora isso, seremos sempre lançadas depois, como bolinhas perfeitas entre dedos (quase sempre viramos bolinhas), ou eternizadas (bolinhas amassadas) embaixo de uma mesa qualquer; qualquer cantinho de parede.

Eu por enquanto vivo, e felizmente sem forma, que nunca a tivemos definida.

E como já tinha uma certa experiência e uma tendência a analisar os fatos, aguçado olhar, conhecia a grosso modo os horários do sufoco, e me escondia lá no fundo. Bem ao fundo, aliás, nas profundezas da cavidade nasal, onde nem a menor sombra de luz é capaz de alcançar.

Meu visitante não é, digamos, constante; tampouco pede licença. As vezes fica semanas sem incomodar e isso ajuda. Fazemos a maior festa durante esse período, sujamos todo o salão; e como multiplicamos vorazmente, está sempre sujo. É só quando ele se limpa que, digamos, a alma é lavada. 

A dele, pois que a nossa é levada. Assim como alguns corpos que vão no fluxo, na maioria adoecidos, embora pia abaixo, verde grudento-aquarelados. O rastro que fica é uma espécie de alento. Um lamento que se esvai conforme nós, sobreviventes, acabamos por respirar melhor. Mas também inspiramos assustados à medida em que nossos colegas são esfregados ralo adentro pelo que hoje chamamos de  cerimônia da água quente, que demora a chegar, mas que transforma o evento num enterro-cremação que finalmente elimina os últimos vestígios de uma linhagem que certamente deixará saudades.

Esta espécie de catarse assusta ainda mais quando ele encasqueta que ainda há alguma coisa fora do lugar, uma casca antiga, perseverantemente seca e dura; ele tem que futucar. Esquece que o universo pode estar assistindo e engaja na dissonância da estética. Ofende a beleza ao colocar o graúdo no nanico; um horror. Uma distorção de proporções inaceitáveis que insulta até a perspectiva.

E quem o faz certamente não se olha no espelho. Se olhasse, veria não só a feiura como também a impossibilidade; que só acontece, a propósito, quando o ser-se-acha invisível. Não consegue enxergar o próprio reflexo distorcido, violentado; um grotesco personagem de filmes de terror.

A cena avança. O vício vence. O limite da elasticidade é colocado à prova. E o do tempo também. Ele vai além, além do minuto e fica lá; gira para um lado, gira para o outro, uma broca helicoidal; força aqui, força ali, e só para quando encontra o que supõe suficiente. 

Mas o que jorra é sangue, e o que volta é a pequena falange de cabeça vermelha até embaixo das unhas. Uma afronta à natureza que ele ainda tem a pachorra de contemplar: parece o membro o machucado, e ele se volta ao espelho para ver uma outra distorção, esta bem real: um pequeno buraco de um lado, do outro uma cratera – suas bordas inchadas e pulsantes. Ele revisita a garra, como que checando as proporções: incrédulo. Mas insistente, e talvez inflamado pela cor em evidência, enterra o indicador novamente cova adentro para arrancar aquele maldito naco que insistia em incomodar; futuca um pouco mais e só quando começam a descer lágrimas dos olhos, se rende; finalmente.

Uma ode à persistência, reconhecemos, pois que nós também o somos. Mais ainda, tenazes, visguentas, e um tanto teimosas.

E gostamos de aprender.
A propósito, o corpo gosta. E isso também aprendemos durante uma série de TV que ele gostava de assistir; e com quem compartilhávamos o prazer, ainda que deitados na borda do perigo: documentários médicos.

Neste dia, o programa era exatamente sobre a gente – sessenta minutos sobre o muco nasal: nós em essência.

Segundo a ciência, uma espécie de secreção transparente (ainda que nós nos vejamos verdes) que é produzida na mucosa, a parede do nosso algar, e que serve, e muito, para o bem estar do humano que nos alberga: mantém os tecidos hidratados, e impede que algumas porcarias como bactérias, vírus e fungos acabem nos seus pulmões.

A natureza é sábia. 

Mas ele a confronta. Traz toda a imundice no mundo para dentro. 

No fundo, ele sabe.

E agora nós sabemos; também que somos essenciais. 

A gente protege; ajuda a respirar.

Ele precisa de nós, e não somente o contrário. 

Mas ele não respeita essa co-dependência e desvirtua a lógica das decisões. Ou algo que além dele decide, pois basta um ócio, uma espera, uma ansiedade e lá vem ele, como que com vida própria, a preencher buracos vazios. Sentimos a dilatação e nossa casa cresce de tamanho por alguns segundos.

Sofremos com esse vai e vem. O corpo produz exatamente o necessário de nós, mas quando o tamanho da casa aumenta, ele supõe que somos mansão, e nos lota. Por isso decidimos que alguma coisa tem que ser ser feita. Nos reunimos na última assembléia e decidimos que vamos ser resistência. “Ninguém larga a mão de ninguém”, um colega disse, e acho que vamos seguir essa linha. O decreto então foi para que, a partir daquela data, todos fossemos ainda mais agarrados. Não bastava mais o visco natural, mas tínhamos que mudar o nosso comportamento para que ele mudasse o dele: amálgama.

Por isso entrelaçamos; e o resultado foi aos poucos aparecendo.

À medida em que aumentávamos a dificuldade, mais determinado ele ficava: incursões de até cinco minutos! E variadas: Polegar, indicador e até mindinho. Quase desistimos.

Mas depois de uma frustrada e dolorida tentativa com dois dedos que o fez chorar sangue, sentimos que o jogo podia mudar. Ouvimo-lo dizer: “Nunca mais”, um desfigurado olhar no espelho.

E como o doce que se come, a erva que se fuma, o gole que se dá, a mão obstina. Volta a obsessão, deturpada: chupam-se os dedos, roem-se as unhas. O couro cabeludo é coçado a ponto de dos cabelos caírem. Os dedos apertam os olhos. 

Quando a dor rompe em desesperado choro, uma gota que para – esperando acumular-se, – na porta de casa nos sensibiliza. E enquanto a assistíamos magicamente engrandecer, por uma fração de segundo soltamos as mãos. 

Boa na Pipoca

“É por isso que eu casei com você Pina, porque você é boa na pipoca.”

A frase é dita sem pretensão, mas certamente com malícia, num dia em que Abelardo, amigo do casal, aparecera por lá, na casa deles para curtir um fim de tarde; tomar umas cervejas, e descobrir, a posteriori, que a pipoca também fazia parte da rotina do casal. Neste momento, a vontade foi só de comer manteiga.

Conversa vai, conversa vem, o tempo passa rápido e a fome vem junto. O por do sol já era; o que esquenta agora são os goles e as panelas; as bundas delas; e suas tampas, que entre fechadas e escancaradas, deixam vazar o vapor de semi abertas.

O amigo que a essa altura já virava quente-amido, observa o movimento com alteradas intenções; e pulula. Percebe que Pina, surpresa pela revelação do marido, sorri flocos de canto de boca; e o parceiro, há princípio em morno-fogo, também começa a produzir vapores. Nunca tinha pensado na mistura, mas a partir do próprio comentário, aventa o impensável. A sugestão estava ali, desabrochada mas simultaneamente bem-velada por constrangimentos de um futuro ao mesmo tempo desejável, oportuno, sonhador. 

Cada um tenta amenizar a tensão do desejo contido por goles cada vez mais sorridentes e algo lascivos. A cama está feita, mas ninguém ainda ousa deitar acordado. Delongam.

Um estalo na cozinha os tira do transe e põe Pina de pé. Ela vai até lá, espera; espera.”Será que eu sou boa na pipoca, ou boa de pipoca?” especula consigo enquanto a multiplicação de grãos lentamente arrefece; mas não o seu desejo, que pelo contrário cresce, e rápido, à medida em que põe em outras perspectivas as palavras sugestivas o marido; a arquitetura é ampla. E disruptiva pois não tem pontos de fuga. Ou tem, como toda obra, mas aquela não teria.

Abre a panela: alguns saltos e espasmos. Ela põe um sal e volta para a varanda com pipoca na boca. Abelardo vê o melado. A delonga cessa à medida que Pina se aproxima. O balde que traz abraçada está lotado. Mas as quatro mãos que aguardam não se importam, e transbordam. Agora são seis: trinta dedos amanteigados que se entrelaçam. Que sobem para os lábios e instigam uma apoteose cinematográfica: a cena saída da tela bem ali; e eles protagonistas que nem pensam em atuar. Entregam-se talvez a uma realidade sonhada, uma deliciosa ficção que estava sendo produzida ali, na hora. Posta em prática sem ensaio; sem firulas, sem pudor, sem constrangimento algum. 

Se fecham na panela e se matam de ebulir.

Trombam, caem, levantam, voam, deitam; friccionam. Nem pensam esfriar. Não podem. Que o futuro de pipocas travessas sempre acaba num canto escuro e escondido.

E é sempre achado por acaso.

 

Eurico_cp

Sono Falta

Acordou. Como se nada tivesse acontecido, ou simplesmente sonhado, acordou. Depois de setenta e duas horas embaixo das cobertas, serenamente despertou para o dia que lá fora brilhava. Do lado de dentro, ainda escuro, um alívio. Todos que passaram pelo quarto durante aquele período, achavam que ela não voltaria mais; que desta vez estava presa, confinada para sempre no que acabaram por chamar de sono sem fim.

Desde pequena, sempre fora assim. Vivia o dia e quando chegava a noite, dormia. Mas na manhã seguinte, quando a mesa do café já era só toalha, ela continuava no lençol. No início os médicos diziam que era normal, mas com o passar do tempo, e as horas no escuro aumentado, virou exceção; depois, especulação. Deveria haver algo de errado, mas todas as funções do corpo estavam de acordo com a cartilha. Fisiologicamente também não havia problemas, e a menina, sempre sorridente, dormia e acordava conforme a vida ditava, e crescia.

Na escola, logo virou celebridade, pois não raras eram as vezes em que pulava um, dois ou até três dias seguidos. Depois reaparecia, o fantasma camarada, e se tornava somente mais uma garota comum do terceiro ano. Na manhã seguinte estava lá, na outra também e na seguinte a mesma coisa; mas a cada dia que passava, os colegas iam ficando cada vez mais ansiosos para ver quando ela novamente sucumbiria ao sono profundo. Assim era entendida a coisa: de tempos em tempos a fantasminha tinha que dormir um pouco mais; e dormia. Os professores entendiam a questão e acreditavam, ainda que com alguma desconfiança, que com o tempo o espectro ia perder a transparência; ledo engano, pois o tempo só aprofundou ainda mais seu sono. À medida que crescia, mais dormia, e quando chegou ao ensino médio já o fazia por duas semanas ininterruptas.

Os novos professores se adequaram e os colegas também. Os namorados nem tanto: aquele amor de manhãzinha nunca era garantido e a segunda vez podia demorar uma eternidade.

Veio a faculdade e com ela algumas complicações. Estava ficando difícil para ela se adequar ao mundo; e vice versa. A civilização estava presa ao tempo e também ao processo. Ela não respeitava o tempo do mundo, e nem conseguia, mas o mundo tampouco se importava com ela. Mas a universidade, por princípio cientista, dobrou os joelhos, e ela continuou por lá. E começou a entender melhor que o tempo não era somente seu; e que valia dinheiro, e que era escasso. Sim, era bem escasso, ‘e o uso que eu faço dele’, se perguntava, ‘seria um desperdício?’ ‘Não’, ela realmente não achava, pois só adormecia quando precisava de fato. Os amigos atestavam: ela chegou a usar a técnica dos palitos nos olhos, e só quando já estava a ponto de ter a pupilas perfuradas é que a levavam para casa dormir, para até quando?

Ela na verdade pouco se importava, pois ao dormir, não dormia o sono dos iguais. Noite adentro era pura consciência.

Decifrava a fantasia durante o sonho, e pela manhã não havia lapsos, nem resquícios de uma memória esfumaçada. Tudo estava lá, a descoberto, claro como a neve, o dito e o não dito. Suas percepções também voltavam mais aguçadas e sua sensibilidade era um jardim à flor da pele, uma floresta repleta de sentidos que jamais alguém sentiu.

Tato, olfato, paladar, visão e audição, tudo era ampliado, realçado pela duração dessa exótica bonança. E como ano a ano ela passou a dormir mais e mais, suas habilidades se desenvolviam de acordo; ela é puro aprimoramento, como que se durante os períodos em descanso ela se ativasse. Como se o sono fosse claro, e um caminho se revelasse à medida em que fechava os olhos.

Quando abre, dessa vez já se foram quatro meses; mais o quadro foi pintado, a música escrita e ela mesma já toca o violão. Tinha aprendido um pouco mais de filosofia e podia dar palestras sobre economia sem nunca ter estudado os números. Estava mais bonita, inclusive: os olhos mais azuis, a pele, uma tez; os cabelos mais sedosos e os lábios mais carnudos; porém também ficou sem o namorado que cansara de esperar. Apesar da versão retocada que vinha a cada amanhecer, havia o vazio do tempo que existira fora dela: o tempo do outro, que a propósito, passava; e todos envelheciam.

Percebeu com surpresa que o tempo dela, ao contrário, a preservava. A cada descer de pálpebras, também economizava vida. Era como se fosse colocada numa capsula do tempo e trazida de volta remodelada.

Fazia bem dormir, melhor ainda acordar, fosse quando fosse.

Alguns diziam que era o sono dos deuses, e assim, como num lento piscar de olhos, o assombro, aquele camarada, deu lugar a Xerxes e seu sono foi ficando cada vez mais poderoso; e desejável. 

‘Não quero mais ficar acordada’, concluiu. ‘E se eu dormisse, digamos, por uns dois ou três anos… o quanto eu me lapidaria?’ especulou. ‘Há limites para a meu progresso?’

No sono portanto, investigou; e quando despertava, lembrava de tudo e de todos; e de todos os lugares por onde havia passado, com quem conversara, o que aprendera. Era a essência da lembrança consciente o tempo todo. E depois, diante do espelho se perguntava se seria uma espécie de heroína. A contrapartida do reflexo não deixava muitas dúvidas.

Cinco anos se passaram e as suposições se confirmaram. Quando acordou, tinha a sabedoria de Odin, a beleza de Cleópatra, a força de Shiva. Foi até ao Altar. E foi quando complicou um pouco, pois os homens de batina não queriam um outro Deus. ‘Mas eu sou um’? ela até se questionava, mas sem muita fé pois encantava; seduzia. Ia na contramão da dúvida.

Virou a Deusa do Sono, e como tal elevada, cada dia mais deidade, fez fiéis, seguidores da fantasia, uma ode à liberdade, à leveza, ao espreguiçar criativo, sugestão para a próxima obra de Domênico.

Espreguiçou-se. E dormiu-se. E até os sacerdotes sucumbiram ao encanto. O mundo aparentemente precisava dormir, e até os que pouco o faziam, escravos do trabalho – ou do prazer – se renderam e deitaram. Encostaram suas cabeças no conforto sugerido pela diva e deixaram-se levar pela magia. Aos poucos, aqui e ali, o mundo se horizontalizou. 

E descansou. E os homens descansaram por uma geração. Não houve trabalho, não houve lazer. Ninguém comprou nada, ninguém vendeu. As bolsas pararam e ninguém mais especulou. O dinheiro de uma hora para outra não servia mais para nada – nem para comprar o próprio tempo – e os carros enferrujaram; assim como os ônibus, os caminhões, os aviões. As lavouras estragaram e as larvas adoraram, assim como todos os insetos – que a propósito raramente dormem. E o mundo foi deixado às moscas.

O silêncio prosperou agudamente e o único som que se ouvia dos homens era o ronco. O restante eram relinchos, miados, mugidos, chiados, uivos… a folha que caía, o rio que passava, as ondas que iam e vinham com suas espumas, e não apagavam as pegadas de ninguém pois não havia mais pegadas; ou só as das gaivotas que por sua vez pescavam e crocitavam livres à luz de Fernão Capelo.

De olhos fechados, a sociedade continuava a repousar; a expectativa talvez fosse também de evolução, mas não havia sequer hipótese. Esta fora especulada lá atrás, na consciência, e ‘deu ruim.’ Mas agora o lençol era soberano e toldava opiniões. A agitação acontecia no aparente breu onde as falas sonoras não ressoam, mas são, sim, percebidas. Um dia se ouve o que lá no sonho foi falado e um dia vem à tona.

Um dedo se mexe. Uma perna se estica. Os lábios ainda estão colados; os olhos também. A respiração é consciente e profunda. As pessoas aprenderam a meditar e permanecem assim até o tempo da nuvem passar. Ela agora é clara e não pesa sobre a cabeça de ninguém; é silenciosa e se move na rotina daquela gaivota que simplesmente passou, pescou e sumiu; desaparece para dar lugar a um outro pensamento que também vai passar; assim como o próximo, o próximo e o seguinte, tudo passa.

O sono que faltava também, e a Deusa que durante todo esse tempo também dormira, desperta. E desperta e observa o mundo que agora vê a ela espreguiçar. O som do bocejo é como um mantra universal, e todos cantam em uníssono o canto que aprenderam em sonho; na viagem de cem anos que fizeram pelos quatro elementos essenciais. Agua, ar, fogo, a terra é a mesma mas mudada. 

“E agora?” uma voz pergunta a esmo.

Mas não houve resposta, que a Deusa voltara a dormir.

Ecp

#euriscritor

Acepções

No momento em que o tema é dado, a caixa se rompe. O ditado vira realidade. Vão ter que ‘pensar por fora’. Assim como o conceito recém criado por ela, a professora que vivia por dentro do que não existia. E extraía-o-que-podia dos que se permitiam viajar com ela no curso de Arte & Conceitos Abstratos: uma conexão de instintos. Um absurdo, para alguns, mas era o que era, e a turma estava completa. 

O tema é VAZIO, o que sugere o oposto, e logo a professora põe-se a conjecturar sobre o que a surpresa causará aos pupilos. Sim, assim eram aos olhos dela. O que aquele desafio despertará? Como lidarão com esta urgência e a insubstancialidade.

Eram tantas as acepções.

E tão pouco tempo. Uma hora, ela dá. 

E eles, no instante apavorados, logo embarcaram no juízo-ao-desatino, no vácuo das idéias, no buraco negro das palavras. Na tinta preta que da cor aos pensamentos. Teriam que pensar & rápido, para ontem, pois a pressão do vão automaticamente reduz o tempo daqueles que devem ocupá-lo.

Clara sente falta de ar. Busca de boca aberta, de boca fechada, nariz a puros pulmões, levanta-se, abre os braços. Nada acontece até fechar os olhos. Como se eles fossem não a porta da alma, mas uma janela para o céu azul, repleto de balões, bexigas, milhares delas-e-coloridas, recheadas de idéias e pairando sobre sua cabeça. 

Era o oxigênio que ela precisava, transformado em hélio-inspirado, e põe-se a matutar.

Irritada com a proposta, Bárbara cruza os braços. Empina o nariz, balança negativamente a cabeça e abre a boca num longo suspiro. “Lá vem eles a preencher vazios”, pensa. “Não há nada melhor a fazer?” Era do tipo que ocupava o tempo de outra forma; as lacunas com prosas, as entrelinhas com palavras. O vazio não existia, pois no instante em que surgia, ela o obliterava. Falava, andava, corria, trabalhava o tempo todo; autora, palestrante, apresentadora. Manda tudo às favas, ressignifica a opinião e põe-se em movimento.

Amanda, que tinha vivido fora do país, lembra da cidade onde morou; agora fantasma. O que ficara, há quanto tempo? nem lembrava, mas a sugestão da professora a remete diretamente para lá. Foi onde vivera por anos e de onde trouxera inúmeras lembranças, hoje fragmentadas. “Consigo consertar o vaso?” especula enquanto rabisca no papel os tema-pedaços sobre os quais podia escrever; grandes cacos, lisos, ásperos, minúsculos, pesados, de cerâmica, de vidro… Reescritas porcelanas costuradas na pena.

O sistemático Cícero endireita-se na cadeira, arruma suas coisas na mesa, coloca as mãos, os dedos alinhados à folha que ele já destacara do caderno e aperta os lábios, uma prática sua, olhos fixos à frente. O desafio é fácil, e de pronto começa a ordenar acepções: branco, buraco, fantasma, vazio era só uma questão de conexão e o exercício estaria pronto. Engenharia, sua formação. Mas e a narrativa? As mãos espalmadas começam a imprimir digitais, e seu olhar, sempre atento e determinado, por enquanto oscila.

Matuta e plena, Clara flutua balões à fora, e vai. 

Bárbara escreve; mãos à obra. A folha em branco só existe para ser enchida, e ela entulha.

Amanda chora; borra-maquiagem.

Cícero continua vacilando. Os dedos vão à boca. Os dentes os mordiscam.

A folha da Bárbara-rasga. A ponta do lápis quebra. Ela esmurra a mesa.

A professora, que até esse instante mantivera-se calada, mantém-se. Se faz parte do exercício, talvez e ninguém sabe. O curso tinha também esse tom; e falava de instinto: o contrário do preparo. E por isso Deus ria dos que insistiam no Plano; talvez naquele instante risse de Cícero.

Só falta o maluco surtar, pensa Bárbara enquanto o observa duro. Ele realmente congelara, mas paradoxalmente tremia; e suava. O vazio o abandona no escuro. No fundo do poço onde a luz, ainda que paire sobre sua cabeça, é um minúsculo pingente a quilômetros de distância. Sua lógica não alcança. Ao suposto contrário de Amanda, cuja lógica da saudade resulta em lágrimas; o passado continua em cacos que ela tem que consertar. Pingam gotas na folha. Ela não esmurra a mesa, mas tem vontade. Olha para cima, como Clara olhara, mas só vê o teto. Clara via muito mais, ela supõe, por isso continua olhando para ver se enxerga. Insiste, insiste, insiste.

Não vê nada, mas Clara fica lá. Quando finalmente finalmente baixa os olhos. 

Vai começar a escrever, imagina a professora; mas ao invés disso ela escaneia o ambiente-lentamente; olha para os lados, não troca olhares. Somente observa o entorno como que para captar sensações. E dessa vez quem sorri é a professora, como se a conhecesse desde sempre, e a cada um deles.

Do poço sopra um vento; e um movimento. Descongelamento. O plano é posto em prática e ninguém vai rir de mim, pensa Cícero enquanto imagina cordas, e madeira, uma escada e começa a subir. O pingente está longe, mas o suficiente para dar luz ao início do seu texto.

Outra folha se vai, mas não rasgada. É Bárbara atolada. É o Trabalho de Síssifo, a Agulha sem fundo, a Teia de Penélope. A fraude, ela especula; a aparência, a falsidade, as palavras açucaradas, o canto da sereia. Tudo e insuficiente: o limite, as máscaras; a miséria das máscaras. E ela escreve como se não houvesse amanhã, literalmente; e nada. E novas reflexões, pois o mundo nunca acaba, ela conclui-por-enquanto.

E por ora o choro-cessa. A pia esvaziou. A saudade escorreu toda e só sobraram gotas; pequenos fragmentos de um tempo que passara. Que Amanda reforça: ‘já passou, larga mão, deixa disso, enterra!’, e ela põe no papel o tempo que ficara por lá. Uma porcão de cheios e vazios, intensidade moça, novas cores, cheiros e sabores, os sentidos todos aflorados ao som do menor toque.

Paradoxo do gelo, Cícero derrete, e poeticamente, pois flui. Suas mãos acostumadas à lógica, saem da régua. Os círculos saem das mãos e não mais do compasso, que é aniquilado; até a linha é sinuosa, e ele coloca uma cobra na história. A troca da Pele. A morte e o renascimento.

Antologica-mente, Clara já devaneou por quarenta e três minutos. “Deixara sua mente esvaziar? ou já a completara com o que acabara de colher?” supõe a professora quando coincidentemente ela começa a escrever. Letra atrás de letra, palavras vão se formando, determinadas como se elas próprias se pusessem a escrever. Clara é só passagem, ou um fio condutor por onde carrega o que foi determinado; um corpo preenchido por um destino que vem de fora; ela redige em alta velocidade e de olhos fechados.

O tempo passa, como se esvaziando, uma ampulheta.

O vazio de Bárbara são quatro folhas amassadas.

No vazio de Amanda, três molhadas. Uma não. (dar uma mão ao leitor)

O vazio de Cícero são três em construção, como tijolos; suas mãos a argamassa e um telhado porvir. 

No vazio de clara, uma explosão de balões. Azul, Vermelho, Verde, Rosa, eram todos que ela vira; e de cada um deles pinga uma infinidade de acepções que no caminho foram transmutadas para o cinza; variações do preto e branco que ela captara, na forma de letras e palavras, e que instintivamente preenchera conectando as percepções de cada um.

O tempo acaba. Toca o sinal.

Eles levantam a cabeça procurando a professora.

Ela não está.

Monte Olímpo (Tétis e o Bico Sonhado)

Era como um Monte Olimpo, ele imaginou, a morada dos deuses onde sempre quisera estar.

A caminhada era longa, longuíssima, por isso teria que ser lenta. Não tinha pressa, e sempre fora da jornada. O destino há de chegar-se, naturalmente. Por isso andava tranquilo. Tinha em mãos seus fones de ouvido, e flutuava por meio de blues, jazz, rock e sinapses eletrônicas; suficiência para mantê-lo sempre à frente; focado e entretido.

O sol era opressor; constante. Não havia nuvens. E a miragem, que costuma não existir, mostrava o caminho em direção ao que se propusera o herói. Está logo alí, pensou, enquanto o horizonte não apontava nada; mas em sua mente, tudo. Mordeu os lábios, sentiu desejo. Vislumbrou.

Foi por terra, pela água, no mar. Não voava; tampouco parava, eis o segredo, já dizia o velho sábio, o do ditado. Subidas profundas, descidas celestes e multiplicadas; em uma palavra, jornada. A cada partida, um novo sonhar. A cada chegada, pausa. Um cochilo que sonhava com a imagem ao futuro. E morde os lábios novamente.

