Amor de Pedágio

Toda semana, duas ou três vezes por, as sete da manhã, ele pegava o carro para ir ao trabalho. Operava o monótono tic-tac das planilhas financeiras durante todo o dia, e voltava já tardinha, mesmo-caminho-sentido-contrário, passando pelos quatro pedágios que já passara na ida, não gostava do sistema sem parar.

Por isso sempre trocava-troco, e moedinhas com os Operadores Rodoviários. E com as operadoras, cuja variedade era o que mais o encantava. Uma diferente da outra, cada uma-um jeitinho, tipo e cores de cabelo, tons de voz e sorrisos de contrapartida.

Nada nunca levado muito a sério, até que um dia uma dessas contrapartidas o atingiu em cheio. O sorriso dela voltou de um jeito! Daqueles que congelam, e até o carro morreu. O de trás logo buzinou e a cancela se abriu. Num ímpeto ele deu partida e avançou, tentando ir bem devagar. Mas a segunda buzina o cutucou e o que sobrou foi somente o espelho retrovisor. Tentava em vão resgatar o fato-passado, mas a estrada é dinâmica. Ele queria voltar, mas não tinha jeito.

Teria que rodar quilômetros, o retorno era longe, e voltaria pelo outro lado, e não poderia descer, que cabine era a dela? Assim foi em frente, frustrado, arrependido, culpa por não lembrar do nome que lhe aparecera bem na cara.

Por segundos ele o teve nas mãos, mas os dedos se abriram, e o nome vazou.

Não enxergou, mas tinha que andar. Enquanto dirigia então, sua cabeça de finanças começa a calcular, probabilidades: quais as chances de eu encontrar a bela moça novamente? São oito pedágios, quatro na ida, quatro na volta. Então são só quatro praças. Cada uma alargando para seis pistas de cada lado. Isso dá doze Operadores trabalhando ao mesmo tempo. São três os turnos, suponho; então temos trinta e seis Operadores por praça. Se temos quatro praças, somamos cento e quarenta e quatro funcionários, mas isso se eles não se revezarem, ou alternarem praças, ou trocarem turnos. “Ou se eu parasse com essa insanidade!?” disse para si, acima da música que ouvia. Lhe pareceu uma conversa de doido, como assim, conquistar a garota do pedágio? Quais são as chances? 

Mas como bom homem de excel que era, resolveu investir nessa chance, desacreditando-a. Era plausível sim, por menores que fossem.

Ele pegava a estrada todas as terças e quintas, precisamente. Eram os dias que ele tinha que estar presente, presencialmente. Diz-se isso pois hoje em dia, estar presente pode ser distante, contanto que haja zoom, mas à época não: presencial era presencial e ele tinha que estar. Mas hoje não: precisava dos pés pisando, as rodas rodando. 

Sem fazer muitas contas, ou já considerando as que já tinha feito, concluiu rapidamente que precisaria ficar mais tempo na pista caso quisesse aumentar as suas chances. Por isso pede ao seu chefe que o libere para trabalhar full time de casa. Pedido aceito, ele logo equipa o carro. Agora tinha em mãos um Road-Office, um carro que servia de escritório e que podia mantê-lo na estrada por horas a fio. A única necessidade, literalmente, era parar para abastecer. Fora isso, se tivesse dinheiro suficiente, poderia ir-e-vir por dias a fio, anos até, até achar a alma-gêmea-do-sorriso-passageiro.

Passam meses, e com isso ele passa a observar-ainda-mais. Checa tudo quando passa nos pedágios: a estrutura da praça, as placas informativas, as cancelas quando abrem, quando fecham, o tempo de parada, os policiais ali por perto, seus carros, as sirenes, os motoristas que viajam sós, os que não acham o dinheiro, os que o já tem o trocado nas mãos, tudo o que pode dizer respeito ao seu objetivo ele vê; em especial as meninas. Cada uma em sua cabine, outras andando pra lá e pra cá, sempre ocupadas. Sempre solicitas, de marrom e justas. Sabe-se lá o porque, mas combina e enche os olhos dos motoristas que, ante a rotineira monotonia da pista, abrem sorrisos privados que animam a própria viagem.