A estirada é dantesca; mas já no primeiro círculo, o do inferno, vê água. Um rio vermelho que transborda, e abaixo dele, o fundo do mar que o cega. Mas sem opção, cego-luta. São monstros: lulas-vampiro, peixes-dragão, águas viva-ferventes, é a pré-história marítma tentando embargar a travessia. Mas ele não cede; e com marcas no corpo e na mente, consegue cruzar o portal deixando um longo rastro de criaturas marítimas. 

Emerge pisando na claridade. Enxuga as rúbras lágrimas e enxerga a fortuna que está nos confins. É naquela direção, aponta. Saliva.

A vontade do néctar confirma um possível delírio e o deserto se torna floresta. Caminha tranquilo no desfrute das sombras, deita na beira dum córrego e repousa com peixes agora colegas. Ao som das correntes, das folhas em brisa, enxerga de olhos fechados. À flor da pele sente que o momento está perto. Inspira profundo e confere a direção do destino.

Avança, avança, avança por milhares de quilômetros. O mundo se inclina. Então avança morro acima com pés de Aquiles. Voa pois não tem calcanhares e ascende, e acende rumo ao pico que está também aquecido; desperto, desejoso, um vulcão.

Toca os seios de Tétis, a ninfa do mar; alva é sua cor, e rosa, doce.
Ela os acaricia lenta, levemente cada centímetro, cada curva e sente o monte vibrar, crescer; a pele tremer. Suspira que o ar nesse momento inspira. 

Arrepia.

Ofega que o ar é quente. Lava: uma língua de fogo no alto do monte, e a deusa da água a jorrar labaredas. Ele as sorve. Há volúpia no ato. 

Dos seus lábios deleitosos escorrem gotas em chamas que escorrem Olimpo abaixo; e concretizam o sonho, agora lava endurecida. 

 

Eurico_cp

Boletim de Ocorrência

O tempo não passa, meu deus. E o que é que eu estou fazendo aqui?

Não! Eu sei por que estou aqui. Só não acredito.

 

“Seu delegado, pode acelerar?”

“Calma aí, senhora; eu sou o assistente dele. O delegado já vem te atender assim que finalizar o outro caso.

“Calma, Senhor? Como é que eu posso ter calma? Eu acabei de cometer um crime e o senhor pede para eu ter calma?”

“Senhora…”

“Para de me chamar de senhora, por favor, que senhoras não fazem o que eu acabei de fazer.”

“A senhora ficaria muito surpresa.”

“Como assim? O que o senhor quer dizer com isso? Que outras pessoas fazem o que eu fiz? E o senhor nem sabe…”

“A senhora ficaria surpresa.”

“Surpresa é pouco. Olha para mim.”

“Já vi a senhora faz tempo. Aguarde que o delegado já vem te atender.

Então aguento por horas. Como se eu não tivesse nada mais o que fazer. E na verdade, nem tinha; mas queria ter, pois não queria de forma alguma viver novamente o que acabara de viver. Viver, a propósito, é uma palavra que não encaixa, pois uma vida cessara; eu a-cessara. Eu tinha acabado com uma e ao mesmo tempo não parava de pensar nela. Não que eu tivesse alternativa; não não tinha. Naquele momento de fúria, tudo podia acontecer. Tudo. Eu sabia de antemão; previra. Nostradamus na real. Eu já tinha falado para o vizinho, inclusive: “tranque a porta da sua casa”, por favor e com educação, mas ele deu de ombros. Dar de ombros, vi no dicionário: “erguer os ombros em sinal de indiferença,  não se preocupar, ser indiferente.” E foi exatamente isso que ele fez, como seu eu nada valesse. E nada do que fosse meu, a propósito, pois essa indiferença não se aplica só à mim, mas a todo o meu escopo; a toda a minha amplitude, minha extensão, minhas coisas, meus pertences, meus amores. Ser indiferente! Eu podia agora mesmo escrever um tratado sobre a indiferença, mas do que adianta? Do que adiantaria eu gastar minhas energias? Esclarecer a ignorância do ignóbil? Explicar o perigo para a besta? Pérolas ao vento, pérolas aos porcos, porco que ele é. “Feche a portinhola do chiqueiro”, eu deveria ter dito, e sem nenhuma educação. Mas a ‘boa vizinhança’, a porra da política da falsidade que alguns tanto amam embaçou minha lucidez e eu aceitei aquela torta de galinha quando eles chegaram da primeira vez: “aceitam um café”, meu marido ainda disse, e eles entraram: Paulão e Margarida sentados no sofá. No meu sofá, no meu lar, na minha intimidade que a propósito nunca quis compartilhar. Mas lá estava eu, na cozinha, passando o cafezinho para os novos vizinhos do bairro.

Foi o começo do conto do vigário que jamais usou batina. Do conto que agora conto em minha mente enquanto espero para contar a história que vai de verdade-valer. Que vai para o papel do delegado e quiçá me inocentar. Mas será que sou culpada?

Estou com medo; quem é que vai me acreditar?

Fato é que quase me arrependo, quase. Ainda vejo sangue em minhas mãos, entre-dedos. Na barra da calça a mesma coisa, e cadarços cor de rosa. Será que foi uma chacina? Suo. Massacre, não. É preciso que haja mais: muitas pessoas ao mesmo tempo, é o que o diz o mesmo pai dos burros; acredito nele. Acredito piamente nele. E não sou de matanças.

Mas os tempos são outros, o mundo mudou: agora tudo é crime. Será que inafiançável? Não sei. Tenho testemunhas? Não! E o vizinho? E Margarida, que como uma flor sem água a dias, murchou instantaneamente assim que ouviu os gritos. E vociferou ainda mais quando viu a poça; e mais ainda quando percebeu a imobilidade: cabeça mole e ensanguentada-pendurada que ela abraçou como a um bebê, seu bebê crescido, agora falecido-assassinado: “Você matou o meu filhote, sua assassina”, e gritava, e gritava, e gritava. E queria me espancar. Mas com as mãos encharcadas de sangue e uma boca de dentes rangidos, eu dava a impressão de ser uma outra pessoa, um monstro sei lá, uma desvairada; e isso a manteve afastada, meio cautelosa, medindo seus avanços. Mas não seus xingos que não paravam de chegar; quando chega Paulão.

A faca escorre.

A faca cai.

A faca pulula no chão.

E respinga.

Em câmera lenta repasso a dança que se segue sem música. É a trilha sonora da película em que enxergo a mim mesma a distância. Sou a protagonista-vilã que,  juro, acabou aonde estava meio que por acaso-instinto-materno. Não devia estar lá. Eu, não devia estar lá. Paulão, sim, o dono-do-morto; o responsável pela tragédia: o portão aberto. O que custava baixar a tramela? Mas não, o desleixo prevaleceu; a teimosia ganhou; a arrogância, pessoa relapsa. E agora ali no meio da poça, que incômoda ainda crescia, seu filho jazia. E agora, quando nada mais adiantava, ele veio. Agora! “Agora não adianta mais”, pensei; agora já era. Não havia mais nada o que fazer enquanto ele vinha em minha direção; e enxergava, e acho que ouvia o que eu tantas vezes falara. Ouvia as mil e uma vezes; e também naquele exato momento, naquela fração de segundo, pois num centésimo ele parou. Diante de mim, olhos em mim; eu nos dele, desafiadores minutos que não se cederam. Continuamos lá, conversando, uma conversa às avessas: discutindo, gesticulando, agredindo, tentando explicar; fizemos tudo isso sem mexer um músculo. Mas entendemos tudo. Ele viu meu desespero, viu as tentativas infrutíferas de aparte, meu desespero, minha corrida até a cozinha, até a gaveta da cozinha, a faca na mão. Não sei se conseguiu ver a ação.

Mas depois ele se virou; não baixou a cabeça. Eu me virei e finalmente fui abraçar o meu filho.

Ele pegou o dele e o colocou no colo, imóvel, enquanto saia bem devagar acompanhado pela esposa que continuava a chorar, agora mais resignada, como se também tivesse compreendido a conversa que eu acabara de ter com o seu marido.

“Número vinte três”, eu ouvi alguém gritar. “Número vente e três”, ouço novamente; e desperto. “Número vinte e…”

“Já vou”, digo impaciente; e assim que chego ao guichê para contar a minha história me deparo com Paulão.

 

Eurico_cp

Caos

“… entre o conhecido e o desconhecido, havia, e há esse mar de cinza, esses infinitos tons que eclipsam o maniqueísmo das coisas: a dualidade que insiste em habitar aqueles que se deixam reger pela polaridade do mundo. Para os outros, que habitam digamos, nas possibilidades, talvez haja um pouco mais de aventura, pois no perigo dela, curiosa, também se acolhem as surpresas que o mundo do talvez tem a oferecer.”

Ao sabor da poderosa fala do renomado professor, o simpósio se calou. Pouco se ousou falar. Ele deixou claro seu ponto de que a questão não era exatamente escrever sobre o que se conhece ou não, mas sobre certezas e dúvidas, certos e errados, e inusitados.

Então continua: “Há, por exemplo, coisa mais bela que o por do sol? Na montanha, na praia. Um fenômeno, qualquer que seja a estação. Há sabor mais gostoso que o da infância; daquele que ficou, do qual a gente se lembra com água na boca; ou mesmo da água, no jarro de barro? Há sensação mais excepcional do que a descoberta de um novo caminho para o mesmo lugar? Do medo que vira revelação. Do suspense que vira sorriso? Há presentes mais gostosos que estes, do simples, da surpresa, do sensível, das percepções? Da brisa que sopra no dia do inferno; do sol que derrete a era do gelo? Da nuvem que passa, do vento que as desenha? Não dá para desdenhar, não é mesmo?

‘O seu ponto de vista deveras instiga’, surpreendeu um outro lá do fundo que queria debater, ‘sem dúvida a aventura muito nos serve, mas temos que tangibilizar algumas coisas. O que seriam as sensações, essas percepções de que fala? Como as pessoas ativam isso?’

“É um aprendizado. Ao longo do tempo, esse de sensibilização: olhar para uma árvore por horas e saborear seus verdes. Bochechar o vinho e depois cuspir, se olhar no espelho e ver os dentes rubros. Antes de sair, olhar de novo e fazer caretas. Ouvir Beethoven, chato; Ouvir Vivaldi, um pouco menos; ouvir Tchaikovsky, vem o aceite; Bach, já to gostando: Mozart, adorei, não por que um é melhor que o outro, mas porque já aprendeu. Ouviu o suficiente para perceber as sutilezas; seus ouvidos foram educados pela audição voluntária. Somente a partir daí a arte faz-se conhecer. O desconhecido se abre ao terapeuta e vira palavras nas páginas de Irvin D. Yalom, Philip Roth, Italo Sveno, entre tantos outros que se permitiram entrar na floresta encantada, ou na proibida de Hogwarts.”

‘Eu escrevo sobre o que conheço’, disse um autor recém lançado que se levantara para falar. ‘Acho que a confiança brota a partir da aventura que já conhecemos. Depois a ampliamos, claro; mas a segurança do caminho pavimentado é essencial; como a fundação de um edifício, mesmo que ele depois passe a acomodar bruxos e fantasmas. A gente essencialmente escreve sobre o que conhece e vai viajando ao longo do caminho, mesmo que de vassouras mágicas, como o senhor mesmo aventou.’

O palestrante se mantém calado pois sabia que tinha engajado a turma. O assunto agora estava aquecido, e aparentemente o salão estava dividido em dois: aqueles que acreditavam na escrita a partir do que não se enxerga, e os que sustentavam a tese de que, primeiro se escreve sobre o que se sabe, evitando riscos desnecessários, para só depois abrir as asas-abraçando o devaneio.

‘Vocês acham que eu devo escrever uma história ambientada na Escandinávia, ou no Brasil, onde passei a maior parte dos meus anos? Falo sobre as almôndegas que vovó fazia ou sobre os tais scargots que nunca senti? Será que o gelo descrito por mim será como o frio sentido no Alasca? Uma casa cá é igual a casa lá?’

Este parecer do jovem talento colocou, como dizem, ainda mais lenha na fogueira. Burburinhos começaram a ocorrer e ficou óbvio que o debate não teria, digamos assim, um vencedor; e infelizmente, pois dessa forma a história não tem conflito. E eu me pergunto: como uma evento num grande salão sobre literatura pode acabar assim? Está na estrutura do conto a existência-da-treta. Mas até agora, pelo que a gente observa, tudo podia acabar em palminhas mornas. Entre o desconhecido e o conhecido, a trilha do meio estava crescendo. Mas tinha gente que ia num outro caminho.

‘Não podemos esquecer do inconsciente-gente. Tudo advém de lá. Supomos fazer as coisas despertos; supomos. É o que dá pra fazer, pois o inconsciente é soberano, já dizia uma velha amiga. É ele que rege, é ele que comanda. E é tão ardiloso que ainda nos ilude a acharmos que fazemos algo de vontade própria. Dessa forma, se a escrita é pior ou melhor, se de um jeito ou de outro, pouco importa: o que sai pela mão já nos habita por dentro há tempos.’

‘E nos rasga’, diz a bocuda de dezoito, jovem promessa da escrita modernista, muito em acordo com o que acabara de ser dito. ‘E depois vomitamos. Isso é escrever! E quanto menos controle tivermos sobre isso, melhor ainda.’ 

Os tradicionais representantes acadêmicos, que tinham inclusive um clube, e uma evidente rixa com a modernistas e afins, e portanto com a jovem que acabara de falar, não se contiveram; perderam a classe: “Vomitar é o que vamos fazer em cima de você, garota, se não mudar esse seu jeito. Seu vocabulário.”

Será que a busca a partir do desconhecido não é uma espécie de transgressão? me pergunto enquanto o debate continua. Toda boa aventura flerta com a morte, e não há nada mais desconhecido que ela. Taí uma outra perspectiva. Será que vão abordar? O ato da criação, da produção literária como uma espécie de desolação?

Os intolerantes escolares haviam cutucado a fresca onça com os próprios braços, e ela revidou em silêncio: ‘vocês não conhecem o poder da juventude’, pensou, enquanto eles faziam o mesmo, antagonicamente: ‘você não imagina o poder da tradição’. Mas a cala da fera os incomodou mais, pois eles queriam lutar. Era da natureza deles, os rígidos.

Algumas pessoas começaram a se levantar ainda antes do jantar que seria servido ao final do evento (que se seguiria ao final do evento); os ânimos estavam muito exaltados para qualquer prostração; e o conflito se expandiu para além do debate. As vaidades também se sobrepuseram à questão e todos começaram a ter voz ao mesmo tempo. O volume automaticamente se elevou à medida em que a classe baixou e todos ensurdeceram. 

É a revelação, um prenúncio do caos.

Um percurso bem aventurado, no entanto. Contava-se ali uma outra história; uma narrativa com personagens fortes, num cenário propício à imaginação, e um arco curto, pois já estava a caminho do final.

Alguém esbarra em alguém, um tropeço; uma outra empurra aquele outro e o recinto vai se desvirtuando: um salão de faroeste se moldando. Mais empurra empurra, mais um tropeço, mais um tombo, (o prenúncio do caos) degeneração à vista. Tomava-se partido para lá e para cá, e agora o conhecido e o desconhecido, numa outra acepção, aglutinavam-se, cada um com o seu igual. 

E fecharam os punhos. E seus olhos arregalados eram de incredulidade pois aquilo não fazia sentido. Sua arma sempre fora a voz. Mas de repente se lembraram que já houve muitos óbitos, sim, perpetrados por debates literários.

Os punhos fechados se enrijecem ainda mais e seus rostos estão sérios, muito sérios, prontos para um próximo passo, soco, chute, unhadas e puxões de cabelo pois as mulheres estavam lá em peso. E agora, e de certa forma lideradas pela faladora que, obvia e rapidamente assumiu uma posição de destaque pois queria vomitar de verdade.

Os puritanos se aquietaram por um tempo, mas negociavam parcerias. Pregavam também em nome da literatura, a grande bandeira da hora que todos clamavam ter. E na verdade tinham, pois para início de conversa muito se falou sobre o meio-termo-das-coisas; mas agora, no clima que nenhum ar condicionado conseguia amornar, os punhos são atraídos como polos opostos e as pessoas vão se aproximando, o arco se flecha.

As bocas se abrem e bem de perto discutem, trocando amplos borrifos de saliva. O tom vai para o andar da gritaria e ninguém desce do salto; pelo contrário, eles já estão nas mãos das moças, que podem ser mais mortais que punhos.

“Então é isso, A Idade Média vai voltar?”, alguém grita ali do meio ainda tentando acalmar o inevitável. Mas como não continua, o inexorável dá sequência e as pessoas se tocam, e isso basta. “Não encosta em mim, não encosta em mim!” soou como um coro e também como um grito de guerra. As pessoas se engalfinharam e começou a peleja; num primeiro momento, entre os clãs que tinham se formado, mas como o espaço era apertado, em questão de segundos os argumentos se pulverizaram, ninguém é mais de ninguém e algumas pessoas caem. As roupas se rasgam como papéis e serão (poderão ser) pintadas em aquarela, ora preto ora vermelho, rosa-com-suor.

O silêncio há muito tempo rompido foi substituído pelo som-do-soco. Diferente do tiro, mas tão seco quanto. E como normalmente é seguido da dor, que não é seca, e quando multiplicado por dezenas, vêm à mente um Inferno de Dante. Era lá que estavam imersos, numa caverna que cada vez mais lembrava também a de Platão. Com a peculiaridade de que aqui todos a conheciam e mesmo assim escolheram as sombras.

As pessoas se esconderam atras das cadeiras e das mesas; forjaram trincheiras, e de lá jogavam o que estava ao alcance: os pratos do jantar, copos, travessas. Não se viu um guardanapo branco, mas já se podia ver gente com facas na mão. E os pratos se partiram; e foram pintados. O vermelho contamina os olhos, que contaminam outros, e o pavor se alastra.

A bruteza cresce entre as celebridades da pelica e a moral decai. O golpe baixo vira aquele gancho de esquerda e o salão de faroeste vira um ringue, uma tela em branco onde aquelas facas e garfos agora pintam mais uma luta do século.

“O Orgulho da Academia de Letras” logo imaginei a chamada do Jornal do dia seguinte. Ironia era o melhor vocábulo para representar aquela barbarie. 

Jamais que o Conferente pós-doc poderia imaginar uma coisa daquelas. Ele que, a propósito, mostrou muito bem sua chancela ao sacar uma arma no meio do salão e disparar um tiro para cima.

O som ribomba e o eco que se segue atordoa a todos que de uma hora para a outra passam a existir em câmara lenta, contemplando, horrorizados, seu próprio protagonismo na babel.

Os punhos se abrem: deixa disso, deixa disso, braços para o alto, mãos para cima são o símbolo da paz; conjura-se a resignação.

A jovem, de joelhos, abraça o puritano, que retribui, já passou!

Alguns olham e contemplam o que poderia ser um final razoavelmente feliz para a corrente balburdia. Mas ela pega aquele pedaço de prato pintado que jazia ali ao lado, e pinta o pescoço dele como um impulso do maior dos artistas. Daquele que respeita somente as vísceras, o vômito, como ela mesma dizia. 

E depois de espalhar pelo chão aquele vasto monte de sangue que jorrava da lata-pescoço, põe-se a escrever a história que acaba de ser contada.

 

 

Eurico_cp

Exageros de Pandora

Gostosos como são todos os exageros, exagerei. Mas não no começo, quando ia tudo muito bem.

Ou quase tudo, pois logo ao chegar à casa do meu melhor amigo, o melhor amigo de todos os homens, Wiskie, o cão, desconsiderou a máxima e lascou-me uma respeitável mordida de boas vindas na mão esquerda, a sangrar-me os dedos e fazer pingar. Tudo bem, que na casa do Shaolin, sempre preparado, curativos e cervejas à disposição, anestesia para qualquer ocasião. São servidos-petiscos, cervejas, destilados.

Lá pelas onze da noite, resolvo partir, mas não sem antes recusar alguns convites para ficar: ‘dorme aí, amanhã cedo você vai’. Mas como são os exageros, exagerei também na independência: “Não, obrigado. Amanhã tenho que acordar cedo”, típica resposta de quem, não estando bem, logo se prontifica, pelas palavras, a estar.

Quase convencido então, internalizando crenças, abraços de despedida e promessas de ‘volte-sempre’, “claro-voltarei” embarco no carro e parto na escura pista: primeira a esquerda, duzentos metros à direita, siga em frente por um quilômetro até a rotatória. Siga em frente por quatorze minutos… waze e eu seguimos como bons companheiros, eu mais atento que ele, quando ouço um barulho no pneu traseiro esquerdo. Ele obviamente não deu bola, mas eu, convencido pelo credo já instalado, acreditei que era somente uma pedrinha, daquelas que entram no sulco do pneu e insistem naquele barulho que alguns talvez conheçam: tec    tec  tec tec tectectec cada vez mais rápido assim como a minha velocidade; quanto mais rápido, acreditava, a pedrinha iria embora. Não foi! E a estrada, pixe-ao-luar, me impedia de ver o que deveria ter ouvido: o pneu estava obviamente furado. Mas quando a fé entranha, gruda nos ossos e assume o controle da teimosia, especialmente aquela dirigida a quem insiste em negá-la. 

Negando ainda mais então, persisto, pois assim é também a insistência, naturalmente exagerada; e o tec tec continua, agora também na cabeça. Estou lúcido, suponho, mas o pneu não; e ele não supõe nada. Em sua integridade de borracha então, começa a manifestar seu desconforto em outros tons: ao tec se assoma uma tendência de puxar o carro para a esquerda, e aquela mão recentemente seca do sangue coagulado, volta a escorrer; olho para ela, para a breu a minha frente, ouço o pneu chiar um outro som e finalmente me dou conta – mais ou menos – de que pode haver algum problema.

Mas os dissipo imediatamente.

Ao ver a luz da grande estrada lá à frente, cego de esperança e paro, ato contínuo, de pensar bobagens. O carro ainda anda apesar das reclamações do pneu, e o Waze, minha pandora da hora, me conforta dizendo que após trezentos metros, é só pegar à direita e seguir por vinte e três quilômetros até meu esperançoso destino.

Quisera, pois percorridos quiçá três, já não consigo mais controlar o carro, e com o volante tremendo e melado de sangue, passo também a suar, vendo pelo retrovisor não a estrada que deixava, mas a frustração de um passeio cujos imprevistos começam a distorcer o futuro.

Me rendo, e no escuro, encosto.
O Tec Tec finalmente vira pisca pisca e eu, sem piscar, tento entrar em modo solução: foco. Ao meu lado há uma densa mata; a lua está escondida. Medo. Do outro, pista e vento; arrepio. Mas sem opção me mobilizo para a delirante tarefa de trocar pneu. São onze e meia da noite, estou sozinho, cansado e por fim ciente das saideiras, que sempre dissimuladas, continuavam a dizer que eu deveria ter ficado. Mas como não ficara, encaro o escuro cenário de um filme que aparentemente me tornava protagonista.

Imediatamente me lembro do amigo que havia deixado para trás; dos tempos em que o zombávamos pela sua exacerbada precaução: sempre com uma gigantesca sacola no porta-malas com tudo o que se pode imaginar: cordas, fios, alicates, parafusos, cortador de cinto de segurança, latas com diferentes fluidos, luvas, lanternas… e suas benditas pilhas.

Achávamos aquilo tudo um absurdo. Especialmente quando íamos viajar e, carentes de espaço para acomodar nossos pertences-e-cervejas, maldizíamos aquele ‘pessimista’ que por nada cedia o espaço que era sacramente reservado para suas precauções. “Pode acontecer”, ele dizia. 

Agora, quando aconteceu, o otimista aqui sofre, não só de angústia, mas também de inveja por jamais entender aquele maldito MacGyver de outrora, versátil cientista, que agora mais que nunca, tinha razão.

Já eu, sem luz, lanterna, ou pilhas, penava. Mas lembrando da modernidade-celular, e orgulhoso da altivez inesperada, sorrio iluminado; mas só por instantes, pois à medida em que tento usar o aparelho, percebo sua inutilidade-celular. Só clareia o céu, ou o chão. Ou terei que fazer malabarismos.

O som dos caminhões que passam, em contraste com o silêncio de deixam, apavoram; é a morte que fica. O agressivo vento-que-vem no vácuo das carretas, também; sombrio. E a luz, que poderia servir como um alento ao terror, de pouco adianta; passa rápido demais e deixa um longo, longo, longo rastro de consternação.

‘Sem pesar, por favor’, digo para mim, e foco no porta malas. Pego os equipamentos, e sem demora começo a labuta do desparafusamento às cegas. Ora em cima da chave de roda dando pulos, ora agachado ou de joelhos no chão, e deus nas alturas, giro como posso, e na medida em que enxergo os cinco, infinitos e embaçados parafusos. Um após o outro vai caindo e somente pelo tato consigo colocá-los no bolso, à luz de mil malabares. 

O macaco levanta o carro. Eu levanto as mãos ao céu. No chão jaz um pneu estraçalhado.

Pego o outro seu irmão, um Continental 205P Contact 2 e sinto que estou no caminho. Agora é só coloca-lo de volta, baixar o carro, apertar os parafusos e pronto; mas a luz no fim do túnel é difícil de enxergar. (no fim do túnel não há luz.)

Como encaixar o pneu de volta? Com fazer aqueles cinco minúsculos furos encaixarem na estrutura do eixo? Como levantar aquele pesadíssimo pneu no escuro e fazer o encaixe? Como fazer tudo isso  sozinho, ainda levemente embriagado e não obstante, cansado? Por que não liguei para o amigo? Ou a seguradora? E a concessionária?

Sento arrependido, penso.

Acesso a luz da idéia, a única disponível na ocasião e estico as pernas para baixo do carro colocando o pneu no meu colo. Ótimo! Ao sentar-me, meus olhos ficam na altura do eixo do carro, melhorando minha noção de altura. Com o pneu no colo também não precisei fazer muita força para levantá-lo e colocá-lo no lugar. Deu certo. Pandora, estamos juntos.

Sobre o risco de ter as pernas esmagadas, não me importei. Tinha plena consciência do que fazia, e também outra certeza, daquelas absoluts, que o macaco aguentaria.

Pneu posto no lugar, agora é apertar os parafusos, baixar o carro, guardar o pneu estragado no porta-malas e ir embora; tudo como manda o otimista figurino: um final feliz e a cabeça no travesseiro, dormindo pesado o sono dos justos.

Mas como que despertado de um pesadelo, justo ou não, assusto com um novo trepidar. Uma enorme carreta passa a centímetros de mim e ofusca momentaneamente a realidade da situação: não baixei o carro, não apertei o parafuso, e nem fui pra casa. O único sonho que sonhei foi o delírio da dor que me apagara. 

Ao finalizar o encaixe do pneu, e antes que pudesse trazer as pernas de volta, ao menos uma delas, eis que o aliado macaco cede, sem as costumeiras graças da espécie. A dor é dilacerante, mas não a ponto de me fazer apagar de novo. Assim sofro-bem-sóbrio. Respiro fundo, a meditação fala alto. Mas a dor é insuportável. Aperto a mandíbula, ranjo os dentes; e lembro da professora de yoga que sempre pregava o contrário.

Pouco adianta; ofegante tento achar o celular.

Está lá, logo ali, iluminando o céu; e ironicamente. Pois era de lá mesmo que eu precisava de uma ajuda; uma luz no sentido contrário talvez, pois as de baixo, rodando na horizontal, só cegavam; E a eles também, motoristas, que por algum motivo tampouco me viam.

O medo real de ter a cabeça esmagada dissipa momentaneamente a dor, e passo a sentir, a cada passagem de veículo, o cheiro da sua borracha queimada e o trepidar do mundo que incontrolavelmente assomava ao meu pulsar. Eu estava todo esticado e minha cabeça exatamente em cima da faixa que separa o acostamento da pista!

Mas como temer sobre o que nada se pode fazer a respeito é perda de tempo, foco naquela luz que clamava pelos deuses e alcanço o celular. Travado-celular. Quebrado pela chave de roda que caíra em cima. Imprestável para qualquer contato. Exagerado-celular que insistia em iluminar o céu. Meu santo graal dilacerado.

‘Alguém há de me achar aqui’, penso. Mas vi também, ou desconfiei de uma poça que se formava embaixo de mim. Em outras circunstâncias talvez achasse que era somente o óleo pingando do motor, aquela mancha escura no chão. Mas não dessa vez. Alguma parte do carro deve ter baixado bem em cima da minha coxa. Estendo o braço e sinto um corte-curto, mas profundo. Sei disso pois, não sentindo o toque, e na ansia de acessar minha escancarada condição, levei a mão ao machucado até onde se podia, e lá se foram quatro dedos. 

E desmaio novamente.

Não se sabe ao certo o tempo do sonho, mas o da dor pode ser infinito. 

O novo despertar vem junto com uma outra agonia, talvez até pior que a primeira, pois pareço sentir meus ossos. Olho com aqueles olhos de quem não quer ver e, além do sangue, reconheço a cor do marfim que aos poucos perde o brilho… e começo a ver elefantes. Sinto que estou caindo no abismo do colapso novamente, mas dessa vez não deixo. Das lágrimas que me embaçam os olhos e agora me escorrem queixo abaixo, faço colírio. 

Já sei que meu estado é grave. Já sei que vou perder a perna e que não há nada a fazer.

Relaxo e fecho os olhos, agora de propósito e jamais resignados. Só queria descansar um pouco, jamais dormir, que naquela situação qualquer piscada pode ser fatal; mas os inimigos de Pandora usam de artifícios infernais e põem também minha perna para apagar. Assim relaxo ainda mais e sucumbo à natureza da fadiga.

Um toque no meu ombro quer me trazer à realidade, mas continuo nas trevas. Era difícil acreditar que não estivesse mais sonhando, ou indo e voltando. Queria simplesmente o fim.

Era Pandora, sempre exagerada. Que por linhas invisíveis abre meus olhos de cílio-em-cílio e me faz despertar. Ouço barulhos que não o dos caminhões, dos tremores ou do silêncio, mas vozes. 

Acompanhadas de um luz vermelha que gira, e gira, e gira. Exageradamente.

 

Eurico_cp

Boa noite, colega

Se soubesse do perrengue de antemão, teria pago pelo quarto individual. Mas como a economia também fala alto – mais tarde descobriria que se ouve ainda mais -, optei pelo coletivo; contrariando, inclusive, o bom senso de evitar intimidades contraproducentes.

De qualquer maneira, lá fomos nós, desfrutar de um passeio cujo objetivo era essencialmente descansar. Passear e descansar; conviver com outros hóspedes e relaxar; e ao final do dia, dormir: merecido sono. O batimento cardíaco cai; cairia. O corpo repousa; repousaria. E eu acordaria remansado. Acordaria, pois a moça com quem eu compartilhara o quarto simplesmente não deixou.

Roncava absurdos. Do início ao fim da noite. Constante, ia e vinha. E um, e dois, e três; e um, e dois, e três, ininterrupta, infinitamente, profunda-e-não-mente, que o ronco é sincero. Não engana. Tem vida própria. Introjeta-se no hospedeiro e de lá comanda o inconsciente, perturbando o outro. Ou quem quer que esteja ao lado e por vezes em questão de segundos, quando nem ao olho alheio é dado o tempo de fechar. 

O turbilhonamento começava ainda com as luzes acesas, ainda com a televisão ligada, ainda com o banho sendo tomado; eu simplesmente não existia: era um vítima a bel-prazer da entidade poderosa: um ‘dementador’ de Hogwarts, sugador de energias; pois quem tenta co-habitar o mundo paralelo do roncador, se não vai à loucura, acaba esbugalhado. Desperta sem ter despertado pois nunca de fato dormira, com olhos seco-vermelhos, como se cheios de areia, e mal-sucedido até na tarefa de existir pela manhã; quando surgirá o abençoado café, mas parco, pois só ajuda até a noite por vir, quando tudo começará novamente.

Após a primeira noite, bem próximo ao desespero e a ponto de mandar as economias às favas, recorro à portaria, sonâmbulo, em preces de ajuda que surgem na forma de pequenas esponjas amarelas para ouvidos, bloqueadores de som. Agradeço a Deus. Passo a ter fé.

Até voltar ao abismo – ironicamente no terceiro andar.

Enfio as esponjas na mais profunda possibilidade do tímpano e tenho a sensação de um certo abafamento. Pseudo-silêncio. Torço. Fico na espreita aguardando por mais nada; uma longa angústia de perversos segundos. Mas meu cérebro meio que já esperava o próximo ruído, e já sabia dos tempos do espasmo; e eu pré-ouvia o que estava por vir. Percebia o que abafado penetrava. E é essa constante pré visão-do-som que desespera. A gente acha que o cérebro vai acostumar, mas não acostuma. A vontade é de morrer. E de matar ao mesmo tempo. Mas minhas mãos estão presas e não há o que fazer. A memória busca alternativas, mas só lembra de INSÔNIA, clássico com Al Pacino. Um horror a situação do personagem que nem de longe eu quero passar.

‘Comprei o coringa’, xingo em voz alta. E o grito morre no vazio. Dei azar. 

Mas sou criativo, ou desesperado, e alterno possibilidades. Na minha imaginação, ela já era, mas como nem durmo, ela está salva por enquanto, eu-consciente. Mudo o colchão de lugar e me deito no chão ao lado da porta de entrada para ficar um pouco mais distante do desafinado concerto. Há um armário que talvez rebata a insuportável frequência. Insuportável.

O esquema parcialmente resolve, e eu sobrevivo mais uma noite. Não me lembro se sonhei.

No dia seguinte já penso na próxima treva. Na portaria, já peço mais duas esponjas. Gostaria que fossem DIUs auditivos, infalíveis. Mas as esponjas são porosas, e mesmo que condensadas, mesmo que duas em cada ouvido – juro que tentei – vazam; deixam entrar o indesejável. Meio que dá certo novamente, e o artifício me permite acordar na manhã seguinte só como meio zumbi.

Na noite seguinte ganhei um remedinho, esperança-rivotril.
A criança relaxa. O adulto capota.

Espero, portanto, que o efeito me derrube-só-que-não. A frequência já está grudada em mim e eu a ouço mesmo que em absoluto silêncio: um relógio cujo tic-tac são trovões. 

A porrada vem amplificada, e eu a escuto como se fone de ouvidos.

Mais um rivotril, apelo.

Dá certo e eu durmo um pouco melhor; e meu café da manhã é de um, agora sim, pleno morto-vivo: acordado, mas total e não presente, condição que me acompanha durante todo o dia; em qualquer canto me encosto, fecho os olhos quando dá, e bocejo. E nesse momento chego à conclusão que, apesar desse estado meio sonâmbulo de existir, é a solução.

A noite chega. Esperança em cápsulas. Quiçá na veia. 

Mas como a predileção não está disponível, mando mais um comprimido para dentro, na crença do abate profundo. Prefiro perder dois dias dormindo do que um acordado, portanto-não-me-importo. E decidido, tomo mais duas doses de fé.

Não há arrependimentos.

O morto-vivo se adequa à própria condição e segue, meia fase, meio cheio, meio vazio e a meia certeza de que os sete próximos dias serão uma ode a Dante; e eu ainda estava só no terceiro círculo.

Os dias que se sucedem meio que fluem-na-ilusão, e eu acredito dormir. Acredito sonhar. E me burlo com a possibilidade do paraíso. Ainda estou no nevoeiro; quem sabe no purgatório e de lá não vou sair, tão cedo-tenho-certeza.

Estou intoxicado. Perambulo acordado, e durmo disfarçado de um sonâmbulo que se arrasta.

Meus olhos refletem meu desespero. Estão opacos.

O limite do penhasco me atrai para seu além.

Falta só metade da viagem. Eu aguento, tenho pensamentos de coach, ironicamente positivos.

E a psicodelia conjurada pela falta de um sono verdadeiro, misturada com excesso de tarjas pretas e um ronco perene me arrastam adiante, alucinado.

Saio do quarto em transe: cama, colchão, travesseiro, cobertas, lençóis e, para não ter dúvida, levo também as esponjas. As quatro. Três portas à esquerda, encontro um recuo que talvez acomode minha favelinha e me deito; e me cubro; e me vejo: um verdadeiro morador de rua que, espantado pelo frio, resolve se instalar no primeiro corredor de hotel que aparece pela frente. Sorrio maroto e finalmente hiberno.

É difícil me acordar.

Eles tentam. Me chacoalham. Fuçam no meu casaco que providencialmente pendia sobre uma das lâmpadas do corredor e descobrem um cartão; e um número.

É do mesmo hotel e do mesmo quarto onde, após abrirem a porta, encontram minha colega de quarto absolutamente imóvel e silenciosa, deitada de costas. Há um travesseiro sobre sua cabeça e ela está fria.

 

Eurico_cp

Laranja Esvoaçante

O carioca queria me comer de qualquer jeito, então resolvi provocar o cara.

Depois de uma festinha na noite anterior e algumas mensagens na manhã seguinte, deixei-me seduzir para o providencial mirante, que eu ainda não conhecia, apesar das inúmeras vezes que eu já estivera naquela cidade. Era uma daquelas oportunidades, travestidas de acaso, que comumente não damos atenção mas que, neste dia, com aquele cara, com aquele sotaque, resolvi aproveitar.

Chegamos lá por volta das cinco e meia. O sol ainda estava alto e o vento começava a soprar mais forte.

O lugar não tinha muitos atrativos, mas um bastava. A vista de onde estávamos pouco valia; mas o isolamento que o mesmo lugar oferecia, muito convinha, eis o encanto. E ainda avistamos uma antena, dessas de rádio-aposentadas, bem comprida e alta, pontuda. Nem falo nada. Só olho pra cima e vislumbro um plano que brindava tanto minha queda por pequenas contravenções como também um desejo ainda camuflado mas que aos poucos se infiltrava em mim diante do cenário em formação. O malandro me olha, parece que  me lê, e sugere que subamos.

Escaneio a estrutura. Há uma espécie de gaiola por dentro de toda a antena, e ao redor, algumas plataformas a cada quatro ou cinco metros onde se pode parar para um descanso, tirar fotos, apreciar a vista que, a cada degrau, sugere mais. O horizonte se alarga.

Nesse momento enquanto olhamos ao redor, reconheço o senhor com quem encontramos no caminho-na-subida e trocamos breves palavras. Ele também olhava o entorno; tranquilo, os longos cabelos bagunçados, um grisalho que se emoldurava pelo vermelho que nascia, um belo pano de fundo, contemplei. Também não tinha pressa, ou o celular à mão ansioso de fotos. As dele estavam soltas ao longo do corpo, ou apoiadas no parapeito, seguras. Assim como os olhos que também contemplavam; sem pretensão. Mas viram para um lado, viram para o outro, e cruzam e param nos meus, que sustentam a troca; e que dura um bom tempo. Tempo suficiente para que eu entenda os próximos passos; os meus e talvez os dele.

Assim, sem piscar ou sequer olhar para trás, começo a subir.

Também não percebo que o outro, certo das minhas primeiras, insuspeito das segundas – e talvez até terceiras – intenções, vinha ligeiro ao meu alcance, com um sorriso que eu não mais sustentava com tanto ardor. O plano havia mudado ligeiramente, e a rasa aventura começava a adquirir um outro fundo.

Botei fé no grisalho e esperei que ele também viesse atrás de mim. Mas o sotaque que grita o meu nome é jovem. É dele que vem a vontade de fazer história: antologia de esbórnia para colocar no caderninho. 

Paro para pensar no meu diário e concluo que ainda tem alguns bons espaços em branco também; bons pra preencher. E eu tinha duas lapiseiras logo alí à minha mão.

Escrevo rápido. Sou rápida e subo adiante, minha saia atrás de mim.

Alcanço o patamar seguinte, minha saia dançando comigo.

Logo vem um; e o outro também vem. O espaço vai se apertando. O horizonte continua se abrindo.

Ninguém fala. São os ventos que especulam, silenciosos. Como se deles viesse um murmúrio inaudível, incompreensível, mas que aos poucos vai tomando forma.

E ouço, os decifro, e sem dizer palavra, subo que o movimento aquece.

Enquanto avanço dou uma olhada para baixo por cima dos ombros e vejo ambos, pares de olhos ambíguos, e minha saia que continua a voar, decidida e serelepe. Sorrio olhando para o céu. As nuvens correm.

A estrutura treme. São eles que vem, apressados, pois o horizonte, talvez já ao alcance das mãos, sugere urgência.

Já estamos próximos do último patamar e o vento agora começa a intimidar. Ele sacode partes da antena e sugere filmes de afrodíseo terror. 

A perspectiva me excita. O inesperado me faz subir eufórica como se estivesse à procura de um porto seguro, às avessas. Cada degrau que subo me empodera e agarro as barras como se o pico fosse meu. E é. Por alguns segundos fecho os olhos e absorvo aquele ar que agora se movimenta em brisa, que o vendaval está em mim, e exala. 

E como sempre acontece no reino-animal-que-somos, o macho sente a fragrância e vem aquecido. O outro vem logo atrás em chamas; e na confluência de tons e cheiros o improvável vai aos poucos se convertendo.

O céu já não é mais azul. O laranja o sobrepuja, mesclando-se. O sanguíneo virá em breve. Enquanto isso chego ao cume e aprecio a tela: um recorte natural do infinito modelado por nuances de magenta, pinceladas de rosa e uma exorbitância de laranja, que cenário!

O vento incensa minhas pernas e a minha saia dança. As cores se caldeiam ainda mais. Os que sobem veem a cena e logo imaginam um quadro; são pintores. 

A lacuna do atrevido caderninho será preenchida: um dia eu já estive nas alturas e fui o modelo vivo de um deturpado quadro de Monet.

 

E_cp

Sustentando Olhares

Por que ela não olha para mim? Pois está olhando para outra, simples assim. E o outro, por que também não? Seus olhos já estão ocupados? Sim, é claro que sim. Mas os meus estão livres; onde está o meu par?

Sustentação de olhares, assim classifiquei o exercício que fazíamos. De mãos dadas numa roda tínhamos que escolher um olhar, e com ele, ou com ela sustentar; dois olhos que viravam quatro e que durariam o quanto a gente aguentasse. Coisa bem desconfortável, pois logo no início eu fico só, procurando olhos supreendentemente já tomados, uma angústia. O tempo não passa, ninguém parece se mexer; seus olhos estão grudados, nenhum no meu. Mas num instante sou fisgado, e o conforto que eu esperava vira um desconforto que se amplifica; quero olhar para o teto, para o chão-qualquer-lugar. Tudo para não fixar naquele que me vê.

Supunha querer companhia, mas não quero mais. Acolho o exílio momentâneo e prefiro até fechar a visa; mas quando levanto as pálpebras,  crente de que chegara o momento, o tempo do outro já passou e eu caio novamente em solidão. Mas experiente da rejeição de breve-outrora, me posto em alerta  e crio coragem: encarar novamente. Mas se olho ou sou olhado é questão de ponto de vista: posso ser tanto o seis, como posso ser o nove.

Giro então em torno de globos alheios na tentativa de construir meu próprio dueto; um jazz-a-dois. Um improviso de musicalidade sem som que de fato acontece; e que que toca pelo olhar. É um Swing, e se esvai rapidamente.

Vem um outro olhar de baixo, é o encaro do diabo; que pavor das olheiras que até hoje me assombram; ainda que breves, me deixaram legado.

Nem mesmo escapara de uma armadilha e já estava em outra: um olhar com dentes. Um sorriso escancarado me esperava bem ao lado. Sorrio também: a metáfora da felicidade cai como uma luva quando queremos agradar, e porta da alma se escancara. Sou dilacerado, fuçado por dentro, uma fratura de alma exposta e vísceras que penam. Quero olhar, mas sou eu o espiado. Ela é a médica e eu o monstro, mas logo eu viro doutor e ela toma remédios. Depois eu sorrio enquanto ela cansa dos dentes. A boca se fecha e nos damos por completos. 

O tempo para refletir é mínimo pois o olhar é agora recém-colhido, fresco e sedutor-lá-vem-ele, lá de cima e só consigo circundar sua expressão: as orelhas, as grossas sobrancelhas, o pequeno nariz e os lábios semi abertos. Ouço com atenção tentando conhecer a ele; mas dispondo todo o meu ouvido ao seu olhar, é ele que entra eu fico vulnerável. Assim reflito sobre a verdadeira atividade acontece dentro de mim: a compreensão sobre os olhares e o poder que emanam. Tento ressignificar aquele momento, mas ela já devia ter visto o que queria e não estava mais lá. Me trocou por outro olhar. 

Fica a suspeita-por-que-me-deixou. Ou a questão é uma disputa?

Como é natural, o hábito mal jogado pode assumir o comando passamos a olhar da forma como sempre vimos: especulando, julgando e fazendo as conjecturas que cabem exclusivamente a cada um. 

E como são diferentes: as belezas que se conjuram a partir de olhares mágicos. Cada um à sua maneira, olhos maquiados pelo mirada de quem espia com interesse; e a fotografia que tiramos quando vemos brilha. Todo mundo ficou mais bonito, e por pouco ao pé da letra, pois se não foi num piscar de olhos, foi num olhar que insistiu em ficar. 

Encontro os de Adriana; ela encontra os meus. Pinta um sorriso-entrão, casual-pretensioso, mas negamos o impulso pois a roda era serena – tinha que ser -; então engolimos aqueles dentes que queriam sair, e fechamos os lábios que queriam abrir, jogando o jogo sem gracejo. Virou malícia e trejeitos, e o corpo todo passou a falar. Nossos olhares se tornam profundo-infinitos. Eu me infiltro nela, ela se insinua em mim: ela me pergunta e eu respondo; e o vice-versa me seduz, diz verdades, eu descubro segredos. 

A história se engendrava e nós não desgrudávamos. Tecíamos um fio narrativo a partir dos cílios que se alongavam, das sobrancelhas que voavam e do perfume que emanávamos, distribuído pelo ventilador que soprava nossas intenções para lá e para cá. 

O tempo, para nós, parou. Mas a roda não, e os pares que se perfaziam a cada quinze, trinta segundos, perderam para sempre nossos olhares; e nós os deles. Camuflados pelas buscas dos outros por pupilas alheias, passamos despercebidos, ficamos ilhados-em-nós, felizes náufragos com tempo suficiente para que as intenções já especuladas criassem uma espécie de corpo. Uma energia quase palpável que fluía em linha reta de um ponto ao outro do círculo: nossos olhos, ciclopes. 

O beijo seria der borboleta não fossem os próprios deuses gregos, forjadores dos raios usados por Zeus a urdir agora línguas que, em chamas, se retorcem numa dança que nos cegou-escancarados. 

Como numa caverna, onde sem luz só se tateia, foi o que fizemos. Os dedos se enlaçaram e depois os braços. Minhas mãos estão na sua nuca, entre fios; as dela nas minhas costas e as roupas em nenhuma. Nunca houve roupa. Nos deitamos no espaço e flutuamos. Saboreio morangos imaginários, toco sua pele de seda e ela também me sente-os-sentidos.

Fundimos. O calor que nos abrasa nos molda e retorcemos em busca da lava perfeita; do fluido derretido que escorre trilha abaixo ao encontro do mar, em tons de vermelho; e que quando se encontram, explodem num exótico borrifo esfumaçado, o gozo rugido dos vulcões, que nos desperta e demora a aquietar nossos corpos suados. 

Ainda ofegantes abrimos os olhos. Os outros pares já estão escancarados e se dirigem a nós, esperançosos. Mas eu simplesmente atravesso aquele diâmetro que me separava de Adriana, pego suas mãos ainda úmidas e caminhamos juntos para nossos lugares sem dizer palavra, enquanto a roda se desfazia em absoluta incompreensão e respeitoso silêncio para o seguimento da nossa aula de teatro, que jamais acabaria.

 

Ecp
#euriscritor

Porteira

Paro o carro, puxo o freio de mão, abro a porta, desço do carro.

Fecho a porta, caminho uns sete passos, eu contei, até a porteira. Destravo. Caminho com ela até abrí-la totalmente. Deixo-a aberta. Volto ao carro. Abro a porta do carro, que fechou sozinha; sim, elas fazem isso. Entro no carro, que deixei ligado. Solto o freio de mão, acelero, avanço uns dez metros, suficientes para cruzar a porteira. Paro o carro novamente. Puxo o freio de mão novamente. Desço do carro mais uma vez e tento deixar a porta aberta. Volto até a porteira. Trago-a de volta comigo pelos mesmos sete poeirentos passos e a travo. Caminho novamente até o carro. A porta ficara aberta. Sento ao volante. Solto o freio de mão e acelero; olho pelo corredor e vejo a porteira ficando para trás. Olho para frente e vejo outra porteira a duzentos metros; míseros duzentos, que o carro nem muda de marcha, posso sentir. Breco.

Desço do carro. Não me importo mais em puxar o freio de mão. O carro fica lá, ligado. Vou até a ‘chave’, um outro tipo de porteira, como se fosse uma extensão da cerca de arame: um fragmento cortado e móvel que se encaixa no pedaço fixo através de umas alças feitas a mão que você tem que encaixar na parte móvel para fechar e deixar a estrutura toda esticada (afinal de contas é para evitar que o gado saia). Abro e carrego este fragmento de cerca até o ponto onde conseguirei passar com o carro novamente. Largo atal ‘chave’ no chão; o pedaço de cerca. Volto até o carro. A maldita porta fechou novamente. Abro e sento ao volante. Avanço com cuidado para não passar em cima dessa ‘porteira mole’, como decido chamá-la. Paro o carro novamente. Desço do carro e ele se move para frente que estou numa descida. Corro em desespero e sento novamente para puxar o freio de mão com força, mas não antes do carro correr uns vinte metros. Desço do carro e percorro o mesmo tanto até a ‘chave’ que ficara no chão; no caminho chuto poeira, puto. Carrego a chave até a cerca fixa e tento encaixá-la, lá. Quem diz que consigo? Com esforço encaixo a base. Mas e o topo? A alça parece que é curta. Suo. O sol é de quarenta graus e tenho que usar a mão esquerda. Assim foi feita pelo canhoto. Projeto o corpo à frente empurrando o pau da cerca mole e com a mão direita tento esticar a alça presa na cerca dura. Prendo o dedo, uma mordida dolorida, mas consigo fechar a porra. Pingo. O pingo cai e de pronto seca.

Volto ao carro que está lá, parado; e fervendo pois a porta está aberta.

O ar está ligado. De nada adianta.
O banco é de couro, pega foto; e eu não sou de Yellowstone. Uso bermudas e a bunda queima. Arde; assa-contrações.

O suor continua brotando da minha nuca como a água do poço que verte mundo afora e escorre minha espinha abaixo, lentamente. Não há parada e eu sorrio-geladinho enquanto já percebo outra a caminho.

Paro o carro, desco, ando, abro, fecho.
Volto, abro, sento, fecho, avanço.
Desço, volto, fecho.

Volto, entro, parto.

Ponho o cinto. Finalmente alcanço a estrada. Asfalto e sinto bem.

Cinquenta, setenta, cem e abro os vidros. O vento entra por todos os lados. Minha camisa infla e outra gota seca. Ironicamente lamento.

Cento e vinte e descabelo. Cento e quarenta.

Piso fundo. Piso mais.

Não sou vaqueiro; muito menos cowboy.
Um caipira talvez. Que na empolgação da estrada sem bloqueio e de chinelos, não percebe uma vaca que também não gostava de porteiras.

 

Eurico_cp

Cré Cré virou Mulher Biônica

Ouço meus passos. Cada um deles, um pé depois do outro; outro dia até de meias. No assoalho, de noite, escorregando em silêncio pelo corredor, lá estava ele, o som.

No banheiro, o som das águas. No chuveiro-cachoeira.

Na volta para a cama, o lençol. O que sinto na pele agora me toca os ouvidos.

Viro para um lado, viro para o outro, ouço meu marido.
Ele também se mexe. Respira, ronca. Roncava, pois o que eu escutava até então, até me acostumar, era canção de ninar; agora, de matar: o urro de um urso, talvez; mas que com a costumeira legenda do dia a dia, sempre soa baixo demais. 

Ensurdeço. E o sono me derruba na marra.
O liquidificador me desperta. À trinta metros de distância, na casa vizinha, qualquer coisa e muito gelo me tiram da cama. Um minuto, dois, três, cinco, dez minutos que me piram, piram.
E finalmente a paz. Como se depois de um show de Rock.

Caminho até a cozinha enquanto tento incorporar o novo som do meu andar.
Interessante adaptar.
Meu café começa tranquilo até que uso uma colher; na xícara, diluindo o açúcar. Escuto o tilintar nas bordas. O ruído do fundo sendo raspado. Giro várias vezes. Fecho o olho, ouço mais. 

O gole tem som, e eu quero beber um milhão de litros.

Bebo água da garrafa de plástico amassada. A amasso e desamasso várias, várias vezes. Para ouvir  o cré-cré.

Cré Cré, a propósito, é um apelido pelo qual meu filho de vez enquanto me chama. Eu adoro mas ele não sabe. Ele só fala assim quando está de bom humor. Quero ouví-lo me chamar de Cré Cré novamente.

Sua voz que será-que-mudou?

Pois a minha sim. Nem mais a ouvia, por falar nisso. Esquecera dela, acho que da mesma forma como a gente esquece dos membros, quando sem dor; mais ainda dos elementos internos, esôfago, medula, traquéia. Quem é que vai se lembrar da traquéia? Quem sabe sequer o que a traquéia faz? De qualquer maneira, só a dor & o desconforto é que nos vão trazer, à consciência, a existência. E desconforto não havia; nunca houve. Nunca reclamei do que ouvia.

A não ser o desconforto dos confrontos com meu filho que insistia no meu declínio. 

“Aceitação da decadência”, é essa a questão. Ao aceitar o que me propunha-um-aparelho, aceitaria o fim da página, poucas linhas adiante. Por isso, emudecia, não respondia a seus apelos. Seguia como um time em que não se mexe. Se estava perdendo, teria que ser convencida disso.

Assim, eu só ouvia o que eu queria, e tudo bem-pra-mim. Na verdade, ainda melhor. Praticava o contrário do que uns ditos experts pregam: escuta ativa. A minha estava ‘seletiva’. Sem eu saber, escolhia a dedo. Um privilégio de exclusividade as avessas, eu descobriria em breve: flertava com a demência, me enclausurando na bolha sonora dos hábitos cristalizados.

Mas como tudo que é de vidro um dia quebra, sucumbi às vozes do amor; do afinco, da chatice; da insistência daquele para com quem um dia eu fui exatamente a mesma, só que no sentido contrário: eu-a-chata, ele-o-teimosão.

Então demos as mãos de certa forma; nos unimos numa empreitada que, pelas contas dele, durou dez anos. Mentira! Nisso, me recuso a acreditar. Quiçá uns cinco! Esse é o tamanho da minha teima. Ele falava, eu rebatia: não preciso. Precisa, ele dizia. Estou ótima. E ele quase desistiu.

Mas não, persistiu; talvez como eu também persisti, persistia, persisto, persistirei com ele.

Pois quem ama-cuida; e meu filho se preocupou comigo.

Com são interessantes as expressões do amor; que agora, a propósito, ouço. Pois quem ama-ouve também, e eu quero ouvir meu filho,

me chamar pelo apelido.

Enquanto isso, absorvo meu arredor. Consciente e inconscientemente, e levo sustos, pois as vezes vem um som de um lugar que eu não esperava. O ronco do motor do carro, por exemplo. Assim que saí do prédio, ainda assustada pelo elevador e pelo opressivo eco da garagem, vem esse ronco que não estava no roteiro da minha nova rotina. A cada mudança de marcha um desconfortável ‘crescendo’. Baixando os vidros, um tsunami de orquestras em total de-sinfonia.

Deixo-os fechados. Aguento mais um ronco. A noite eu lido com o urso.

Por enquanto,  lido com gente. A cada encontro-uma-surpresa. Eu distribuía sorrisos pelas vozes que escutava. Parecia uma criança. Era como se estivesse conhecendo novas pessoas; ou as mesmas-modificadas. Temperadas pelas vozes. Jamais imaginei a Irene tão alta; o Ricardo largo, o Moisés quase careca. A Maria bonita, o Lucas tão forte, a Verônica que deixara saudades. Eu conseguia ouvir até quem eu não via mais.

De volta no carro, entro e fecho a porta. Fico lá por alguns instantes em silêncio. Acomodando novos sensores. Assimilando esse meu novo super-poder.

Viro a cabeça para ver se faz diferença. Direita e esquerda tem o mesmo som.
Sigo em frente, sempre um bom destino. Penso na música e resolvo ligar o som do carro, baixinho; e no diminutivo mesmo, pois é no crescendo que eu me acostumo com o grande. E qualquer barulho, agora ampliado, pode espantar.

O calor me faz abrir as janelas, também aos poucos, e encaro o ‘mundo-ouvido-de-dentro’: outros carros, caminhões, ônibus, motos, muitas motos: pequenas, grandes, enormes, cada uma no seu tom, todas fora do meu, suas buzinas me tiram do prumo. Movimento. O movimento também parece que tem som; a calçada vive, as pessoas dão passos; a vitrine grita com o som das suas cores. Os alto-falantes simplesmente irritam demais.

Fecho a janela. Ligo o ar. Pasmo: o ar tem som!

Ademais, frescor. E logo escutarei também o frio.

As Quatro Estações de Vivaldi, me lembro. Escutarei as estações. Os violinos, o contrabaixo, o piano, as violas, os clarinetes; as folhas caindo, o sol brilhando, as flores brotando.

As abelhas. Será que escutarei as abelhas? A polinização? Pois sinto como se meus ouvidos tivessem sido polinizados. Neles entraram a vida e eu agora, semente, posso dar frutos: retornos adequados a pedidos de compreensão.

‘I see you’, dizem os avatares. “Eu te enxergo”, e completamente, que o ser biônico vai além das aparências. Os sentidos são cinco, e eu era somente quatro; mas neste instante amplificada, absorvo a terra em sua plenitude. Tudo que me chega-fica. E até minha memória se esmerou. A lembrança adquiriu um outro alcance: meu filho vai chegar.

“Bom dia, Cré-cré”, ele diz assim que abre a porta. 

Me viro assustada; mas é ele mesmo, e está de bom humor.

EuricoCP

Farpas

Lá estava ele, todo enroscado na cerca.

Havia sangue. Não muito, mas escorria pelos pequenos furos que tinha na pele e pingava na areia que logo o absorvia. Dos furos maiores vinha um fluxo mais grosso que também acabava na terra, em poças nutridas por gotas mais gordas que tamborilavam na superfície, lembrando aquelas que caem na água, mas vermelhas e ondulantes.

O chão empapava e o homem urrava.

Tentava se desvencilhar das amarras, mas em vão. As farpas se enroscavam ainda mais em seu corpo já preso, e as que já estavam grudadas entravam ainda mais na pele, rasgando e cortando o tecido. 

Tinha que ficar quieto, imóvel. Mas seu corpo involuntariamente tremia, fazendo as farpas vibrarem. Sua respiração tampouco calmava, pois ao tentar diminuir o ritmo, controlando entrada e saída de ar, peito e abdômen também se moviam e o arame roçava.

O que quer que fizesse, só piorava.

Ele arfava de dor e a única maneira de suportar aquele fardo-da-hora, aquelas malditas farpas, era a imobilidade total. Fechou os olhos e aos pouco pode ouvir bem ao longe-quase-sumindo, o som de passos que também aos poucos se apressavam; vozes que chegavam mais perto e, agitadas, pediam socorro. 

Ele não pedia mais nada pois finalmente aquietou-se. E a família que veio fez coro; e no silêncio observou espasmos, sugestão de uma esperança que parecia dissimular, pois um olhar mais próximo dos parentes que estavam por ali causou ainda mais temor: havia ganchos nas pálpebras, no nariz que escorria e no lábio inferior que fora fisgado como um peixe. A orelha fora quase arrancada fora e pelo resto do corpo só se viam pontas metálicas enegrecidas pelo sangue que coagulava. 

O tempo passava e ninguém ousava-palavra. O acidente parecia uma catástrofe doméstica e o socorro não estava ao alcance de ninguém no entorno. Os celulares não pegavam direito e a realidade bateu à porta sugerindo alguma ação, qualquer que fosse. Assim um dos peões que acompanhavam o passeio da parentada pela fazenda montou prontamente no seu cavalo e partiu rumo à sede onde esperava encontrar uma saída, ainda que bem distante. Cinco, seis quilômetros de galope e a conjectura sobre quem poderia ser o anjo da guarda daquele rapaz.

Os que ficam (ficaram) para trás tentam de tudo para amenizar o presente, mas sem muito sucesso: especulam sobre como confortar o ferido mas, com ânimos à flor da pele, preferem apontar responsabilidades. Enquanto descansam com suas montarias embaixo de uma providencial mangueira que toldava o sol escaldante, lembram do passado quando um primo odiava o outro. De morte mas não vice versa. Era o mais velho que a merecia; pelo roubo da namorada, pelo veneno no leite, pelo abandono na noite, pelo sabugo de milho, as perversidades nunca cediam. As mágoas só aumentaram. 

Mas a vitima cresceu e o bonzinho de outrora neste momento cutuca o primo vilão para um duelo: uma corrida a cavalo até a próxima porteira; trezentos metros para colocar o seu desequilibrado-passado à limpo. Os parentes não querem, também duelam, É dada a largada. 

Nobre e Chocolate são açoitados como a disputa sugere e respondem adequadamente. Correm como nunca, e a poeira que levantam é suficiente para que ninguém consiga ver nada logo depois dos primeiros metros. Os primos se olham enquanto cavalgavam, gritam e esporavam seus cavalos como se seus calcanhares fossem motores. Um olha para o outro saboreando o momento-em-movimento; um quer continuidade, o outro ruptura. Por alguns segundos nem respiram. A velocidade é insana, seus corpos literalmente voam para cima e para baixo ficando pouco tempo na cela; suas mãos firmam as rédeas com força e seus chapéus já voaram, quando o desafiante vê que não há nenhuma porteira a frente, mas sim uma cerca de arame farpado. 

Nesse instante, a simples vitória ceder rapidamente lugar a uma sofisticada vingança e ele simplesmente olha para o primo, tirando-lhe todo o foco à medida em que reduz a velocidade do seu próprio cavalo: Chocolate. Nobre, por outro lado, despreza os impulsos do seu cavaleiro e obedece aos seus, breca de chofre a poucos metros da cerca e acaba por lançar o homem que, não conseguindo se segurar na cela como uma flecha em arco diretamente para o gradeado onde agora estava suspenso, pendurado numa teia de estrepes.

Teia forjada pela oportunidade; pelo tempo que passara e pela paciência dos predadores de emboscada: uma aranha que agora reflete sobre o desfecho do evento e sua ardilosa atuação.

Alguns o acusam pois ele tinha provocado o duelo. Outros falam sobre fatalidade, mas a sincera troca de olhares durante a corrida era a única prova do que de fato acontecera. Os olhos não mentem.

Quando a ajuda chegou, três horas depois, o olho do ferido se abriu, somente um risco, uma linha de esperança. E o suficiente  para encarar o outro e selar o reconhecimento de que as farpas dão voltas.

 

 

#euricocp

Sofá

Tenta abrir os olhos. Lentamente e pouco. Não se mexe. Espera. Pelo que, não sabe; não sabia de nada àquela hora. Que horas são? pensa. Não fala porque não tem voz. Está seco, seus lábios grudados querem ao menos gotas, onde estão? pensa novamente e esquece do pensamento. Quer gotas, lembra, que por acaso escorrem dos cantos dos preguiçosos olhos e chegam à sedenta boca. É como uma enxurrada, sorvida com gula e um imperceptível sorriso; mas que está lá, irônico de quem sabe que não deve, mas faz assim mesmo.

Dá vontade de sorrir ainda mais, e até abrir os olhos, mas as pálpebras estão pesadas demais e não deixam. É uma luta entre a meia-vontade deles e a força-total delas, que sempre ganhava, pois os olhos dele estão cheios de areia. Por isso era melhor calar a visão por enquanto.

A língua resolve passear, precisava de um pouco de ar. Tenta namorar os lábios, mas as gotas já tinham sido sorvidas. Mesmo assim o contato gera uma humidade extra e ele a engole, pesada, viscosa.

Estica o corpo. Tenta esticá-lo. Primeiro as pernas, depois os braços ao longo do corpo, depois o gemido. A cada estalar de ossos, um grunhido que se estende até as extremidades dos dedos.

Respira profundo, lembra do Yoga e deixa para lá. 

Apesar dos olhos fechados, nem pensar meditar-melhor-morrer.

Desaba e se-vira de bruço.

Com a cara enfiada no travesseiro e os braços sem saber o que fazer, abafa sons que queria dizer, mas não tinha ninguém por lá. Estava sozinho e o fardo era escapar do sofá: levantar quando nem se consegue piscar. Quiçá se por em pé. Ou ao menos levantar o pescoço, que só consegue pender: para um lado, para o outro, e desarticulado se afunda de novo. 

É melhor esperar. Raciocínio se é que há, e lembra da televisão. E também das horas, mas e o dia? Lembra que esquecera também do dia. Domingo, Sábado, retrocede. Lembra do ontem, mas não do ante-ontem; e à frente? Domingo, Segunda, está confuso, cadê o controle?

Jogado no chão, para além do braço, lá estava ele, esfumaçado pelo fantasma do homem de areia que insistia em negar a ele a transparência das coisas: tudo tendia a vulto, e o controle era um espectro distante; tendendo ao infinito, aquele oito-de-ladinho que hoje nem uma meia bomba.

De qualquer maneira, o banheiro estava longe, a pia da cozinha muito mais, a comida que já nem descia em pensamento, e até a indispensável geladeira parecia estar a perder de vista. Abri-la então, mais um esforço para além do olho aberto que, a propósito, insistia em pesar. 

Mas ele tateia o chão; as mãos avançam como se carregassem um braço amputado, sentindo as pequenas fibras do carpete quando de repente sentem algo duro; pela memória uma peça de plástico; na parte superior ele reconhece botões. Sim, é o controle, estou salvo: “a televisão me deixou burro, muito burro demais” é a estrofe que vem à mente, mas ele não se importa: ‘Hoje é o dia da besta.’

Traz o remoto de volta e junto o passado recente.

Ressente, mas prefere não ver ante-ontem. Ao invés disso, força as pálpebras e com os dedos solta as pregas-da-visão para enxergar o que quer que ilumine seu rosto, de fora para dentro: no quarto escuro, um feixe que ao invés de clarear, assombra, perturba, cega o zumbi.

A cabeça lateja e não há o que fazer. Ou até que ele se dispusesse a percorrer o longo percurso até o banheiro-remédio: dez passos que àquela altura pareciam cem de subida, nem pensar! Respira lento para a dor passar. E zomba sofrendo de si. E depois gargalha pois já tinha visto aquele filme. Mas a risada não ajuda. Pelo contrário, agrava; pinta o limite do mijo.

A bexiga cede. A cueca está molhada e não há mais negociação: ele se arrasta, se põe de joelhos e lentamente chega de pé ao suado destino. E senta. O desague vai ser sentado, pois não há outra condição; não àquela hora, não naquele dia, pois a permanência ereto, qualquer que fosse a acepção do termo, não passava de utopia.

Então jorra sem potência.

Estava mole, lento, cabisbaixo e sem nenhum ânimo; assim levanta sem descarga e caminha de volta. Poderia ter passado pela pia-ali-ao-lado, tinha água; ou ido até a cozinha, mas não; ouve a um chamado do sofá e sucumbe novamente ao acalento das cobertas. Enfia-se em meio a tudo e o controle assume o comando. 

Mas um títere nas mãos de braços preguiçosos é de pouca valia, tampouco age sozinho; então fica lá, espalmado na mão do semi morto que agora cochila de costas, com um dos braços sobre o peito, o outro esticado com o suposto controle que tinha a escorregar por entre os dedos, caindo no chão.

O barulho àquela altura ecoa como a explosão de bombas em trincheiras, e seu despertar assustado, como que atingido por um fragmento, coincide com a percepção de que a tela ainda estava escura, e ele a precisava clara, e com movimentos, e outros sons. Por algum motivo, qualquer ruído significava vida, um pano de fundo musical para ninar seus próximos, esperançosos passos.

On, e está ligada. Mas ele não consegue assistir. 

Tenta, mas dói-se-mexer. A lombar está em prantos, o pescoço continua no limbo, e os músculos, justo eles a essência da potência, débeis. Quero água, o corpo diz mais uma vez, e o abdômen se manifesta tentando colocar a estrutura em riste, que dói também. Ele geme para cá e para lá, sons abafados pela boca no travesseiro que também baba, e sangra dentes mal escovados, bafo. 

‘Água, água pelo amor de Deus’. Beberia até a benta

E como se o simples pensamento a invocasse, e um fio divino o puxasse para cima, de pronto ele se põe de pé e cambaleia rumo à fonte. Mas na geladeira só há garrafas vazias, e o espanto da óbvia descoberta celebra novamente o dia do idiota. Ele olha para a TV e a risadinha parece que é para ele.

A cabeça vai então para debaixo da torneira, gotas de lucidez que em conchas-encharcam. Ele bebe sem controle goles e mais goles e a água escorre pelo seu pescoço, peito abaixo e a cueca vira sunga. Sua nuca é abarcada por um calafrio que só para rego adentro, e ele curte o gelo que no fundo esquenta. 

O homem de areia finalmente vira lama e ele consegue escancarar os olhos agora úmidos. Abre e fecha, abre e fecha, fecha a torneira e finalmente respira.

A lucidez dos olhos amplos apontam mais um caminho: comida. Deve ter na geladeira, outro pensamento impostor: nem pedaços nem restos nem migalhas. É uma vitrine de nula serventia e o seu estômago sabe. Ronca e faz doer no osso; já se passaram dias desde o derradeiro mastigar.

“Põe um roupa, sai de casa, pegue uma comida”, ele ouve um pensamento. “O dia está lindo, caminhe, alongue ao invés de espreguiçar” é o anjo do ombro direito que invisível sussurra preciosas dicas. Mas do outro lado, bem visível, tentador-e-travestido de sofá, o diabo assume o controle só-rindo. Tem a TV como parceira e o canal sintonizado.

Sultão

A arte de pedir e aceitar favores deveria realmente ser tratada como arte, pois tanto quem pede como quem aceita acaba por confeccionar uma obra, seja ela a composição de uma música, a pintura de uma tela, a redação de um conto, quiçá até o conjurar de uma escultura.

Esta arte se perfaz no exato momento em que se pensa sobre ela, e de imediato ambas as partes logo se põe a produzir. Especulam mentalmente, imaginam um possível resultado, avançam o sinal: pedem. Usam expressões idiomáticas, cara de pau. Do outro lado a resistência mental. A dúvida angustiante. O sim, o não. O ressentimento que antecipa a negação do pedido. Aí vem o ato de acolher o chamado; a boa alma projetada que se concretiza no aceite.

Sim.

Tínhamos parado o caro num ateliê em Embu da artes, São Paulo, para comprar um lembrança para a irmã da minha mulher, rio-pretense, também artista, antes de seguirmos viagem. E lá conhecemos o escultor em questão: oriundo da Holanda, especialista em cavalos, herança da família que tinha um haras por lá. E que trouxe para cá na forma de arte, desenhando e modelando equinos de todas as formas e tamanhos.

Até aí, tudo bem, quase até um encanto, pois nossa região-destino privilegia também as empreitadas rurais, e junto a elas os rodeios, os cavalos, a nobreza deles, os haras de cá, inclusive. Por isso, demos corda, a prosa fluiu, e o senhor da crina, como era conhecido em Embu, foi ficando, a cada minuto, mais a vontade.

Papo vai, papo vem, veio o pedido, direto e reto: vocês podem trazer o Sultão de volta para mim? 

Sim, eu já disse, mas Carla não. 

“Sultão!!! Quem é Sultão? O que é Sultão?” ela vira os olhos e me lança um olhar que eu decifro palavra por palavra: “Como assim você aceita um favor sem nem saber do que se trata?” Mas eu já sabia. Só podia ser um cavalo. Sultão, naquelas circunstâncias! É nome de cavalo.

O artista confirma. Nem vê os olhos virados da minha mulher – ou finge que não – e explica que fora sua primeira grande obra, o mais importante pedaço da sua infância que ele trouxera em idéia para cá, materializou, e que deixara em São José do Rio Preto, primeira cidade brasileira por onde passou.

“Eu morava um sítio por lá. Vocês podem falar com a Sônia, a atual moradora. Ela pode recebê-los e ajudar com o carregamento.”

Carla não se aguenta: “Carregamento, meu senhor”, diz mantendo a classe. “Mas qual é o tamanho desse…” pondera, “cavalo?”

“Tamanho natural.”, ele responde e já emenda: ‘cabe perfeitamente nessa sua caminhonete.” Esse é o seu carro, não?”

Cara de pau é pouco, deve ter pensado Carla. E puta da vida, completa “você é uma besta. O Holandês é um folgado, e você um idiota”. 

Besta, idiota, tanto faz como tanto fez, pois eu já estava excitado. Carla já sabia: quando eu me empolgo nada me segura. E uma longa viagem, ainda que parcialmente adulterada, mas salpicada de arte e equinos pela frente, me anima ainda mais.

Eu só teria que conviver com uma esposa de mal humor por algumas horas. Assim, prometi a mim mesmo serenidade. E cumpri o acordo com mérito; e demos sequência na empreitada que, a essa altura já inflava minha imaginação que voava livre à medida que o carro avançava. 

O tom da viagem neste ponto era uma nuance entre a forma como Carla reagia a determinadas situações, e a minha forma de reagir às mesmas. Eu sorria por dentro diante do cenário em que nos metemos, e ela virava a cara para o vidro, como se quisesse atravessar a janela do carro. Ou como se sussurrasse seus demônios, embaçando o clima.

Eclipsando o som. Pois ao longo percurso de três horas, só-ouve-silêncio. Carla já me conhecia, mas nem por isso deixou de reforçar aquele incômodo de discórdia velada pelo meu pronto e animado aceite em trazer o potro de volta. “O que que custa?”, eu dizia, mas as palavras empacavam. “É só um favor, e nós temos a caçamba; e tempo. De repente você pode até gostar do Sultão!”

A mudez persistia. Era assim que ela interagia com o desgosto; e quanto mais eu suplicava pela troca, o branco se adensava ainda mais, sem quilômetros que a fizessem murmurar; até que as caixas de som começaram a tocar-um-galopar. A música era The Four Horseman, do Metallica, e ela não só-se-mexeu, como também sorriu-ironias: Os Quarto Cavaleiros do Apocalipse! era o tema da canção.

Rimos, e deu-se fim ao silêncio; e ao final do som do metal nos pusemos a cavalgar pela nossa infância na fazenda da vó-dela, avivada pelo destino a nossa frente, que passou a correr suave. Quanto mais próximos da cidade, mais perto do passado, e as lembranças que evocamos foram suficientes para que a viagem se tornasse também breve, como a distância mínima entre o artista e a sua arte quando posta em execução. Tudo flui.

Fluímos. 

E logo estávamos na porta do sítio onde onde fomos cordialmente recebidos pela moradora, que prontamente nos apontou o caminho.

Paramos no alto de uma colina e escaneamos o horizonte lentamente; cento e oitenta graus Carla, cento e oitenta eu e bingo lá em baixo. Avistamos um brilho, só podia ser o imperador.

À medida que descíamos o barranco de mãos dadas, aumentava também nossa expectativa, não mais somente a minha, pois a essa altura Carla também se deixara comover. E imaginava Sultão em seu mais belo esplendor: um alazão de dois metros e meio de cumprimento por um e meio de altura, bem estruturado em aço corten, placas de alumínio para revestimento, e metais precisos nas ferraduras.

Mas não. Nunca a relação expectativa-realidade foi mais frustrante. 

A Sultão em questão fora moldado nas coxas holandesas. Feito essencialmente de vergalhões e coberto de chumbo e metais vagabundos, elo estava jogado no chão; escondido por baixo do mato, enferrujando. Triste-cena.

Não podia ser o nosso Sultão! Não aquele que nos fora prometido. Não aquele pela qual viajamos até o nosso limiar, para além do mundo físico: uma obra ostentosa, bonita de rabo a crina, bem esculpida, brilhante, linda e sedutora.

Muito pelo contrário, nem o nome lhe cabia. Zezé, talvez; um Zezé decrépito no máximo, e que nem com muito esforço viera da memória da Holanda. “Ah, aquele Holandês me paga”, suspirou Carla; enquanto eu, pasmo , contemplava a decepção. Grande decepção, pois o artista, no quesito tamanho fora bem honesto. 

O equino era graúdo; e também muito nutrido; e muito bem dotado a propósito, que o fanfarrão de Embu também fizera questão de incorporar no bicho aquele outro vergalhão: ora pequeno ora grande, mas ali uma constante, e com o qual teríamos que lidar.

“Taí a sua aventura, gostou?” gracejou Carla já se afastando. “Agora é só preparar o material. o barco, Odisseu. Partiremos ao raiar do dia.”

Resignado e bem antes disso, antes até do canto galináceo, eu e Sandra já estávamos a postos para embarcar a égua na caminhonete que eu tinha encostado num barranco. Com dificuldade, subimos primeiro o rabo e as nádegas, depois as pernas traseiras. E então o incômodo vergalhão que, obviamente rijo, conseguiu nos constranger enquanto o pegávamos à quatro suadas mãos, suspendíamos e tentávamos acomodar do jeito que dava. Por fim tentamos embarcar o dorso do cavalo; empurramos e empurramos. Mas paramos nas patas dianteiras. Sultão era simplesmente grande demais.

“Mas e se a gente cortar o bicho ao meio?” sugeriu a moradora sem a menor cerimônia. Imagina, pensei: é uma obra de arte. Jamais, reforcei. E ficamos parados olhando um para o outro, enquanto o suor continuava a verter nossos corpos abaixo. Reconsiderei: era mesmo uma válida opção. 

Refleti ainda sobre o o vitupério que estaria cometendo ao cortar uma obra de arte ao meio, mas ao julgar estética e tecnicamente o trambolho em questão, me perdoei antecipada e imediatamente. E não haveria problema, pois o concerto era só soldar.

“Pode ser”, afirmei ainda receoso, um lamento querendo brotar; mas ao mesmo tempo perguntei se ela tinha o equipamento para o corte. “Claro”, ela afirmou sem titubear, e em um minuto já estava com a ferramenta na mão.

Mãos a obra, e logo nos pusemos a lançar faíscas ao céu. Não tinha volta. Não havia espaço para culpa. ‘Tarefa dada é tarefa cumprida’, me apoiei na frase de um comandante famoso. E logo percebemos também que teríamos cortar a cabeça do cavalo. “Mãos a obra”, repetia Sandra ao me ver titubear. “Vamos lá. Força” e decepamos o Sultão.

Meia hora depois, a caçamba foi fechada.

Quinze minutos depois, já estamos na estrada; Carla parcialmente indignada, eu resignado.

Constrangidos, talvez; pois em termos absolutos, destruímos uma obra de arte. Por mais esdrúxula que fosse, uma obra. Mercia nosso respeito; e eu, de forma deliberada, blasfemei. E como Carla estava junto, vira cúmplice. 

Por isso, o silêncio da volta. Ambos pensativos, talvez com a imagem da música do Metallica traduzida na cabeça. Nós, os cavaleiros do apocalipse.

Os quilômetros vão passando e o destino aparece à nossa frente. Na placa, Embu – 50 Km.

O silêncio se arrefece aos poucos. Revelação. ‘Estamos fazendo um favor’, concluímos.

“Isso não pode ser o fim do mundo”, pondero. Carla concorda.

A cumplicidade então se torna um elo de boa fé, e juntos decidimos que fizemos a coisa certa.

Dez quilômetros. Estamos em paz, nos convencemos.

Mas ao chegarmos próximos ao Ateliê, vimos um rosto que desfigurou-se: os olhos do artista que num primeiro momento esboçaram uma crescente alegria ao ver nosso carro chegando, em questão de metros se transformaram em sofrimento. Vimos lágrimas escorrerem face abaixo ainda antes de saírmos do carro; e olhamos um para o outro, apertando os lábios, enquanto ele se encaminhava para abrir a caçamba sem dizer palavra.

Olhou para o seu imperador primeiro. Tocou a obra como se a saudade se arrefecesse ao fazê-lo; como se a lembrança se diluísse à medida em que ele corria as mãos pelas pernas, pelo dorso, pela cabeça sola.

Sentia o Sultão, profundamente. E ressentia suas partes; mas resignava-se ao mesmo tempo, como se o que houvéssemos feito não pudesse ser desfeito; como se aquele passado lá no sítio, e agora finalmente, tivesse acabado; como se o vergalhão tivesse sido cortado, rompendo fortes vínculos indesejáveis, ainda que perenes, teimosos em partir.

“Como? Com o que vocês cortaram Fiona?” ele pergunta enxugando as lágrimas.

“Com um alicate de vergalhões”.

“E quem deu o alicate para vocês?”

“Sandra, a moradora.” 

Sandra, a ex-mulher, viemos a saber minutos depois. Aquela que generosamente, após a providencial sugestão de cortar a cabeça da escultura, ofereceu, de pronto, o alicate para concluirmos o trabalho. 

Era o começo da verdadeira história: do pregresso que volta, queimando; que ela, ardilosamente, ajudara a forjar com o maior primor: uma Tróia transfundida. Um cavalo recheado de vendeta que, conduzido por nós, conseguisse abalar o suposto malfeitor de uma década atrás. Nós nunca saberíamos.

Abalou. E não havia solda que pudesse remendar o passado.

E nada mais que pudéssemos fazer. Entramos no carro, sentimos muito e seguimos viagem.

“Acho que ele vai enterrar o Sultão”, sugeriu Carla.

“Não sei”, disse. “Mas certamente sua ex-mulher.”

Chapéu

Quando a moça do caixa falou o preço do chapéu, ele até deu risada. Não pelo preço que normalmente nos faz rir, mas pelo que faz a gente desconfiar.

Cinquenta reais. Absolutamente, barato, mas para ele, que há anos procurava o tal, este se apresenta de valor inestimável. Nem de Caipira, nem de Boiadeiro, Cartola ou Coquinho; Fedora, disseram, marca famosa. Também não era cumprido nem achatado, ou largo ou estreito, mas sim perfeito. Na cabeça o espelho confirma, e ele sorri modificado, colorido: ele preto e branco, o chapéu tipo-junino; o tecido, agradável que bastava, e padrões que ele gostou.

Faz caras e caretas no espelho do provador. Muda o chapéu de posição, checa o ajuste na cabeça, a resistência, se combinava, e aprova: “somos nós.” 

A vendedora que o acompanhava no provador e o via pelo espelho, não entende direito a fala, mas sorri: “Foi feito para você”.

“Sim, e hoje é o nosso dia”, ele completa se dirigindo ao caixa, e logo já está do lado de fora da loja, e já são sete horas, quando ele ouve seus pensamentos: “eu estou aqui para me divertir, eu estou aqui para me divertir”, que ele logo acata e transforma em mantra: “eu estou aqui para me divertir.”

Repete e repete enquanto caminha-repete e a verdade vai se formando na cabeça. Amplia: nós estamos aqui para nos divertir.

E foram. E lá estavam agora no meio de uma balada, ele com um wiskie na mão; o chapéu na cabeça em movimento. Ambos dançavam.

Ele olha para um lado, olha para o outro. O contexto vai se formando. Os olhos se ajustam ao ambiente. As luzes deixam de irritar, você se deixa levar. Fica mais leve. Talvez a mera idéia de um chapéu traga leveza.

Ele flui. Mais um drink, outro flui.

Ambos fluem.

As luzes passam a ser essenciais. Os momentos sem ela também: a adulteração; aquele minuto em que ninguém vê ninguém. Ou quase ninguém. E todo mundo vê todo mundo. E quase o mundo todo.

Quando nesse mar de quase e tudo, ele vê um garoto se aproximar. “Olá”, diz muito educado. E o diálogo segue num ritmo bem peculiar, alumiado pelo mesmo pisca-distorção: “Olá”, vem de cá a resposta um tanto indiferente. “Gostei do seu chapéu”. Um elogio sempre cai bem; abre portas. “Obrigado”. “É o seguinte:”, diz o jovem de peito estufado e confiança estampada, “Quero comprar o seu chapéu!”. “Como”? “Isso mesmo, quero comprar o seu chapéu.”

Chapéu e cabeça aturdem: Como assim, nos comprar? “Não está a venda”.

O garoto é sorridente e persiste. Já deve ter passado por outras rejeições; gato escaldado. “Cara, eu gostei muito do seu chapéu. E deixa eu te explicar melhor. Eu pago duzentos reais por ele.

A música é alta. O valor é difícil de entender. Mais ainda de acreditar; quando o jovem saca a carteira e coloca as notas para fora. A luz que vem e vai mostra a verdade. Enquanto cintila, as onças, ferozes notas de cinquenta aparecem quatro vezes. O dinheiro está na mão; sendo oferecido basta pegar.

O chapéu teme. É quatro vezes o valor pago. Estou perdido, pensa.

Mas a coalisão que se formara no espelho lá atrás não cede, e ambos, na voz de um, resolvem explicar os motivos: “veja bem, amigo. Esse chapéu me encontrou hoje; e eu o encontrei também. Somos dois, eu e ele: ou nós, se você preferir. 

O garoto está pasmo: “como?”

“Além disso, tem toda a questão do personagem, sabe? Eu, o chapéu, minha roupa, a dele. Combinamos para o dia de hoje. E estamos aqui para nos divertir.”

“E eu também”, sorri novamente o garoto, “Por isso preciso do chapéu. Te dou quatrocentos reais então.”

O chapéu dessa vez treme, só esperando ser tirado da cabeça. Se isso acontecer, pensa, já era. E enquanto uma boca abre de espanto, fazendo contas, uma outra abre sorridente e confiante, tirando da carteira mais quatro perversas onças determinadas a dissuadir decisões. São oito vezes o valor do chapéu, que a essa altura está apavorado. 

Um breve silêncio se instala em meio ao som que ensurdece. A balada para para os três, como que congelados. Como que em câmara lenta em meio à euforia. A expectativa permeia suas emoções ao mesmo tempo em que sinapses são trocadas entre o personagem e o chapéu. A decisão está tomada, pois o espetáculo que ali se apresenta não carece de dinheiro. O valor é a diversão.

“A resposta é não. E não há transação.”

A resposta surpreende o garoto, e de uma forma curiosa, enquanto a balada volta a girar, sonora: “Taí, gostei de você”, ele diz mediante a rejeição. E “Vem comigo” sugerindo a direção com tamanha decisão que não houve outra opção senão seguí-lo, as cegas, talvez com uma certa curiosidade, mas certamente com mesmo mantra na cabeça. A idéia do divertimento podia estar sendo posta em prática, sem que nem se dessem conta.

No cantinho do lugar, um lugar especial. Uma porta para entrar; um segurança-pulseirinha, inferno particular.

E eu estou aqui para me divertir, ele repetia insistentemente para não cair no conto dos medos e das desculpas frente ao imprevisto.
Lá dentro, ainda conduzido pelo garoto, é apresentado aos amigos, as amigas, e a uma garota especial; ela sorria largamente para o cara com o chapéu. Ambos retribuem. Um outro tipo de silêncio se instala, quando o garoto o rompe dizendo: “Eu não consegui o chapéu para você, babe, então trouxe o dono junto.”

Mal sabia ele o infeliz negócio que fizera.

Uma Pincelada de Quadrinho

Casa de ferreiro, espeto de pau, já dizia o velho ditado que eu cumpria à risca: nunca fora ao topo daquela montanha que ficava ao lado de onde eu morava. Já tinha ouvido falar sim, inúmeras, mas como já disse, eu erra ferreiro até então. Até o convite do vizinho que, após inúmeras tentativas, finalmente me convenceu.

Era Primavera. O clima estava ótimo, nem quente nem frio; e o amanhecer prometia calor. No banco de trás então, o vizinho, Julia, e eu. Na frente, o motorista e sua parceira de longa data, Raquel.

Como as viagens sempre começam antes de começar, tudo já tinha sido arquitetado, incluindo os mantimentos que seriam levados, as bebidas, os adornos para o desfile sempre acompanhado dos óculos de sol, o essencial gelo e as roupas de frio, caso, e frequentemente necessárias. Tudo à postos para um pretenso dia de sol regado a gente bonita, música ao vivo e uma paisagem de-matar-lá-em-cima; as descrições que eu ouvira do vizinho eram deslumbrantes, incluindo duas araras, uma azul e a outra vermelha que, segundo os relatos, encantaram quem estivera por lá, voando sobre as pessoas e arrancando aplausos.

E aplausos para nós que, pelo que entendi, milagrosamente conseguimos sair ‘mais ou menos no horário’, segundo o motorista que agora nos apressava-irritante a partirmos. Eu ainda não o conhecia, mas comecei a ver as cores.

E seguimos, a viagem é longa, três ou quatro horas, sem parada ou com, cento e vinte ou cem, ou oitenta, sempre com-radares-com-certeza, o tempo também pode ser motivo de atrito. Dito e feito de repente vem a multa, ou a suposta, o que ainda é pior, pois essa fica dentro do peito, queimando o estômago, até que chega. Aí a gente adoece de expectativa frustrada. A certeza do dinheiro que ainda será rasgado abre então a primeira querela entre o motorista e a parceira; querelinha a princípio, mas crescendo, bate-boca-de-dois, querelão; E nós ali atrás tricotando-em-três, e  em silêncio pois o homem esbravejava: “Eu sei que sou eu que estou dirigindo”, dizia à esposa enquanto batia histérico no volante. Ela, que ironicamente era quem cuidava das finanças da casa, tentava acalmá-lo, em vão, enquanto o já conhecido bufo do marido reinava quente, barulhento, triunfante. E reina conquistando quilômetros até que uma providencial parada surge no exato momento da necessidade do mijo de Julia, que em alto e bom tom manifesta sua vontade, e quebra assim aquele climão que rolava alí dentro. Lá fora o sol subia e prometia cores. Eu sonhava com o azul, mal pensava no verde.

Mijamos, e lavamos as mãos, e o rosto que ainda acordava; e olhamos no espelho, as gotas que escorriam, bom dia novamente. Um bocejo, duas pernas esticadas, ou dez, e pães de queijo, coxinhas, sucos, cafés e pingados, e nada da empada.

Justo a bendita empada. Por que é que ele tinha que escolher justo a empada, dentre tantos dando sopa na vitrine de salgados do balcão? Tinha enrolado para escolher, coxinha, assado, espetos, mas não; ele queria, e não negociava, a empada de palmito. A moça tinha dito que sim; mas se enganou e voltara com um displicente não-nas-mãos: “Acabou”, disse, mas o motorista não era homem-de-não, a não ser que dele, e vociferou. Mais que isso, constrangeu, não só a si, mas a todos, e ainda mais a ela, pobre atendente que, assustada com a fera da empada, como ficou conhecido logo após o xilique, chorou uma pia-que-pingava sem parar.

Todos nós pasmamos. Eu quase arrependido, mas pouco, pois a experiência de observar cientificamente, ou em quadrinhos, aquele momento, não tinha preço. E eu iria até o fim, com a certeza de que não seria o último episódio; assim eu pintava como Da Vinci e sorvia cada detalhe: como quando nosso amigo-no-comando resolve diluir a raiva do salgado inexistente na moça do caixa que, longe da treta da empada e não sabendo de nada, errou no troco, erro grave. Ele soca a estrutura do caixa, chama a atenção dos seguranças e nós quase acabamos presos. E eu anotando tudo.

De volta à estrada, o silêncio retoma o trono por um tempo e eu cochilo de ouvidos atentos. A estrada é sempre uma prova de amor, ou de ódio, ou de breves períodos de fúria. Assim, conto também com um olho aberto e o outro fechado e a discrição do casal ao meu lado para sentir os acontecimentos por vir-ao-volante. Já conhecíamos a tensão dos bancos da frente: um dirige e o outro também, este é o arranjo. Ela agora toca e ele fala; devem ser coisas do falo, privado, onde a gente não mete a colher, nem dá opinião, somente cala. “Vira aqui”, ele que nunca cala sugere, e ela vira. “Para!”, e ela para. “Vira para a esquerda”, e ela vira novamente e nós lá atrás sorrimos baixinho; como adolescentes que não querem ‘entregar’ e logo calamos novamente denunciados pelos olhos no retrovisor que sugerem cuidado; ou medo.

A cada curva um comando. Os verbos no imperativo ditam o tom; breque!, siga!, acelere!, tá errado!, porra!, sua burra!, e ela para totalmente: “cala a boca, Tuba!”, e ele sua. Não acostumado ao espelho do comando, primeiro espuma irado; depois sai do carro, anda uns trinta metros, olha adiante, para os lados, as vacas que pastam, a cerca, o caminho que acabou, não há mais para onde ir. Chuta as pedras, da um soco na árvore e bate na própria cabeça repetidas vezes, frustrado, como o combate inglório do vampiro que detesta sangue.

Quem era ele? indagávamos. Mas a esposa, casada há muito, teoricamente já sabia, com certeza-convivia. Ou nem mesmo ela, pois como dizem, mesmo depois de décadas, não conhecemos o parceiro, ou a parceira, pois as essências nem sempre são reveladas de todo; muito menos de pronto. De forma que a dúvida perdurou. Ele volta em direção ao carro depois de alguns minutos, ainda arfante e agora com as mãos machucadas. Eu vejo um um pouco de verde nelas; imagino uma folha esmagada, e seiva, que é um tipo de sangue. Guardo para mim.

A poucos metros do carro ele para. Estica o corpo, joga os ombros para trás, levanta o pescoço e urra debilmente num tom de voz animalesco. Um leão, talvez, gorila. Do topo dos pulmões, como dizem, o som nos alcança através de janelas fechadas e damos as mãos, nós três ali atrás, num misto-de medo, sorriso e emojis. “Ele é um emoji, pensei sorrindo, mas tememos de verdade. Ele fechou os pulsos enquanto urrava e pudemos ver as veias em seus braços empapuçarem. Seu pescoço também inchou e seu rosto ficou imediatamente vermelho, e a progressão do vermelho, que eu imaginava uma explosão, quase aconteceu; mas ele parou, olhou para nós com olhos-também vermelhos, puxou mais um pouco de ar e berrou novamente, mais alto-e-longamente, obliterando aquele nosso binômio meio-medo meio-sorriso, que agora não estampava nenhum de nós. As rugas eram de preocupação, e junto veio pandora. Estávamos dentro do carro presos dentro da caixa, supostamente protegidos.

Raquel endossava nossa esperança. “Gente, eu conheço meu marido. Podem ficar tranquilos que já passa.” Então quer dizer que isso já aconteceu? pensei, e acho que pensamos nós, pois a risada que escapou da gente ali atrás fez com que até ela ali na frente risse; e compartilhamos a ironia pelo retrovisor: sim, estamos bem tranquilos

Mas hipnotizados pelo espelho, esquecemos de olhar o para-brisa: ninguém alí na frente! Do lado-esquerdo também nada. Mas a porta dianteira-direita se abre, é ele que chega: molhado-ofegante, senta uma grande carranca, assustadora besta, tubarão assassino; Tuba, o primeiro apelido que estamparia algumas das capas dos principais jornais da cidade na segunda logo cedo. Semanas depois, a mídia nacional pintaria um quadro ainda mais colorido, para um outro nome.

Em marcha-cautela, é ela que agora toca. Ele calado pouco se move, como que recuperando-se. Dá para ouvir sua respiração acelerada e ver com nitidez as gotas de suor na nuca, que correm. Sem olhar para trás ou comentar nada, ele abre o vidro enquanto o carro segue pela estrada de terra no sentido oposto, uns cinquenta quilômetros de erro; a esposa que não tolera-sequer partícula, aguenta também muda a brisa de pó e torce para o tempo que passe. Mas ele corre mais morosa que a mente. 

Não sabíamos o que ele pensava pois não ousávamos perguntar… Ou engolíamos o momento à seco e esperávamos a bonança, que via de regra sucede a tempestade. As máximas e os ditados viram objeto de desejo nessas situações e é impossível não nos apegarmos a eles. Grudo, e do banco vejo a larga nuca aquietar-se. Os finos pelos param de vibrar e a cor dá lampejos de mudança. O retrovisor da motorista nos confirma a tendência-calmaria e Julia não perde a oportunidade: “Tudo bem, Tuba?”

Ele não olha para trás, para nós, ou Raquel que continua a dirigir também sem olhares desfocados. Ela é só para frente, sem desvios ou atalhos, só-pés-pesados que queriam chegar. E nós também. E com o tubarão agora dando sinais de que era peixe, acalmamos no barco-pescadores e nos deixamos levar pela fluidez do asfalto que agora orientava nosso rumo.

Em uma hora chegamos; ainda era cedo e a fila também amanhecia. Julia cochilara; o vizinho e eu ainda trocávamos olhares desconfiados e Raquel tentava trocar tímidas sílabas com o marido que continuava amuado. O desconforto que sentira, o peso-do-erro, a vergonha, acho que tudo isso o melindrou de certa forma. Por isso o mal humor. Mas não há fila nesse mundo que serene belzebu, quiça qualquer pessoa. Assim ele salta do carro após alguns minutos de espera-da-cancela e resolve subir à pé-o-pico. A subida é íngreme e o sol já subiu também, e ele é grande, e é pesado. Mas pode também ser muito forte e resistente, ou até mais, que é o que desconfiamos a aquela altura. Assim assistimos sua marcha morro acima até a segunda curva, quando some. “Fazer o que?” lamentamos juntos e resignados como que em uníssono dada a nossa conexão naquele momento. Mas um “E agora?” também nos ocorreu, suscitando de repente a necessidade de uma ação; mas a urgência sucumbiu rapidamente à paz, a propósito muito melhor e mais adequada ao momento geral do dia (o nosso especificamente estava na contramão das promessas), ensolarado, alegre e cheio de blues por vir. Então ficamos; tentamos deixar par-alá, meu deus.

A subida após a cancela era de uns oitocentos metros, conforme nos informou o segurança que observara admirado nosso amigo subir o caminho com tamanha intensidade. “Os carros”, disse “normalmente sobem em primeira marcha; e eu o vi correndo enquanto vinha para cá”. “Correndo?” perguntamos também em uníssono, espantados. “Meu marido nunca corre; como pode? O senhor tem certeza?”

Na dúvida disse que sim; que era um homem grande, de camisa rasgada-apertada, que corria devagar mas sem parar e que estava como a cor da mangueira, a escola de samba em aquarelas; e não ofegante daqueles que se cansam, mas dos que se transformam, que lutam para não vestir a fantasia obrigatória, a que vem e vai a bel prazer, e que cola-e—comanda quando surge, e urge ser. Como também o demônio que, quando clama para si o outro, (lhe) imputa ainda outras vozes, forças e cores.

A cancela se abre. A expectativa de quem está à nossa frente, ou atrás de nós é de festa; a nossa não é nem expectativa. É algo que flerta com as tais vozes que poderemos ouvir, as forças que desconhecemos, ou com a cores que não são nem da arara azul ou da vermelha que tanto queríamos ver. Apreensão talvez seja a palavra certa, pois na fila que se movia morro acima, éramos o elo dos sentidos buscando mais um para a história que se contava bem diante de nós, por nós, outrora coadjuvantes, agora detetives desvendando um mistério. Para onde ele tinha ido? “Cadê o meu marido? O que está acontecendo com ele?” chorava Raquel que nem mais dirigia. Suas pernas tremiam, suas mãos suavam, suas unhas diminuíam de tamanho. Os metros passavam lentos e ela não se aguentava. Então puxou o freio de mão e desceu do carro. Olhou para nós um longo olhar, e com os seus de detetive começou a seguir pegadas. E nós ficamos para trás. O casal ao meu lado pulou para frente e Julia assumiu o comando do carro. Pudemos assim acompanhar os primeiros movimentos de Raquel que pisava firme enquanto observava todos os detalhes da trilha que já tinha identificado, e seguia: ele definitivamente tinha passado por lá. 

Ficamos para trás. Ela seguiu adiante por uma boa centena de metros à frente, percurso que demoramos uns dez minutos para percorrer, quando a vimos esperando por nós. Ela pedia para a gente correr e apontava frenética para o cantinho da estrada mostrando alguma coisa. Fomos chegando perto, mais perto, entendemos uma pegada. “Sim, uma pegada; mas vejam!”. A gente não via. “Vejam o tamanho dessa pegada”. Nós vimos enquanto ela entrava no carro e nós seguimos; seguíamos as pegadas que iam ficando cada vez mas óbvias, mas claras. E entendemos que não era uma questão de nitidez, mas de tamanho. Cresciam rapidamente até que viraram pés descalços, mas também crescendo. Achamos retalhos de calças, meias e também botões de camisa; por fim os óculos de sol, essencial adereço para a festa, agora grosseiramente esmagado no chão e um um caco da lente manchado de tinta. “Tinta?”

Mas tinta não pinga-do-nada, de onde é que vinha? Peguei o caco, molhei o dedo, esfreguei um no outro, entendi a textura. Pouco viscosa.

Alguns metros acima achamos uma outra gota, talvez maior, pois escorria para dentro da pegada, marcada em solo seco, difícil de cavar. Ainda assim cada pegada tinha uma profundidade aumentada; e as marcas iam se espaçando, e as gotas sumindo, como se aquela transformação que a gente via nos desenhos da televisão de tubo-anos-oitenta estivesse acontecendo exatamente alí, bem na nossa cara.

“Isso é sangue”, digo a Raquel enquanto examino a última poça que veríamos naquele dia, e ela finalmente esbugalha os olhos. Simplesmente não quer acreditar, “sangue é vermelho!” ela grita. Mas ao olhar para Julia e o vizinho, condescendentes comigo, baixa a cabeça (e o tempo passa, como se ela estivesse vendo o passado e o futuro ao mesmo tempo; contemplando o inevitável e também a única possibilidade). Vê a poça, se abaixa e leva as duas mãos àquele líquido cor de pistache. Faz uma concha, olha para nós e resolve validar pelo palato o assombro daquela constatação. Então leva as duas mãos juntas à boca e bebe-babando aquele suposto elixir como se fosse um sorvete que escorre da boca da criança na praia, cotovelos abaixo, barriga e o nascer de um novo cordão umbilical. Um vínculo ‘a-la’ as novelas gráficas mais famosas, mas para nós muito real, pois vimos. Vimos a mulher crescer, Raquel enfurecer, esverdear, pisar. Vimos a mesma pegada, e uma lágrima verde que escorria pelo seu rosto enquanto olhava para nós.

Ela cai e pinga no chão. E as araras voam sob aplausos.

ECp
#euriscritor

Uma Machadada na Cabeça

“Como é que foi?”

“Fui convidado pela Estela. Na verdade, pelo marido dela, que já vai lá faz tempo. Ele já tinha me convidado várias vezes, inclusive. Sempre que a gente se encontra ele me convida. Um dia não teve jeito. Não sei nem por que ao certo, mas ele falava tão bem que resolvi um dia ir.”

‘Eu tenho um pouco de medo.’

“Sabe que não precisa, viu. Quando você chega lá já percebe na hora que o ambiente é seguro. Um sítio eu acho. Um lugar aberto, bonito. Uma casa com uma varanda com umas mesas espalhadas e uma quantidade de gente em volta, sei lá, umas quarenta, cinquenta, trinta, por aí. Não sei ao certo. Tem comida nessas mesas, mas ninguém pode comer nada. Ninguém come, pelo menos. Não me lembro direito das orientações que me passaram, se podia comer antes ou não, mas fiquei com vontade. Mas acho que não pôde não.”

‘Então vocês ficaram ali, esquentando os motores?’

“Não sei se o termo certo é esse, mas dá para dizer que sim. Foi um momento de, uma espécie de confraternização antes do evento principal. Não é todo dia que eles se encontram. E tinha também a questão dos iniciantes. Era a primeira vez de um monte de gente, incluindo a minha pessoa aqui, a propósito. A gente era uns quinze, vinte. Mas tinha cinquenta pra mais pessoas lá. Já falei né?”

‘Tinha música, dança? Ouvi dizer que em alguns desses lugares, você dança, e fica lá, viajando.’

“Nesse não. Nada disso. Muito pelo contrário. Imagina um salão. Todos fomos para esse salão. Ou melhor, um galpão, sabe; de uma fazenda. Tinha um monte de cadeiras por lá, todas apontando para o mesmo lado. A gente escolhia uma e sentava. Uma ao lado da outra. Do meu lado, por exemplo, tinha umas oito cadeiras, se me lembro bem. E em cima dessa cadeiras, cobertores. Eu não entendi muito bem, mas lembro que já estava frio. Friozinho. Eu estava agasalhado inclusive. O amigo que me levou disse para eu levar agasalhos. A propósito, isso é uma coisa interessante: os iniciantes só podem ir lá acompanhados. É praticamente proibido ir sozinho. Acho que nem dá, porque a gente não conhece e é um grupo bem fechado, então. Do que adianta querer ir sozinho. Mas no final eu até achei uma boa viu.”

‘E seu amigo, ficou com você?’

“Não muito. Mas eu acho que eu quis me afastar também sabe. Queria curtir sozinho, se é que ia curtir mesmo.”

‘Mas você já estava com dúvida? A coisa não tinha nem começado e você já cheio de dúvida?’

“Pois é. Não cheio de dúvida não, mas alguma coisa tava me incomodando, sabe. Achei muito estranho, todos muito felizes e mostrando muitos dentes.”

‘Todo mundo feliz e muito sorridente?’

“E algumas pessoas de uniforme. Ou um tipo-de-uniforme. Calças verdes ou brancas, ou vice versa, não sei. Só tenho certeza dos sapatos brancos e aquilo me deixou meio, sabe com a pulga atrás da orelha? E eram elas que ficavam na parte de um altar; tinha um púlpito lá na frente e uma pessoa que ficava lá falando. Ele também tinha os sapatos brancos. Um culto, isso! Me veio a idéia de um culto e aí eu não gostei. Parecia que eu estava numa igreja. De uma hora para outra, no mesmo lugar, fui de uma chácara para uma igreja. Eu não gosto de igrejas.”

‘As raízes do povo.’

“Ironias da vida, não! E eu lá, pronto para viajar para o amazonas.”

E ele foi. Não necessariamente para o Amazonas, mas para qualquer outro lugar, “indecifrável” nas palavras dele mesmo. E escuro. Ele definitivamente havia estado num lugar espesso; o obscuro parece que tem essa cor, e era lá que habitava agora; quando andava, ia tirando objetos escuros da sua frente. Eles flutuavam e ele os tirava com as mãos em frente ao rosto, à frente. Não sabia exatamente o que era. 

Caminhava. Andava sobre-a-sombra, uma sensação estranha. As paredes ao lado, pois a cerração era tanta que ele não conseguia ver o horizonte, estavam próximas. O cerco se fechava, como se estivesse no ‘Quarto do Pânico’,  Jodie Foster que o salve. Mas não, não tinha para onde ir, senão que para frente, era essa a viagem. Mas quer quisesse luz, o que via agora lembrava mais a noite, os becos, aqueles latões de lixo caídos no chão esparramando alienígenas. Sim, é o que viram depois de mortos.

‘Estou no lixo’, pensava. Mas então, do ralo foi para d’entro d’água, e não era aquela água que vem à mente quando se fala dela. Nem clara, nem a do mar que espera o sol, ou a do rio que desliza em serpentes, nem a do mergulhador, ou dos tubarões do discovery channel, mas a do Ganges, do Rio Tietê, do Citarium, da Bacia do Riachuelo*, do mortífero Karachay. Todas elas misturadas era lá que ele estava, nadando sem máscara.

Subiu para respirar e se viu no barracão, um suspiro de alívio! Desconfiava da verdade, mas percebendo nos semblantes ao lado, serenidade, tranquilizou-se apesar da lucidez que à cada escurecer era posta à prova. Sentia-se pleno, mas sonolento. Tinha os pés no chão, mas era partícula; e foi soprada.

Acabaram os pigmentos. Não havia luz, nem todas as cores. O tom era das trevas e ele embarcou novamente acompanhando o ritmo do silêncio, que só era quebrado quando as músicas religiosas que tocavam no galpão capturavam seu negro e induzido devaneio. Mas a profundidade o atría-sem-querer. Fechou-se à música sacra, deixou-se levar e fluiu esgoto adentro. 

Algumas coisas boiavam como nos rios, mas andavam menos; eram mais lentas. O visco não era água, ou era-há-muito tempo, pois aquela nojice mais parecia com o óleo de motor que sai aos pedaços de qualquer tanque velho. Era por ali que ele andava. Mas quando abria os olhos, o que via era um monte de gente com cobertores no colo e dormindo com ares tranquilos. E ninguém abria os olhos para compartilhar com ele sua aflição. Portanto fechou os seus novamente e deixou que aquela correnteza lenta e viscosa o levasse, sufocado-de-ansia, ao formigueiro.

Elas subiam por suas pernas ininterruptamente, e infinitamente como em looping. Ele olhava de cima para baixo apavorado e via aquela revolução de formigas, suas pernas se tornando negras-em-movimento fazendo coçar. Ele sentia a coça, mas seus braços estavam duros, como que paralisados por venenos de milhões de perninhas. Até que foi coberto por elas, e levado embora como aquela folha carregada por um única operária.  O fim da linha não havia. Estava acorrentado a outros, presos-por-correntes, caminhando-cabisbaixo, toldado por ‘pés direitos’  ainda mais baixos que o faziam rastejar junto a insetos que já conheciam a caverna para onde fora levado em suspensão.

Ele queria sair de lá. “Meu, eu tenho que sair daqui de qualquer jeito!” ele repetia para si mesmo sem nenhum resultado prático, porque estava em vigília, quele estado de sonolência supostamente controlada que engana. Disfarça o que se acha naquilo que deveria ser, e brinca-se de esconde-esconde sem nunca de verdade se achar. 

A música cessa lentamente.
As luzes são acesas e se percebe um movimento. As pessoas ao redor abrem os olhos, mechem os cobertores, espreguiçam. Abrem as sonolentas bocas e bocejam gostoso, sem pressa. Se esticam novamente enquanto o viajante das negras profundezas tenta fazer o mesmo, mas sem nenhum prazer. Simplesmente estica o corpo duro, congelado, frio-querendo-quebrar e se encolhe num lento e temporário despertar. As luzes que se acendem ajudam, mas seus tristes olhos opacos acusam. “Está tudo bem”? alguém pergunta, e ele calmamente serena. 

Do púlpito vem algumas informações e ele as dispensa rapidamente. Continua semi; mas percebe que algumas pessoas se levantam. E começam a formar filas. E todos fazem o mesmo enquanto aquele lá à frente diz que quem estivesse bem, poderia, verbo poder, continuar. ‘O que é o ‘gosto de terra’ para quem já está na movediça?’ ele sorri, se levanta e segue a manada. O elixir do santo logo ali à frente para mais uma dose. “Por que?” se pergunta, e segue adiante que ‘sou guloso’, foi a resposta. Mas a razão plena já não era mais sua aliada, e ele sucumbe às maravilhas do grande estado do norte. Devora lentamente aquela infusão, e volta para seu lugar, ou para onde quer que depois-fosse. 

A areia se materializa. Ele tinha pensado na terra, mas veio fina-como-de-praia e ele estava se afogando. Só sobravam a boca e as narinas para fora quando ele viu logo acima da sua cabeça alguns cipós quase-ao-alcance. “Talvez se eu conseguir erguer meu tronco”, e o esforço foi hercúleo, mas quando os alcançou eram cobras peçonhentas que picavam seu braço e ao mesmo tempo o tiravam da lama. Um doce amargo que virou putrefação em questão de segundos. Estava a salvo, mas morrendo.

Precisava de um ar. Foi ao banheiro. Outros já o haviam feito e resolveu fazer o mesmo. Abriu e fechou a porta de vidro deixando todo mundo lá dentro e caminhou através de um jardim para uma outra casa onde supostamente acharia o toalete. Não importava, pois o que ele queria era existir. Achou-usou e aproveitou para se olhar no espelho. Estava lá, em carne e osso, respirando, limpo. Não havia nadado no esgoto ou sido picado por cobras peçonhentas. Simplesmente dormiu e teve um sonho ruim, concluiu enquanto voltava lentamente para o gramado, contemplando umas grandes árvores que circundavam o ambiente. Se mostravam majestosas, iluminadas pela lua, e verdes em toda sua infinita, variância; e todos os tons estavam vindo às pupilas dilatadas quando foi surpreendido por um dos porteiro-sacerdotes que o colocou de volta-porta-adentro. Ressentido-sucumbiu, pois a viagem lá de fora prometia cores, enquanto a de dentro, mais negritude, ele previa. E quando se sentou e novamente desceu as pálpebras, eis que Nostradamus. A jornada não tinha acabado e ainda faltavam pelos menos sessenta minutos para a aterrisagem. Muito tempo para o são, para ficar ali sentado sem fazer nada. Mas para o viajante que se entrega, mesmo que para o desconhecido, os ganhos podem ser ainda maiores. O trem perdido na estação, o prato de molusco pedido às escuras, o guia-que-engana, tudo de certa forma soma, era uma crença que nenhuma raiz mística do norte corromperia.

Aprenderia com o esgoto, com os rios poluídos, com os becos sem saída, decidiu. Cobriu-se para a reta final do desatino e pulou de cabeça para dentro daquela movediça que logo antes o sugava. Mas dessa vez ele ondulou por debaixo da areia e encontrou água. Suja ainda, mas líquida, oposta ao denso caldo de nanquim dos ápices anteriores. A tinta se diluíra um pouco e ele nadava numa espécie de aquarela monocromática; escorria junto à tinta enquanto transitava de um cinza ao outro. Tinha se transformado na serpente que o picara e que agora rastejava naquela matiz aquosa usando seu corpo como pincel, espalhando curvas que fluíam ao sabor da vigília. Pintava um quadro impressionista e invocava a luz,  o personagem principal. Mas os atores daquela história ainda assombravam e apagavam as velas que ele queria acesas. Dá-se uma luta intensa entre serpentes e fantasmas e do confronto pingam gotas coloridas que o despertam.

Ao seu lado as pessoas começam a se mexer. Olhos são abertos e cobertas são deixadas de lado. Ninguém se levanta, como se nem conseguissem. Ou nem quisessem, pois seu semblante é de paz, bem estar e glória, melhor ficar por lá. Espreguiçam e sorriem. Inspiram e expiram gratidão, que a noite foi ótima.

A sequência do seu despertar, pelo contrário, é um silêncio quase constrangedor. Enquanto todos dizem que ‘foi bom demais’, ele suprime de dizer tudo o que vivera. Mas quando questionado diretamente sobre como tinha sido sua experiência, disse que um dia escreveria um texto sobre isso. 

Ainda não tinha título.

Ecp
#euriscritor

 

*Bacia do rio argentino Matanza-Riachuelo, considerado por especialistas como um dos dez locais mais poluídos do mundo, assim como todos os outros rios citados na passagem: Ganges (Índia), Tietê (Brasil), Citarium (Indonésia), Karachay (Rússia).

A Vingança do Zigoto

De tanto que pisou em ovos, acabou sem sapatos.

Mas sobraram os fios que, agora cadarços amarelos, serviriam a um outro propósito.

Descalço e com os pés em carne viva, voltou os doze quilômetros a pé para casa e encontrou papai largado no sofá com uma cerveja semi morta no colo, bocejando aquele bafo de galo velho e imprestável. Não aguentava mais! Nem mamãe, que nesse momento voltava chorosa da cozinha onde levara um supetão por simplesmente ter errado o ponto do macarrão. Foi a gota d’água; a farinha do bolo, a cereja: um desejo que era chocado há anos.

Ela abraça a filho por trás e de mãos juntas esticam aquela fibra que sempre faltara.

eCP
#euriscritor

Nascer, Gozar, Criar

“Outro dia me disseram que nessa vida temos que exercer a liberdade, que sem ela somos nada, ou quase: ’eu-robô’, copião, tecla tecla e a marchinha sem tesão, um após o outro enfileirados, terno e gravata ou terninho, sainha, pantalona ou bermudão, o que quer da moda seja, e andamos apressados, uma verdadeira massa indistinta e embolotada, passando pelo moedor com destino definido, uma morte reciclada: nasce um, nasce outro, e na pastelaria da vida moderna somos fritos em padrão para um selfie bem armado, copiado, filtrado, sorridente, sempre sorridentes na moldura do telão.”

“Não se cria nada, só masturbação fastidiosa e passatempo mascarado numa rede sem peixe. Somos nós os pescados-net de olhos vidrados madrugadas adentro e o salmão na geladeira, frozen, esperando o meu descongelar.”

“Acorda menino, diz ela, loira, e o louro e os pavões saçaricando em palmas que te quero sempre mais… e holofotes, o gozo depois do orto, o jorro da vida que agora em capsulas de colágeno e cirurgias de mamas e xoxotas perpetuam o finito numa ode ao perfeito ‘nós-androide’, que a propósito não mais ejaculamos.

“E já deixamos de nascer, pois esquecemos de criar.”

“O espermatozóide está deprê; se perde em vôos sem destino como um pássaro sem asas, ou acaba congelado num laboratório de futuros humanóides, os novos replicantes. E assim, pela ereção condicionada, aguarda o broxante lançamento: quatro, três, dois, um, pingou. E como uma rolha de champanhe sem pressão, uma flecha de um arco sem tensão, sem potencia cai na esteira de um Ford preto e perpetua seu alelo infinitamente duplicado a bel-prazer do seu patrão.”

“Com os bolsos cheios de dinheiro e mil sacolas, renasce, agora sim goza e compra um quadro. Pendura na sala, arte. Regozija como se pintor o fosse e de olhos fechados contempla com orgulho a lembrança do oportuno lance feito numa casa de leilão: dou-lhe uma, dou-lhe duas, ‘é meu’.
Dou-lhe três, quatro, dou-lhe cinco, mil penetrações que como mágica viram estátuas, ferraris e pianos de caudas, que elas nunca são suficientes para aquele gerador dos deleites em cadeia.”

‘Mas e a liberdade” – alguém perguntou – “como é que fica nesse lago de mil repetições?’

“Temos que exercê-la. É vontade própria, se conquista e se pratica; se no ócio, ela morre, hiberna como os velhos ursos e persevera no hábito da inação. É muito fácil sucumbir à indolência.”

‘Mas como, se já nasci, gozei, e vivo?’

“Crie, cidadão. Use as mãos, pegue no pincel, escreva uma linha, duas, um milhão de linhas desconexas, não importa; observe o mundo ao seu redor, olhe as árvores, contemple sua cor; sei que parece sempre a mesma, mas não. Observe por alguns minutos; sente à frente dela, na calçada e veja. Fixe o olhar no caule, vá subindo lentamente às folhas e assista seu tremular, sinta o vento. Pode ser até que veja um pássaro, um macaquinho, ouça um miau ou a voz de uma cigarra. Fique lá, não vá embora, não saia correndo, divague, feche os olhos. Atente.”

“E todo esse processo durou apenas alguns minutos.”

“Agora pegue toda essa fresca memória e leve junto com você. Mas antes, passe numa papelaria e se encha de lápis de cor, giz, pinceis e tintas. Pegue um papel em casa e recorde, revisite a árvore agora melhorada: é mais alta, mais cheirosa e com verdes infinitos; respire pela tinta o sabor de cada cor e sinta sua fotossíntese a cada inspiração. Exale, profundamente. Sorria que seus dedos estão sujos. E no espelho, no banheiro onde habita a pia da higiene, você vê agora lábios verdes, um nariz amarelo e bochechas de magenta. Uma gargalhada. Foi pintar uma árvore e acabou no picadeiro.”

“Mas criou, entende? Produziu algo a partir das próprias mãos; e da própria observação, da própria idéia, da alma, da sua, da própria, da própria, repito, da apropriação dos exclusivos movimentos sem nenhuma guia ou nenhum manual do passo a passo. Na pele de um palhaço recém nascido brotou um pintor a lá Picasso, quem sabe.
E foi só o seu primeiro, sentiu?”

‘Enquanto falava, tentei imaginar o que disse, a árvore e tal; e eu pintando, ou tentando rabiscar alguma coisa, colorir de alguma forma o que me fez fantasiar.’

“Sim. É esse um dos exercícios libertários; aqueles que induzem a criar. E a partir daí, é a mão na massa, ou no barro, na guitarra ou na gaita de fole, nos turcos fios que tecem, na máquina de escrever, na caneta de nanquim, na areia dos formatos arbitrários, na água que absorve, empapa e transforma, inventa.”

“E são dessas mãos compromissadas com idéias que a esteira para, que a produção em série oxida para dar a ela, a ferrugem, uma outra acepção, porosas partículas que se misturadas ao sabor do criador, lubrificam o impossível, e engrenam o motor da fantasia.”

“Fadas e monstros, dragões cuspindo fogo, homenzinhos antenados e mortais vespas de cristal; unicórnios de dois chifres e vacas submarinas na festa do peão de Atlântida, todos agora personagens de um novo olhar, inventivo, ilimitado, livre. Que vê além das estrelas, por trás do mundo, abaixo do oceano, dentro do fogo, através do gozo primigênio e dá vazão a novos rendimentos intelectuais.”

“Assim, renascemos novamente, que a morte não me pega mais. Ou pega, mas não cesso de existir pois a arte é legado, crio; e dessa forma atravesso gerações, dedilhando, pintando, escrevendo, esparramando e misturando receitas, cores e sabores, dançando, cantando, tamborilando novas composições; pendurado novos quadros, que não os de leilão.”

“A moldura se rompeu e a ave de lá fugiu.
Está naquela árvore que você mesmo desenhou.”

 

Ecp

#euriscritor

UTOPIA

Não queria que assim fosse, que sua avó fosse tão brava, ou a mãe tão enjoada, que a tia falasse tanto, o primo hesitante. O outro um avarento, que fosse só pão duro, amolecido.
Não queria que o mercado fosse tão caro, que a fruta tão madura, que o peixe tão fedido, e a banana, amarela. Nem que o suco engarrafado, o pão fatiado, ou a couve ensacada; e o coco, na garrafa.

Se frustrava com os carros barulhentos, as ruas estragadas, os semáforos quebrados e a calçada sem nível, parede descascada e o muro de tijolo baiano, furado.

Que tristeza o mendigo, o pedinte, o cadeirante deslocado, a vendedoras de balinhas, o flanelinha; não queria pagar aluguel de rua.
Não queria, oras, pagar aluguel.
Nunca desejou a falta de espaço, nem que o homem precisasse de outro lugar; ou o espaço, que aqui já tá lotado. Nunca quis a viagem interplanetária, outras luas, outros sóis. 

Nunca, nunca quis foguetes.
E nem armas, granadas ou espingardas, minas, terrestres ou putas… muito menos balas, muito menos as perdidas; mas também as de chupar, nunca quis as cáries, os implantes, canais ou dentaduras, que odeia o barulhinho do dentista. Assim como o chiclete, o cego que os masca no escuro, que se enxergasse no espelho e o cuspisse, não no chão; que também não da conta do nojo, do esgoto a céu aberto, da sujeira, do filho da puta que joga a bituca do cigarro pelo vidro do busão, Não!
Mil vezes não à fumaça, pois não suporta o escapamento, pra que servem afinal, Poluição direcionada…?

Nunca esteve afim de discussão, a propósito, e nem de debater o sexo dos anjos; política então, nunca quis burocracia, cargos, vantagem, malandragem-putaria, nunca quis a casa da mãe Joana, nem viver nem frequentar, visitar e tampouco por os pés.
Que nunca quis também sujá-los de barro, Mariana, Brumadinho, quanta pena, piedade, que mazela, nunca quis que tanta gente carregasse tanto fardo.
Estou farto.

Não queria nada disso, mas disso tudo tenho, o tempo todo, toda hora sem demora, utopicamente suponho viver.

Pico a minha mente com uma droga chamada sonho, que de dose em dose me dissolve em profecias exclusivas; inalcançáveis, perenes que se acabam depois do primeiro baque. Depois do primeiro tapa, do primeiro trago a fumaça se desfaz, utópica que é, e engana.
Engano a mim, a ele, e junto anestesia, que é isso a utopia.

eCp
#euriscritor

Magrela

Outro dia comeu uma tartaruga. 

No outro um avestruz. Anteontem Zebra, uma listra atrás da outra.
Ora Mico Leão, Ariranha e até Urubu, bastava andar, correr, rastejar ou até nadar, vide a fase dos pinguins. 

Ora em pé, deitado ou de ladinho, quem ditava a pose era o bichinho, ou bichão, como foi com o leão, o  Hipopótamo… ou a girafa; e neste caso, que trabalho pra trepar o pescoção. Que manobra, um balé, malabarismo-ninfo nas alturas, escada e até equipamento de segurança, um perigo de tesão.

Pois que resultou em amor, que o difícil sempre vence; o impossível da savana agora é gozo, um deleite animal e rastejo ao pés daquela elegância que pra mim não mais selvagem. Humana, Veridiana segurando taças, Champagne para celebrar natais, eu e ela e meu padrinho elefante, todos dançando no salão, ela e eu rodopiando e os outros só suspiro; eu também, afortunado libertino.

Há quem empaque com outros tipos, insetos, peixes… até gente, dita gostosa e tal, mas não! Nada se compara aos trejeitos da magrela. Seu olhar, sua mordidinha, seu jeitinho de dormir… como desperta, espreguiça, estica aquelas pernas e levanta com tesão…
Tive que dar meus pulos, é claro (alguns bem altos) que essa relação inter-espécie tem lá os seus percalços, seus segredos. Por exemplo, “beijo logo cedo só biquinho” ela me disse, “que “esse bafo de homem é de matar”.

Fungar no cangote pode, mas demora; ela adora e se treme toda. Digo, tremedeira, vibrações mesmo, um frisson, que pode ser um  grande problema pois nesses momentos sempre esqueço o capacete; e queda com tesão normalmente não combina.

Sobre as posições invertidas, também tivemos que conversar. Tentamos um 6.669 em pé, mas não rolou; mudamos para 69.009 deitado e aí fluiu; como um rego aberto no meio do deserto, um afluente que por pouco não me afoga de prazer, literalmente. 

Não que eu nunca tenha comido melado, mas a dança desse tipo de  acasalamento nutre uma performance jamais sequer imaginada. Tanto dela quanto minha. 

E assim, Veridiana se lambuzava com as minha acrobacias sexuais: “nunca tinha visto um humano com tamanho ímpeto, voraz,” dizia.

Me jantava com tamanho deleite que depois de um tempo passei a pensar que era eu também um mamífero africano de 4 metros. Passei a me alimentar de frutas no topo das árvores e a dormir de pé. Andava em bando e copulava ao sabor do desejo da minha fêmea sem dar bola à concorrência; eu era demasiado exótico para qualquer afrontamento.

Então, dia após dia, e na rotina do reino animal (que jamais concebeu métodos contraceptivos), concebemos; parimos meia dúzia de seres ainda indefinidos, mais altos que baixos, menos fortes que magros, e altos. Mestiços, em linguagem de homem; e estranhos.

Prontos para habitar dois mundos.

Desengonço

Após o banho da manhã, ele vestiu as calças, colocou as meias, os sapatos, se aprumou, e espelho. Sorriu confiante, correspondeu ao reflexo e foi tomar o café. Antes disso, uma passadinha no banheiro dos felinos para limpar as caixinhas de areia sempre lotadas ao fim de uma noite; quando nota que acabou de pisar no cocô do bichano, gatos muitas as vezes erram a pontaria.

Assim começa o dia promissor de Frederico, limpando a merda-do gato-no sapato. 

Mas Suco de Luz  é o nome do seu desjejum e ele vai bater as frutas e os legumes. Hoje o suco vai ficar da cor do vinho tinto, como também a sua camisa branca que ele acabara de vestir, pois o liquidificador já estava ligado quando ele colocou na tomada. Respira fundo e volta ao espelho, onde novamente responde ao reflexo, mas dessa vez com um sorrisinho meio de lado. Se troca novamente, mata o suco e vai. Já dentro do carro à caminho do seu universo paralelo, meio caminho andado, lembra que esqueceu o presente de Cintia em cima da mesa de jantar. Xinga uma quinhentas vezes, olha pelo espelho retrovisor, se enxerga de novo de canto, e de olhos abertos sorri grande. Não tem jeito né amigo, diz pra si mesmo, e pega o primeiro retorno. 

Já com a torta de morango na mão, ainda que com trinta minutos de atraso, é recebido com alegria pela jovem que o esperava também sorridente; mas ele, ao chegar e também ansioso, tropeça, e só para nela, com o doce apertado entre ambos. Um leve constrangimento, é claro, sempre namora com essas situações, mas logo vem um sorriso, pois ela também era assim. Trombaram um dia lá atrás, e começaram a se amar, num quarto todo bagunçado, tipo com poucos lugares para colocar o pé no chão. Um emaranhado de papéis, livros, pincéis, telas, em tudo se escrevia uma história bagunçada, a partir do nada, ou a partir da bagunça, talvez o propósito da história que se desenrola, ou tantas outras ainda por des-desengonçar.

O abraço do tropeço é vermelho e torpe. Eles se deixam cair ao chão e pintam mais uma vez sobre baldes de tinta que viram, histórias de um significado por-vir. O gozo é a melhor preguiça da manhã e assim morrem por instantes, no chão, largados e cor de letargia.

Ao despertar já é hora de pegar as crianças na escola, e vão, juntos-em-cima-da-hora. ‘Onde está minha camisa?’ ela pergunta enquanto ele procura a carteira. Ela desliza só de meias entre os pincéis que caíram e ele tenta fazer sentido de todo aquele quadro (Jackson Pollock) que acabaram de pintar.

Na fila da escola, de dentro do carro, ambos contemplam aquele mar de formigas para lá e para cá. Pais se trombam, se abraçam e encaixam na dança, cada um encontrando sua prole como que pelo cheiro. Ou depende da ótica, pois de dentro do carro eles veem uma Princesa e um Guerreiro, sujos da batalha e com o sorriso de um recreio bem caótico, se aproximarem. As portas são abertas e eles são sugados para dentro do castelo, onde arrefecem, descansando a babel.

Frederico deixa Cintia no atelier e volta dirigindo sozinho no banco da frente, seu olhar é só para trás, e ele bate o carro. Nada sério, mas o suficiente para despertar as crianças que já não estão mais no castelo, mas sim num Gol usado, gastão, endividado e precisando de conserto.

Não obstante chega a polícia! Um deleite para as crianças, aquele grito vermelho e amarelo piscando. Para o Pai, mais um emoji, aquele da carinha com os olhinhos virados para cima, lamentando o inevitável. Mas ele era assim, e bom também de conversa, e talvez mesmo por isso, pelo desengonço que o habitava. Assim leva o guarda na conversa e logo convence os filhos que aquilo tudo fora só um sonho; e que eles  podem voltar a dormir.

Chegando em casa, vira-vira-realidade, tem-se que fazer lição de casa; “cadê o material?”, ele pergunta aos filhos. “Tava no colo da mamãe”, diz a Princesa, e ele vira os olhos. E ela também entende o motivo, e ambos sorriem. “Será que serão como eu?” “Claro que não”, responde o Guerreiro com a certeza do jovem filho de quem era. E tropeça na bolinha de tênis que estava jogada ali pelo canto, e cai no chão no exato momento em que mamãe abre a porta e, vendo todos em harmonia, sorri.

ECp
#euricoescritor

A Maior Sorte do Mundo

Enquanto caía, refletia.

Logo ao nascer, meio que já via a morte, chegando e se mostrando cada vez mais de perto, e rapidamente. Era como o salto proposital de cima de um edifício, uma ponte ou avião sem paraquedas, mas sem propósito algum. Era simplesmente a vida. Um nascer já com destino traçado, daqueles óbvios, como o dos humanos, talvez um pouco menos vago e previsível. Afinal de contas, tudo ia acabar em água, escorrendo por ruas e calçadas, cabelos e ombros; cegando motoristas, acionando para-brisas, enlameando destinos, complicando festas ao ar livre; sempre molhando.

Quase nunca sozinha, mas existe só, desgarrada.

Quando em grandes grupos, enxurrada, que pode ser um problema. Ou não, dependendo do ponto de vista. Para alguns trabalhadores, no verão, conforme a hora do dia e dos graus que marcam lá fora, pode ser um alívio, especialmente para os engravatados, que gravitam por coberturas sem fim, secas e ar-condicionadas, pois quando saem para a rua e sentem a humidade, celebram como a um gol e sorriem.

Para outras pessoas, as que trabalham na rua por exemplo, um tormento. Pipoqueiros, engenheiros de obra, ambulantes, flanelinhas, todos fazem bico quando chove. Correm para coberturas e lá se protegem – como se machucasse, maldizendo os céus, o pai de todas, suplicando uma pausa; que vem, é verão.

No inverno, a prece é contrária: todos a desejam pois os os lábios pedem, a pele também, da canela então, só uma oração com muita fé. O corpo todo pede, o nariz implora e a boca, sem saliva para reclamar, cala. De noite, no arranhado da secura, vem em sonhos encharcados de esperança, mas a manhã é árida e o sonho se dilui sem água.

A reflexão deve ser rápida, que a queda é veloz e não há tempo; nada, na verdade a perder. O controle de fato não existe, estamos todos ao sabor do vento; e ela samba para lá e pra cá perfazendo uma bonita dança de respingos realçada pelas luzes dos postes da rua que dão um brilho digno de nota ao quarteirão que se avista lá de cima. O suposto fim está próximo, questão de segundos, mas um inesperado golpe de vento a empurra numa diagonal inesperada mesclando-a com outras, engordando-a e a jogando, pesada, num jardim repleto de flores.

A pétala da rosa verga, mas a gota, ciente do seu destino, sorri pois sabe que teve a maior sorte do mundo.

ECp
@euricoescritor

Perfume de Chuva

“Eu acho que devia existir um perfume de chuva. Um perfume daqueles, entorpecentes. Daqueles que te fazem parar, olhar ao redor e fechar os olhos. Um rodopio inebriante, você quase cai no chão, mas continua a procurar pois já virou vício, basta uma única vez, já diziam os adictos.

Sou agora um, portanto, quero esse aroma-em-mim. Quero sentir o seu cheiro me entrar, gotas misturadas com suores, eu plena, cheirosa-de-chuva; que vem antes mesmo da água: o perfume que antecipa a chegada do príncipe, da princesa encantada que antes de pisar no tapete, inspira; cheiro de infinitos pingos, ex-nuvens que agora cansados pesam, escurecem e choram; e como é bom o cheiro-do-choro, perfumes de bebê concentrados em branco boiando em azuis. 

Realmente eu acho que tinha que ter um perfume de chuva. De verão, de pancada, aos montes para lavar a alma. Vou pegar um balde, sim. Vou colher as sementes-que-caem, órfãs ou não (há quem diga que são filhas doces do mar, rebeldes sem sal), e torná-las moças. As mesmas que descem alterando o olhar. Contrastam com o rei e nos dão arcos-íris.

No fim do pote, ouro, pois a chuva que cai, brilha. O asfalto vira champanhe quando tocado por elas num dia de sol, e somos brindados quando a sorte faz chover justo quando estamos por lá, na estrada, no meio de uma tarde trivial.

Vem a fumaça, de baixo para cima como um fogo sem cor; como se anjos de piche se descolassem neblina acima, orientados pelo rastro deixado pelas águas que caem. Rastro, o perfume de chuva vai deixar um longuíssimo rastro, daqueles celestes e essências de Netuno.

Um pouco do trovão e tempestade, uma pitada de dilúvio. Mais um pouco de garoa, chuvisco e uma mão cheia de orvalho e teremos a base perfeita para um perfume em dimensões que vão do sutil ao arrebatamento por nocaute. Até o ‘caldo’ das ondas namora com a chuva. E esse namoro exala espuma.

Quanto ao tamborilar na folhas, verdes essenciais. Quanto à infiltração na terra, textura; do seco ao molhado em questão de segundos e um sorriso-malícia que vem aos poucos, criando suspiros. E a pele já não é a mesma; os poros estão abertos e trocam; e roçam. O cheiro e o suor que deles escapa é o vapor que amanhã vai descer direto ao meu frasco.”

Por que eu escrevo?

Ela queria escrever. Seu pai não queria.
Optou por si.
Taí, já de cara, o primeiro motivo: ser-se. Manifestar-se. Vomitar a vontade e saborear a cor que se produz.

Quero então, e escrevo primeiramente sobre o desejo, que é esse o verdadeiro motor da escrita: o tesão que faz a gente sair do banheiro direto para o cadeira, ainda pelada, abrir a tampa do computador com pressa e logo despejar a primeira frase: “Ele queria escrever; seu pai não queria.” Foda-se, que a idéia desse começo, a propósito, saiu mesmo de lá, enquanto a água caía sobre meus ombros e o devaneio flutuava em neblinas; em gotas que escorriam pelo vidro do box fazendo loucos caminhos orgânicos, uma trilha para especulações abstratas, mente de artista; pois o escritor é, desse tipo. Gente diferente do pai da gente: advogada, médico, dentista, engenheira e ponto final. É desse tipo de gente que o artista foge, a propósito; tem que fugir.

A regra, o quadrado, o exato; o cálculo, o esquadro, aquela coisa que fazia círculos perfeitos, bolhas que não estouram, eu sou o lápis. Sim, artistas são lápis com olhos coloridos; rabiscamos na neve os mais absurdos arcos-íris e encontramos ouro. Brilha diferente, esse nosso. Então quando esse lápis fura a bolha, de dentro para fora, é um arco iris dourado que cintila nos poros.

É isso o que procuramos. É por isso que ela escrevia, a filha: encontrar diamantes.
‘Mas que diamantes são esses?’ perguntava o pai.
‘Tem que procurar fundo, velho’, respondia a garota e imediatamente e se metia-cavucando no meio das páginas, virando uma após a outra, ora com vidrada lentindão, ora voraz como quem esmiuça um palheiro na busca da agulha, e acha. E acha muitas, pois o artista encontra. Encontra no meio da rua palavras para expressar o cosmo; no metrô o ritmo para expressar a velocidade do maratonista, no balé a ironia para expressar o desconforto da amante apaixonada, e assim por muitos quartos, daqueles tipo Usher.

A gente enxerga torto, desviado, distorcido, adulterado. Pela tinta, pela letra, pelo som ou pelo rosto, o nariz do palhaço te escancara um sorrisão; você tava triste lembra?
Transformação, é por isso que eu escrevo. Transformo rostos. Crio narizes, arranco dentes e faço chorar. Sou um mutante azul e espinhoso; noutro planeta passo a voar e em seguida limpo o chão com pés de cinderella.

A imagem vem e deixo fluir, sabe.
Mas o pai não fluía. A linguagem de um era além do alcance do outro; e assim nascia o conflito de mais uma história, um conto cuja professora lá daquelas distantes janelas nos instigara a escrever.

Por que eu escrevo? me pergunto novamente?
Por tudo isso, talvez por muito mais; ou até menos, dependendo da hora, do momento, da liberdade de fazer, do parir sem perceber.
Sim, parir sem perceber.
É isso que faço quando sinto, e não paro.

As Tranças e a Lei

Ela queria, ela podia.

Se tinha tinta, pintava. Depois emoldurava.
Pregava na parede da cozinha, torto.
Se papel, escrevia; se grafite, apagava; se caneta, eternidade.

Se tinha dinheiro no bolso, viajava, e lá, gastava, comia, restaurante, massa; vermelha.
Se taça, vinho. Copo, cerveja. Copinho, tequila em shots que também gostava.

E se homem tinha, sexo. E assim, gozo.

Se sim, ótimo; se não, de modo algum descanso.; pelo contrário: ‘finaliza, porra!’

E de vontade em vontade, queria, podia e fazia. Acontecia.
Foi assim por trinta anos, inclusive na faculdade. Fez o que quis, contrariando pais, amigos, irmãos e conselheiros de rua, amigos de bar, coaches de toda espécie, orientadores vocacionais, lembra?

Fez torto o Direito, pois lá a vontade não era mais a própria. O papo era coletivo, meu direito pra cá, o seu pra lá, o nosso, o vosso, senhor nas alturas o excelentíssimo.
E assim seu nariz foi aos poucos envergando. O ar que era só seu começou a ser pouco e ela deixou de querer-poder-fazer: o ar tinha que ser compartilhado, respeitado, inalado, expirou-se;

e fedeu.

Queria, petição.

Podia, não!

Fazia só o que lhe mandavam pois era esse o script do contexto: ‘aperte o botão’, ‘comece da esquerda pra direita’, ‘use terninho azul escuro’…

“Mas eu quero é fazer tranças.
Tranças coloridas, grandes, grossas e finas, de diferentes tamanhos, modelo afro-transgressão, até a bunda, talvez até passando dela” ela dizia.
“A cabeça é minha, o cabelo é meu, trança-lo-ei.”

Talvez fosse a forma dela preservar o que com o tempo havia perdido, não se sabe ao certo. As vísceras eventualmente vem à tona; e as dela surgem como tranças, extensão do seu poder-de-ser, livre arbítrio, que ironia termo tão usado no presídio.

De qualquer maneira, era no emaranhado do direito que ela queria desamarrar os sapatos, o laço do sutiã, queimar a calcinha, vermelha enfiadinha, e jogar na cara do excelentíssimo chefe, seu cheiro.

E quando ele, assustado, viesse com sua ladainha, ‘que porra é essa’?, jogá-lo no chão e estuprá-lo com vontade, com palavras, palavrões a abrir-lhe as entranhas com outras verdades, arrancando-lhe a máscara da normalidade e dos padrões excruciantes que nos fazem vomitar e despindo-o totalmente da moral reinante, paralisia cerebral disfarçada de gravata, bravatas infernais.

E assim o faria, em tempo.
A cabeleireira já estava avisada, tranças a caminho.
E no embaraço das cores por vir estava um camuflado pente de balas que dizia: ‘o dia de chapinha está preste a acabar.’

Discurso e Postura

Ele falava e os outros escutavam. Bastava abrir a boca e lá estavam dezenas, se não centenas, talvez milhares a postos para receber o seu discurso essencial. Os bichos se calavam: a cigarra parava de cantar, as formigas de trabalhar, o leão de ser caçador, sentava. Apaixonadas zebras vestiam de volta suas listras, os sapos se descolavam e as araras de eternas mãos enlaçadas se soltavam brevemente para contemplar aquele som ao longe, um canto.

O ambiente se aquietava para escutar; as folhas paravam de balançar como se o vento tivesse deixado de existir, o rio agora estava calmo e os peixes só nadavam na corrente, nunca contra, mas fluindo; nas margens descansavam os já imóveis jacarés, crocodilos e afins do meio sol, que este também resolvera se acomodar por entre leves e vaporosas, ralas e espaçadas, lânguidas nuvens que se desfaziam à menor moção da preguiçosa brisa.

A natureza estava estática assim como as pessoas nela residentes; todos ao dispor do movimento corporal e labial daquele que tinha o feitiço em mãos: a comunicação. Sim, a magia do formato da expressão, aliada ao conteúdo relevante do momento. & Plim, e todos estão lá boquiabertos na espera da enxurrada cativante, das palavras, das pausas engenhosas, do volume, do teatro das caras e caretas e dos gestos calculados que culminam em ovação.

Por fim o herói respira, satisfeito. E ao entoar o seu silêncio final, baixando a cabeça em reconhecimento, devolve os movimentos ao mundo que em hiato o esperava terminar: as folhas balançam, as nuvens voam à luz da brisa desperta e as zebras definitivamente se despem das listras; os jacarés mexem um músculo e a borboleta voa.


E Axl, o idoso protagonista de O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishguro, elucubra sobre uma ‘solene’ fala do cavaleiro salvador, no ‘grifo’ acima citado. Um trecho que nos provoca sobre a valor da prosa exitosa, aquela que nos congela e que tira do lugar, nos aquieta, nos altera a memória, faz pensar. Aquela que transforma a Ficção em REALidade.

A Escolha do Talento

E por que acha que o violino é o instrumento certo para você?


A resposta a esta pergunta, no livro A PARTITURA DO ADEUS, de Pascal Mercier, é “Eu sinto isso”, o que retrata um pouco a personalidade da enigmática e absolutamente inesquecível Léa, cuja trágica jornada é relatada com estonteante maestria pelo autor.

O tema da narrativa é diverso, indo desde o processo de luto até o incompreensível e talvez exclusivo amor de um pai por uma filha. O Violino aparece como elemento central, e dele e de seu contexto partem reflexões sobre o apego, as perdas, habilidades, talento e virtudes. É aí que surge a ‘mestra/professora’ que conduzirá a ainda pequena Léa à fama; ao estrelato, incontrolável, perigoso, devastador.

E tudo começa com a identificação do tal ‘talento’ tão necessário ao sucesso, tão desejável, sedutor, implacável. 


Assim como qualquer ofício, tocar violino requer prática, muita prática, horas e horas de incansável repetição até o desabrochar da perfeição: talento criado, crescido, não nato. Como nosso querido Mario Sérgio Cortella costuma dizer, “não nascemos prontos e vamos nos desfazendo; nascemos não prontos, e vamos nos construindo.”

E o mesmo acontece com as habilidades que ‘escolhemos’ desenvolver, ou como no caso da nossa querida personagem, ‘sentimos’ que devemos desenvolver. Seja qual for a forma para se chegar à perfeição, é preciso cuidado pois, além de libertar, o precioso também escraviza; cria dependência, intoxica e pode matar.

E a Ficção aqui nos ensina a ponderar; a entender que a Realidade pode ser bela, ainda que mediana.

Profundidade de Pensar

Assim ele mergulhava de cabeça.
Não tinha essa de colocar o pezinho, um dedo após o outro, ai que frio acho que não. Não tinha essa, vou com tudo e até o fundo.
Assim ele fazia, sempre o fez, faria todo o sempre.

Entrava dentro da espessura, com ou sem equipamento, cavava. Com as unhas arrancava a primeira pele; logo os dedos como garras arrancavam mais insumos, e com mãos e braços enterrados na areia faz jorrar um sal molhado que ninguém mais vê; são só ondas aos surfistas, paisagem ao turista, cenário ao pintor emoldurado.

Para ele não; ao entrar mais dentro na espessura, era tubo: Pipeline do infinito, conexões tigre e um avanço de mil léguas subaquáticas.

Era telescópio enxergando para dentro, que o saber interior leva a buscas colossais. Para fora é exploração, é trator escavadeira, cientista, pescador. Com o pé no brejo ou o olhar no microscópio, microcosmo vira macro e a minhoca é agora a nutrição do próximo milênio. Um virou bilhão e até o cisco é reciclável, tava lá no meio da espessura.


Entrei, rachei a madeira ao longo. Escancarei o livro e lambi com entusiasmo cada uma das suas milhares páginas, doces como mel, migalhas com manteiga açucarada que são letras ao padeiro, tijolos da construção. Argamassa colando linhas, parágrafos adentro e viro uma densa história narrada; e o herói segue adiante comendo letras, engolindo vírgulas, ruminando exclamações… não há pontos finais, só petróleo cru jorrando de poços quiçá um dia artesanais, que depende da Jornada.


É longa, não se prega o contrário, e ele vai. Na pele do Sr. Ulme, retratado no belíssimo romance Flores, de Afonso Cruz, mesmo desmemoriado ele segue pregando a máxima: “Entremos mais dentro na espessura” e instiga, a nós a refletir. Da tabula rasa já excedemos, penso, mas para existir no mundo de hoje é preciso ir além da densidade.

Talento & Genialidade

Schopenhauer disse isso, não qualquer um.

E a citação está na fabulosa biografia de Leonardo Da Vinci escrita por Walter Isaacson; não por acaso, dado que ele via além do alcance; sobretudo além do alcance dos demais, nós, humanos, mortais.

Pois ele então não morreu?
Sim claro, ser que era.

E errou também, a boa mira lhe faltou. Muitas vezes sem ao menos saber do ponto, lançava a seta. Imaginava que o alvo. Imaginava que lá, tenho pontaria. E tinha. Entre erros e acertos, só colhe o que planta, quem não investe, prejuízo de isenção.

Mas disso não sofria. De cadernos em cadernos, folhas mais desenhos, anotações relatos, questões, elucubra, sugere, da dica, da dica outra, emenda, no cantinho do papel, espremida Monalisa… transpira, imagina, até disseca, ação.
Da perspectiva à ótica, dos cabelos cacheados à quadratura do círculo, o Homem Vitruviano. 
Da água em movimentos, redemoinhos louros. Da observação extrema, dos movimentos dos olhos ao profundo significado do gesto, Leonardo fazia do retrato narrativa, do estático explosão, e procrastina. “Criação tem o seu tempo”, ele dizia. Como ver sem pacatez?

Contemplar é vislumbrar; apreciar o que ao outro trivial. E assim, na mosca. 
No sfumato do futuro tinha a mira. Ninguém via, alguém tentava?

Ao estudar obsessivamente, por-saberes alistados e detalhes flor-da-pele, uma mão canhota produziu no papel o inusitado, inesperado, nunca visto ou almejado.
Sem o alvo disparar? Assim ele o fazia. Tinha a flecha, e a pena, o pincel. Pintava o gol e chutava com a força de cem anos, duzentos adiante, uma peça de teatro tantas vezes ensaiada, quem sabe um dia pronta.

A Performance de Leonardo chegou, chega todo dia, e mostra que o trabalho exitoso independe da REALidade, pois é também na Ficção e na fantasia que se cria o impensável.

Propósito e Alma

Difícil achar melhor exemplo de propósito do que a determinação de quem profere frases como a supra mencionada.
Trata-se de um russo, compositor, ameaçado pelo pervertido comando de Joseph Stalin no período da 2a. Guerra Mundial, um pouco antes, durante, pouco depois.


Mas nada detém o músico, seu movimento é visceral, vem da alma, vem dos ossos, da falange-falangeta-falanginha e uma harmonia de encaixes. Eles tem cintura, dançam habilmente e discorrem sinfonias; histórias embaladas por dedos que imploram por papel, tinta que nunca acabe que é alma jorrando em preto. E no branco, entrelinhas e em plena euforia criativa viram símbolos, notas de emoção, coração e lágrimas tamborilando.

Do, ré MInhas mãos são elixir da gestação; fa, sol LÁ se vão horas, dias, meses transpirados, calos; si, DÓi. Machuca, fere, exaure o processo da intenção, que dele brota o filho, o vinho do ‘luar’, Guernica e as 4 Estações; a 5a. de Beethoven, Monalisa e a Capela Cistina a rogar olhares ao céu, abençoados.

Dedos e Deidades então se fundem na batuta do maestro e valsam instrumentos que conversam entre si; trocam tons, toques e namoram violinos, trompetes que se beijam e flautas que se adulam, adocicadas.
É de lamber os dedos. É de brilhar os beiços; de limpar com a língua o desejo essencial que escorre pelos braços. É tesão que se produz com mãos tão desejosas que se recusam em se entregar: “que me cortem, arrumamos aliados”.

E assim nosso protagonista, o dono das referidas mãos em apuros, desafia Stalin e seu terror no formidável “O Ruído Branco”, de Julian Barnes, uma semi-Ficção que retrata, além da cruel insanidade daqueles tempos, a força do propósito e o puro amor à arte como elementos essenciais à voz, que jamais será calada, nem que para isso eu tenha que “continuar a escrever música com uma pena na boca,” minha eterna imanente.

Imagem e Ação

A reflexão aqui proposta diz respeito à FAMA e a REPUTAÇÃO que moldamos ao longo da vida, e ao cuidado que temos que ter com o que construímos ao longo do tempo; o custo de uma reputação mal edificada pode ser altíssimo, podendo, inclusive arruinar promissores futuros.

No caso do grifo citado, um sólido empreendimento pode estar à beira do fracasso, dada a óbvia relação entre o bem vendido e o infortúnio do proprietário que se torna ‘corno’. Ainda que a traição sofrida não seja de sua exclusiva responsabilidade, o ‘residual’ do fato pode ser, e comprometer significativamente uma imagem anteriormente ilibada.

De qualquer maneira, é preciso tomar muito cuidado com a imagem, pois ela denuncia. E ao sermos denunciados, carregaremos o fardo.

Por isso, a confeção deve ser bem trabalhada; os fios bem tecidos e a estrutura sólida para que a arquitetura e o design brotem, belos e duradouros. Só assim o chapéu vai conseguir cumprir seu verdadeira ofício: proteger, decorar e atribuir valores a cabeças comprometidas com o futuro, âmago de uma possível notoriedade.

A SOMBRA DO VENTO é um livro poderoso e cheio de ensinamentos, onde os personagens, cada um a seu estilo, dão a sua mensagem. E cabe a nós captá-las. É a Ficção na sua mais pura forma instruindo realidade.

Talento & Detestar

Assim, ano a ano, a cada dia odiava mais. Odiava a comida, odiava o marido, sua cidade, seu trabalho. Detestava o sofá, o buraco do sofá, o gata que o rasgava, insuportáveis unhas de Fifi.


Se aborrecia com a colega do escritório que insistia em tirar os sapatos durante o expediente, meias furadas, unhas sujas e azedo de chulé.

Detestava o cabelo na sopa. E quando o via, escândalo: xingava o garçom, pedia pelo gerente, exigia o proprietário e uma indenização. E nunca mais eu volto aqui nessa pocilga.

Execrava desconfortos.


Enlouquecia com a hora perdida; a sua, dos outros, de quem quer que fosse, que o tempo hoje, ouro por minuto e não desperdiço nem centavo.
 Odiava perdas, e quando era rejeitada então, maldição que a morte lhe feria; uma fera que nascia e agora um morder de correntes adiante, dentes à mostra e cara de fera cuspindo lava, lenta e intensamente.

Quando o macarrão passava do ponto, ficou mole xingamento e joga fora.


Quando errava o caminho, mesmo tendo o mapa, forca ao arquiteto, engenheiro, construtor. Bando de idiotas, me perdi e a culpa é sua. Sempre sua, nunca dela. 

Que também nunca esquecia. Se perdia além da hora, coisa, era o outro, sempre imprestáveis empregados, ajudantes, descuidados assessores que me deixam olvidar; culpados que os detesto.


E também os que me vencem, na corrida, na disputa, tabuleiro ou vídeo game, abomino a mil forças a derrota até no coito, que pra mim é só por cima. No oral renego o seis, cachorrinho sou o dono, mamãe eu sou papai.
E que não broxe por favor; macarrão que perde o ponto é papinha de anciã, e malquero envelhecer.


E assim, com o tempo, aprendeu a detestar; não que fosse assim feliz, pois sabia que a ruindade lhe feria o semblante. Mas assim o era atualmente, carrancuda dos pés à cabeça, rabugenta de alma, a cada aniversário, de presente um novo asco.


Mas agora chega, decidiu. Entendeu que o tempo a corroera e optou por mais sorrir, admirar ao invés de reclamar e re-habituar, co-habitar com mais leveza, consigo positividades. 


E assim se deu o renascer: dela, do marido, da colega da meia furada, do sofá que virou arte, do macarrão agora percebido sempre ao ponto. O tempo agora é relativo, as pessoas são legais e aceito até perder; fico até por baixo.

A REALidade é a forma da Reação. E detestar jamais talento. Renego o grifo então, e volto a ser criança, que o tempo jamais me estragará.

Com o Peixe, a Gestão do Tempo

Não seriam então os Peixes o maior e melhor exemplo de uma boa Gestão do Tempo?

Eles nadam, flutuam, navegam submersos e respiram a seu tempo. Comem, vão adiante, ágeis. Desejam, procriam a seu tempo, sem perder. E quando a hora é grave, se escondem, ou se juntam, a seu tempo. Tudo no momento.


Com a corrente fluem, sem pressa deixam-se levar, poupam energia se precisam, sábios pra que luxo?


Mas quando é vida ou morte, ou a questão perpetuar, partem rio acima, sobem correntezas, enfrentam cachoeiras e pronto: cem novos peixinhos, já sábios mamãe nos ensinou a natureza é sábia, não adianta acelerar, no fundo já sabemos!


Tempo tende ir, tem que vir; parar ou navegar, emergir, respirar, bolhas temporais. Nós, no mundo dentro delas, ‘embolhados’, da bolha do tempo não ousamos escapar; bastaria um alfinete, de dentro para fora, estoura! Mas não, alfinetamos para dentro, sopro-de-seringa ampola-temporal, criação de tempo, mas tempo não se cria (!!!) seringa auto-engano.


A bolha é uma só, o peixe sabe disso, e fluxo; escorre pelas mãos, as nossas, pelas do anfíbio não, que sabe estar envolto pelo timing das marés e respeita o fluido.

Nada com a água e nela nada. 
E assim é também na terra do Sudeste Asiático, Camboja (centro da narrativa de Miss Camboja, divertido conto de Geoff Dyer), onde o principal e mais tradicional meio de transporte de lá, o Cyclos, não necessariamente leva os turistas a algum lugar, mas definitivamente percorre… eflui no solo, como “os peixes em sua imperturbável falta de urgência”.

Ou calma, como queiram; uma REALidade subaquática… silenciosa… que nos apresenta uma quase-Ficção mais morosa, suposta bem mais lenta, onde a pressa por decerto não existe.

Relativizando o Crescimento

Ah, que saudade dos meus quatro anos, bons tempos, tempo que sabia, tudo. Até ensinava, juro, dava conselhos, apontava defeitos, via com uma clareza, olhos límpidos, descontaminados, cristais de transparência tudo a enxergar. Era só me consultar e lá estava a resposta, um Deus de cinco anos bem vividos, xixi na cama, cocô na calça mas tudo bem, fez parte ajudou-me a ser quem sou. Hoje formado pela extensa vida, tenho pleno conhecimento de tudo e todos, sou criança-adulto, sessenta meses.
Pai e mãe ficaram para trás. Tios e Tias, o que dizer? Avô, Avó… paciência, tenho também tenho muita… ensino. Ensino a mexer no celular, computador, ligo a TV, desligo, controle remoto, eu sou o controle, mando e desmando, quero, deixo de querer, deleto; eu sei o que é bom para mim, deleite!
É preciso avançar, os anos passam muito rápido e já não tenho muito tempo, amanhã eu faço seis, rugas… 
Então avante, querem me seguir? Pois bem, ‘To infinity and beyond’, não sou Story, muito menos Toy, que a vida é séria, quiçá o meu país, vou me candidatar a presidente.

Uma fábula, não?! Talvez, talvez não, a cabeça da criança a gente nunca sabe, acha conhecer, supõe. Mas aos seis anos a certeza é soberana, sei que sei, você não, ou até saiba, mas seu tempo já passou, o meu é que fica.
Meus dedos são mais ágeis, sou mais rápido e até ajo por impulso, posso. Erro rápido é o mantra do contemporâneo, e erro… e logo já vão sete, eternos-sete-aninhos da mais pura ‘REALidade’… … que no QUARTO, assombroso livro de Emma Donoghue, é a vida de Jack, um menino enclausurado que, sem opção, tem que saber. A vida é lá, 9 metros quadrados de um mundo onde a Ficção salva; vira verdade com a ajuda de uma super mãe que questiona a absoluta certeza de um final provável, e muda o rumo da história.

Comunicação não verbal e a questão do Olhar

Olhe, você está sendo visto! Olhe para mim, que estou olhando para você. Retorno o teu olhar, a ti importo então; e você a mim significa.

Trocando olhares nos assumimos um ao outro e estabelecemos uma conversa-olho; se não sabem, o olho fala, e deveras, muitas vezes mais do que palavras, outras bastam por si só e descartam seu contínuo, o outrora necessário algo a mais, e congelam você num piscar de olhos. Quando vê, já ouviu; fecha os olhos, e não mais. Um silêncio escuro toma conta de você, cego de cera.

Volta a abrir, e ouve. É na empatia dos olhares que a conversa vem adentro, escuta ativa e escuto a a ti; reconheço no outro um outro eu, semelhantes somos aptos de nós.
E decibéis. Ou débeis; enfermas línguas, loucas bocas a falar em disparada, tímpanos exaustos, por favor, me deem um tempo: ‘basta olhar que eu já sei’. ‘Minha mãe olhava eu já sabia’, olho no olho, e uma imagem vale mais que mil palavras, é a janela da alma.

E num recém descoberto PLANETA, o humano de lá grunge, bicho que é. O humano de cá fala, incompreendido; os sons não se conversam e os gestos assumem a forma das possibilidades de diálogo, infrutíferos. “Nenhum lampejo de compreensão iluminou a sua Íris”, pondera Ulysse Merou, o principal personagem de O PLANETA DOS MACACOS, sobre as diversas tentativas de troca com a bela selvagem do distante habitat.

“Por fim olhei para seu olhos…” Mas não adianta: “… seu olhar não simpatizava com o meu.” Era a REALidade de uma Ficção distópica hoje bem concreta: a dificuldade de entender e ser entendido, expressão; e nas páginas desse fabuloso romance atemporal aprendemos que a comunicação, seja ela oral, gestual, visual, pode ser questão de vida ou morte.
Não é mera macaquice.

Criatividade e Inovação

E você, como interage com os outros? Sai, vai falando, se joga conta tudo? Fala pelos cotovelos, mostrando vitórias, contanto conquistas? Sua voz é aquela que sai pelo ladrão? Fala de televisão, do outros, esgoto e de si um montão? Não tem imaginação, é preciso a vida alheia, o assunto não sai, falta termo, e agora, sobre o que vou falar? Tem uma festa hoje, outra amanhã; a propósito, vai chover, você viu? Nem pensar ir ao cabelereiro!

E assim fluem as conversas típicas de gente comum. Mas não a do nosso querido Sherlock Holmes. Somos uma outra espécie. Enquanto uns falam, aquietamos, falar para que? Pensamos, nos aventuramos em nós mesmos. A mente, acima de tudo, pensa, se deixar, viagem intergaláctica, de repente ao centro da terra, ao fundo do mar, 20 mil léguas submarinas.

A imaginação rola solta no pensamento do quieto estranhamento; ele pensa diferente, enxerga de outras cores, até inexistentes, flutua fincado no chão, rasteja vira cobra cor de rosa dançando no salão. Se levanta, se transforma, já é um novo. Quando lhe dão corda, comunicação, se não, boca-cola com durex, auto-sugestão, melhor eu comigo, já tô notra dimensão, sacô rapá. Agora inclusive já sou outro; da perífa, tá ligado?

Tô. Calado falo. A propósito, Falo que não cala; taí mais uma abstração. Engraçado esse silêncio que não cala no papel, ao contrário, berra, cospe, jorra. Teclas que falam pelos dedos de uma Ficção inventada. Uma Ficção na REALidade que sugere não o silêncio, mas uma comunicação outra, anormal, zunzunzum num outro tom.

Comunicação Cega (?)

Em tempos de luz e eletricidade perene, o que faria você sem luz, por 4 horas diárias, durante 7 dias? Aguentaria, enlouqueceria? Você verdadeiramente ‘dá conta’, como muitos falam?
Abaixo, um texto inspirado no conto ao qual o grifo acima se refere.



No escuro, sem outro estímulo para atrapalhar, TOCAMOS; e ao tocar, sentimos, a mão, os dedos, cada dobra, falangeta, falanginha, o envelhecer do tecido-rugas. Ou a juventude da pele ainda suave. Movimentos, pressão e cadência no tato, talvez um aperto de mão. No escuro cada toque toca mais; o carinho no breu arrepia, unhas enlouquecem sem cor.



No escuro, sem outro estímulo para atrapalhar, CHEIRAMOS; e como cheira bem o aroma na sombra: a fruta descascada, o legume, a folha picada. Tudo junto misturado, na panela que ferve, tampa aberta e uma nuvem invisível de essências… As ervas, nariz ampliado, a seiva da mata, o capim, tão belo ao sol, melhor ainda obscuro, cheiro de mata molhada numa noite sem estrelas.



No escuro, sem outro estímulo para atrapalhar, SABOREAMOS; o lábio sente suave a primeira textura, salivamos ao toque da comida que mecanicamente se entrega. Conhecemo-la pelo toque da boca, lábio agora molhado, melado. Mordemos, ossos que dilaceram, fibras se rompem e no fundo da língua uma multiplicação de sabores, ainda mais plenos, agora um cego e ampliado deleite.



No escuro, sem outro estimulo para atrapalhar, também VEMOS, pois olhar olhando, não o fazemos, na cara, não damos conta; olhar nos olhos do outro enquanto falamos, no claro, ofusca, e optamos, portanto, pelo escuro; e assim enxergamos, pupilas dilatadas de coragem.



E no escuro, sem outro estímulo para atrapalhar, OUVIMOS, por também falarmos. Sem nada pra fazer, é o som estimulado pelas trevas que grita. Rompe-se o silêncio e vem a comunicação, a dois; três, quatro, cinco sensores convergidos pela ausência do branco. 
A Ficção do dia sem eletricidade, então, mostra que a REALidade sem iluminação pode ser ainda mais gratificante, aguçando sentidos e ajudando a melhorar relacionamentos

Entusiasmo

E você, consegue inventar entusiasmo?

A julgar pelo personagem de Machado de Assis, isso seria impossível, mas a observar alguns palestrantes motivacionais modernos, pode ser que sim; que alguns conseguem, de fato, simular entusiasmo, entusiasmando outros. De qualquer maneira, este ‘estado de espírito’ tende a ser autêntico, de difícil enganação, visto ser também uma forma de paixão; a demonstração de um grande interesse, um intenso prazer ou uma dedicação ardente, ato observável em Quintanilha, que não consegue fingir seus sentimentos junto a Camila, provável, talvez possível amor.

Nessa esfera, a do relacionamento romântico, o entusiasmo tem um papel importante, pois espontaneamente se declara e diz: ‘estou interessado(a)”. É no olhar que ele transparece, indo para além do artifício, não engana nem a si próprio, nem querendo assim fazê-lo, como um fogo que quisesse não queimar. Na esfera do trabalho, o entusiasmo adquire mais complexas formas, moldando-se ao ambiente e às necessidades (eba, dinheiro!!!), motivando-se a si próprio, fingindo-se espontâneo.

E aí reside o perigo, pois a motivação cessa, não se sustenta no auto-engano, engana-se ao crer que entusiasma. Só o dinheiro de propósito legítimo (Ikigai) vira entusiasmo de fato, observável e reconhecido. E a dedicação que se segue é então genuína, cativante e perene; ânima-fogo, olhar penetrante e uma prática que parece ser entusiasmo nativo.

A Ficção pode até enganar, mas é na Realidade das entrelinhas que surge o texto original, a víscera escondida que mostra o verdadeiro ser, brilhoso e contagiante.

Controle e Obediência

Pensar ou não pensar, eis a questão. 
Nesta belíssima e inquietante distopia de Ray Bradbury, as pessoas são praticamente proibidas de pensar, sob o custo de serem queimadas vivas; assim como os livros que por ventura ainda teimem em existir.


Ainda que escrito em 1981, a reflexão, hoje ainda permitida, mostra-se muito atual, visto a persistente tendência dos ‘formatos-padronizados-homogeneizantes’ que, via de regra, nos cegam, ensurdecem e paralizam.


O grifo escolhido refere-se a um cachorro mecânico, que teoricamente obedece somente ao que lhe é ‘ensinado’. Mas será que nós, humanos, não estamos entrando na mesma ‘onda’ do ‘sabujo’? A cada dia que passa, nos vemos inseridos num esquema de somente, e pronta-resposta; sem questionamentos, sem reflexões; só ação modulada e repetições de modelos testados.


Ler então, nem pensar! Questionar, jamais.

Obedecer, sim.

Essa é a regra do momento: agir de acordo com o esperado e, literalmente, sobreviver, pessoal, social ou profissionalmente. Desvie e será desligado, assim está escrito nas linhas veladas do manual do padrão do comportamento.
PERIGO. O que um dia foi distopia hoje é realidade e o futuro não é nada promissor; especialmente em sociedades onde o estudo foi castrado de valor e o que vale é o ‘esqueminha’ big brother perpetuado por imensas e desejáveis telas, circo constante ao alcance de todos, tristeza mascarada de alegria.


Que a Ficção aqui mostrada nos ilumine mais páginas, ainda a serem lidas. Que a tela brilhe menos e que o pensar prevaleça para uma nova REALidade.
Ainda dá tempo.

Imagem e Esteriótipos

Será que a imagem que temos de nós mesmos é a mesma que os outros tem de nós? 
Esse é somente um, dentre muitos outros ‘problemas que nosso querido Índio Spokane enfrenta quando decide ir estudar numa escola de ‘brancos’. Como era de se esperar, sua vida não é nada fácil, e a questão da IMAGEM é sempre presente.

Assim como no nosso dia a dia, no trabalho ou entre amigos, somos constantemente julgados, rotulados, esteriotipados; nos são atribuídos outros nomes, apelidos…


Neste livro ‘meio-que-autobiográfico’ DIÁRIO ABSOLUTAMENTE VERDADEIRO DE UM ÍNDIO DE MEIO EXPEDIENTE, Sherman Alexie joga essa problemática adolescente na nossa cara, e nos faz refletir sobre a ‘dureza do crescer’ e a força necessária para sobreviver.

E a Ficção neste caso, é a mais pura Realidade.

Deixar Fluir… Mãos e Criatividade

Este surpreendente e inusitado romance de Mathias Énard conta a estória de Michelangelo durante um período em que ele foi à Constantinopla, a pedido do Sultão de lá, o ‘grão-turco, para conceber e desenhar uma importante ‘ponte’ para a região; mais especificamente uma que transpusesse o ‘Corno de Ouro’, famoso canal do período bizantino.
E assim começa o processo criativo, que vai desde a observação da cidade, seus aromas e sons, até as pessoas, seu comportamento, suas essências, seus afetos. 
Assim aparece Manuel, um ‘assistente-amigo’, com quem o Maestro conversa com frequência, e a quem ensina alguns princípios bem básicos do ato de desenhar, ‘criar com as mãos’; e diz “HÁ DE TUDO NUMA MÃO.” Faz-se com uma Mão observando Outra. Nela estão todos os detalhes necessários para uma manifestação maior, mais poderosa. Mas tudo começa nela, no detalhe, na veia, no osso, na textura da pele que se dobra ao menor arrepio. É dali também que vem a essência do ato de criar: a observação delicada e meticulosa.
Não obstante, Michelangelo avança: “Confie no seu olho. Repita até aprender”, sugerindo que o importante é colocar a MÃO NA MASSA e deixar fluir. Fechar os olhos e enxergar, pois vêem no escuro. Sentem, e junto com as mãos, tocam. Faça isso uma vez, duas, dezenas de vezes… e depois repita de novo.
Está aí uma das receitas do processo artístico. Em “Falem de batalhas, de reis e de elefantes”, uma parte da história do gênio criativo do ‘Maestro’ é contada, e com habilidade, delicadeza, humor e um pouco de fantasia, que deixa a narrativa ainda mais interessante. Uma ode à arte e uma aula de história e criação, tanto pela audácia do autor, como pelas aventuras do personagem principal.

Liderança

Quem segue burro, burro é.
Não sei vocês, mas gosto é de seguir gente competente; gente honesta e inteligente; e não de Face, Insta ou twitter. Digo pessoas reais, presentes que, além de liderarem, fazem, põem a mão na massa e instigam o simpatizante; esses eu abraço, não de olhos fechados, mas de olhos que aprendem, arreganhados, brilhosos, mais que luz no fim do túnel um bom líder é a luz no início dele.
Aos burros, carga.
Ao comando quem instrui, enleva e guia.
Quem segue brutamontes, besta também é; não sabe, desconhece a virtude do seguir sabiamente; talento tem o fiel que sabe onde pisa, onde coloca as fichas; e aí cresce. Torna-se aquele que se espelha e aprende a ser.
A ironia é que jumento tem aí a dar com pau. Saem pelos ladrões e, nutrindo-se de gente precisada de guia, segue cega. E vai, obedece sem ver e sem pensar, conduzida por orelhudos que não ouvem, e caem num ciclo de inaptidão que tende a se eternizar: nem líder nem liderado estão aptos ao cargo; e que fazem? Estercar.
Mas não os magos, bruxos, sábios da ficção Rowlingiana.
Harry Potter e seus amigos não se deixam levar pelo engodo do falso profeta. Via estudo e reflexão, sabem onde ir, sabem o porque das coisas, e quais conselhos acatar. Escolhem, dádiva da vida, conscientemente. Fazem da Fantasia a melhor das Realidades e provam que até a Ficção de Bruxo, nada de Bruxaria tem. Ensina a pratica da optação serena e articulada. Às toupeiras, nada.

O Controle da Língua; questão de Sobrevivência

Voraz que a vida é, voraz com ela seremos. E com Katniss (a estonteante protagonista de JOGOS VORAZES, de Suzanne Collins) aprendemos que, para sê-lo, devemos moderar nossa abertura, limitar nossa exposição, suprimir a voz, perigosa que pode ser a nós mesmos. Ao nos fecharmos-em-partes, fraquesas não sangram abertas e mais fortes nos mostramos; ou menos frágeis, pois todos um pouco somos. Ainda assim, a cautela deve prevalecer, especialmente em ambientes competitivos, onde o ‘livro aberto que se é / o livro aberto que se mostra’ pode custar muito caro; preço muitas vezes impagável, a vida. Sendo assim temos que protegê-la, limitando acessos e dispondo somente miudezas, grão a grão, dedo por dedo, língua dentro da boca, fechada não entra mosquito, já dizia o velho, sábio ditado. Corta-se então a própria língua, põe uma máscara, engole o choro e vai à Guerra, Katniss. Pega o Arco e a Flecha e ganhe os Jogos, vorazes que para os fracos são. A ficção na Arena mostra que a Realidade é cruel, mas que quem sabe jogar o ‘jogo da camuflagem’ tem mais chances de vencer.

Levar a Vida a Sério

Ora, ora, ora, brincadeira tem hora.

Nem toda hora é hora de bagunça, trocadilhos e sacadas engraçadinhas. Sorriso no rosto é bom, todo mundo gosta, mas também tem hora; pois o momento é também do sério. Ele também tem o seu lugar. Tem seu direito, seu dever as vezes. Entre o funny e o sério, a balança é que sorri – as vezes um, as vezes outro. Alegria alegria nem o circo vive assim. Palhaços tem responsabilidade, entristecem, até choram. Ossos do ofício, o seu é fazer rir, os outros. Ele mesmo a si sorrir, nunca sabe. 
Assim também o homem sério, cara feia, lábios cerrados, cadê o dente, nunca mostra. Mas por dentro, quem sabe, sorridente. Ora ora ora, é bom saber a hora. Riso atoa engana; mais que a todos, auto engano: 
- Nossa ex-presidenta não sabe falar a própria língua: risos, ha ha ha.
- Malas são achadas com milhões de reais – nosso dinheiro: chacota.
- Assaltantes explodem caixas eletrônicos à luz do dia, ao lado da delegacia: risos, gargalhada.
- Vamos voltar a ditadura: funny, funny, very funny.
- Temos um jagunço no Supremo Tribunal que se acha acima da lei: que bacana, que legal, estou morrendo de rir. 
- Construíram uma dezena de estádios de futebol com o nosso dinheiro e agora está tudo apodrecendo, sucata de milhões sem uso: para para, me dói a barriga de tanto gargalhar…
Fala sério, brincalhões! Hellooo fanfarrões. 
A hora é de aprender com o ‘delegado infantil’ citado acima, e dar um presta atenção a nós mesmos pois, de fato, “há coisas sobre as quais não se pode fazer piada”; e nem se deve. Pois ao fazê-lo, atestamos o ridículo, endossamos o absurdo, e dizemos amém a palhaços que nos fazem de bocós, pior, bestas sorridentes hipnotizadas por um picadeiro disfarçado de circo, palco de ladrão. A REALidade aqui deve ser levada a sério; ainda que travestida em Ficção, nos ensina que, na vida, nem tudo é, ou deve ser hilário. Ha ha ha.

Os Peixes e a Gestão do Tempo

Não seriam então os Peixes o maior e melhor exemplo de uma boa Gestão do Tempo?

Eles nadam, flutuam, navegam submersos e respiram a seu tempo. Comem, vão adiante, ágeis. Desejam, procriam a seu tempo, sem perder. E quando a hora é grave, se escondem, ou se juntam, a seu tempo. Tudo no momento.
Com a corrente fluem, sem pressa deixam-se levar, poupam energia se precisam, sábios pra que luxo?
Mas quando é vida ou morte, ou a questão perpetuar, partem rio acima, sobem correntezas, enfrentam cachoeiras e pronto: cem novos peixinhos, já sábios mamãe nos ensinou a natureza é sábia, não adianta acelerar, no fundo já sabemos!
Tempo tende ir, tem que vir; parar ou navegar, emergir, respirar, bolhas temporais. Nós, no mundo dentro delas, ‘embolhados’, da bolha do tempo não ousamos escapar; bastaria um alfinete, de dentro para fora, estoura! Mas não, alfinetamos para dentro, sopro-de-seringa ampola-temporal, criação de tempo, mas tempo não se cria (!!!) seringa auto-engano.
A bolha é uma só, o peixe sabe disso, e fluxo; escorre pelas mãos, as nossas, pelas do anfíbio não, que sabe estar envolto pelo timing das marés e respeita o fluido. Nada com a água e nela nada. 
E assim é também na terra do Sudeste Asiático, Camboja (centro da narrativa de Miss Camboja, divertido conto de Geoff Dyer), onde o principal e mais tradicional meio de transporte de lá, o Cyclos, não necessariamente leva os turistas a algum lugar, mas definitivamente percorre… eflui no solo, como “os peixes em sua imperturbável falta de urgência”. Ou calma, como queiram; uma REALidade subaquática… silenciosa… que nos apresenta uma quase-Ficção mais morosa, suposta bem mais lenta, onde a pressa por decerto não existe.

Sobre a Imagem que se tem do Próprio Trabalho

E o seu trabalho? Te gratifica ou te fracassa?
E o sucesso, o que é? Vem do trabalho, mesmo que fracassado?
Vem da grana, do tesão recompensado, bolsos entupidos de papel remunerado?
Ou vem de algo além, indescritível gozo transcendente?
Quer sentir, vem comigo.

O Interprete de Males, conto de Jhumpa Lahiri nos apresenta um personagem sem igual, Sr. Kapasi, ‘interprete’. De que? De males. Entendeu? Uma função também sem igual, mas por ele até então desprezada, visto não ser ele o médico, Deus, para quem interpreta as dores dos pacientes atendidos. Não fosse o fato do doutor não falar a lingua deles (gujaráti), Sr. Kapasi não seria necessário; mas a realidade se mostra outra e então, não fosse ele a ‘traduzir’ as queixas dos enfermos, o desnecessário seria o doutor, este apto a compreender somente uma língua num lugar onde muitas se falam; Deus então é o Sr. Kapasi. Mas sem sabê-lo, sente-se um fracasso: Queria ser um verdadeiro tradutor, ‘interprete de diplomatas e dignitários, resolvendo conflitos entre povos e nações…’ Mas ao conhecer a Sra. Das, cuja família ele leva como guia turístico, trabalho extra, até o Templo do Sol, em Konarak, na Índia, tem sua visão alterada: ‘os pacientes dependem mais de você do que do médico’, diz ela; e ao enaltecê-lo, e seu trabalho, transforma-o. Passa ele a enxergar seu ofício como outro, o sucesso é o dele, não do outro. Nem sabia, ja o fazia bem, indiretamente já curava; e assim sarava do fracasso. A palavra interpretada era o símbolo da cura, sucesso da vida. É a forma do olhar que salva. O que se vê é o que cura; a Ficcão aqui abre os olhos, e a REALidade do fracasso é deixada no embaço ao toque de uma simples frase, ainda ainda que despretenciosa, esclarecedora.

Sobre o Deus Odin – Sabedoria e Prioridade

Sabedoria, uma questão de Necessidade ou Prioridade?
Aos olhos do Deus Nórdico Odin fundamentalmente uma questão sem discussão. Para obter a plena e total sabedoria, deve dispor de um olho, requisição feita pelo guardião do lago onde há a água da sabedoria – basta um gole e Odin terá toda a sapiência do universo. Ele nem pondera então, decide. Saca um facão, arranca o olho esquerdo e entrega-o em favor de gotas universalmente sábias. 
E você, trocaria seu olho em prol do mesmo? Um pé talvez, ou a mão esquerda? Um rim, o fígado? O que amputaria nessa excêntrica troca?
A lenda nos instiga, pois sugere o câmbio de uma parte física, corporal, por algo abstrato, um conceito. Porém ambos nos importam, na verdade são vitais, e é aí que o dilema reside: como abdicar de um em detrimento do outro? Bom mesmo seria ficarmos com os dois, não!? Mas a vida-como-ela-não-é, perfeita, não deixa, e diz: “a existência é feita de escolhas”, pura negociata. Para alguns, entre o ver e o saber, a questão é de prioridade. Para outros, nem como questão se apresenta; rezam que a sabedoria vem com o tempo, que a própria vida ensina, conhecimento se adquire. Mesmo assim, o mito nos contesta: “Odin passou a ver MAIS LONGE E COM MAIS CLAREZA”, ainda que SOMENTE COM UM OLHO, o que sugere uma louvável troca; afinal de contas, temos dois olhos… 
Não seria portanto óbvio esse escambo? 
A Ficção da Mitologia Nórdica não se mostra assim tão disfarçada; e provoca uma REAL reflexão sobre a forma como desejamos viver: enxergando pouco ou deveras, alternativas que requererão, assim como outrora, e hoje mais ainda, ponderações sensatas .
Boa sorte, escolha bem, e venha ler comigo.