Observo seus andares, para onde vão. Imagino o corpo daquela que só vi pescoço, deve estar de havana também. Por isso agora faço o caminho inverso, e isso me excita; a todo pedágio, a cada vai e vem.

Como um vício então, o fardo da fila vira desejo constante, e agora ele ansia pelas paradas. Alonga-as com gordas notas de cem ou infinitas moedas-miúdas que sempre se espalham no chão do carro, ‘mãos furadas’, ele dizia; algumas ele deixa cair enquanto as entrega, e essas vão parar na pista. Algumas rolam para baixo do carro, que conveniência! Que quando acontece, pisca alerta. Ele desce do carro, calma e gentilmente, e observa. E se agacha para pegar as fujonas, observando ainda mais. E quanto mais procura aquela que lhe roubara o olhar, outros olhos o fitam, e ele corresponde, não tem jeito. O suposto motivo original da maluca empreitada vai aos poucos se diluindo à media que ele passa a enxergar além do que inicialmente previra – e até gostaria -, mas que dada a complexidade das contas à frente, e a variedade das coisas ao redor, resolve deixar o carro fluir. O rosto da moça sem nome ainda perdura, mas a cada passagem a janela daquela cabine vai aos poucos se fechando; enquanto outras se abrem.

As chances estão em cheque; o acaso agora é rei.

O estatístico passa a acreditar na sorte, e a noite também passa a mostrar interessantes caminhos. O número de pessoas trabalhando é menor, e são menores também as distrações, as tentações marrom-amarelas que via de regra o hipnotizam. Como é bom, no meio da estrada poluída, ver belas moças desfilando pelas passarelas do pedágio, para lá e para cá, nos brindando, solitários-sonolentos motoristas, com sua gratuita simpatia, seu andar castanho e eventualmente toques de arrepiar, pois quando se sentia um pouco mais a vontade, deixava o dedo da mão que entregava o dinheiro, o mindinho sorrateiro roçar discretamente o dedo da moça na expectativa do toque. E esse simples detalhe fez com que, agora e sempre, tentasse. Antes mesmo de chegar na cabine, já abria o planejado sorriso, depois a janela e enfim o braço era estendido como que para pegar e beijar anos 40, a mão da operadora; o som que vinha de dentro do carro estava mais alto, o Road Office era também musical e as moças ouviam. Como estava sempre bem vestido e perfumado, o pacote carro-pessoa sempre instigava, e o pessoal todo começou a comentar. Como agora sempre dizia seus nomes, para jamais esquecer o dela, ficou popular entre os Operadores; e agora, quando se aproximava das cabines, era logo celebrado: ‘lá vem ele’, e eu pensava em quanto já tinha conquistado durante aquele ano de intensa investigação rodoviária.

Eu já entendia todo o funcionamento das praças, os rodízios, os horários de funcionamento, a quantidade de operadores e operadoras e também, de cabeça, o nome de muitas delas. Tinha elaborado uma planilha, e de dentro do carro, por voz, colocava cada uma delas em sua respectiva célula, à medida em que passava pelas cabines.

Quanto ao rostos, tive que improvisar. Depois de conseguir um suporte para celular e ajustá-lo à minha demanda, fixava-o no meu colo com a câmera aberta, e o posicionava num ângulo perfeito para tirar uma foto sem flash no momento exato em que eu falava ‘obrigado’ e sem levantar ainda mais suspeitas. Consegui assim uma amostra bem significativa de todo mundo que trabalhava por lá e já  tivera a sorte, inclusive, de encontrar com uma mesma operadora em três ocasiões. Isso motivou deveras.

Ainda assim, nada da moça que tanto queria, precisava encontrar. Iludiu-se momentaneamente com as outras possibilidades, outras curvas para quem serve qualquer outdoor, mas os dias-e-dias sozinho na estrada clamavam não por aventuras, mas por companhia, e uma, exclusiva, aonde estão aqueles olhos?

Já tinha rodado, segundo seu cálculos, cento e quarenta e seis mil quilômetros; quilômetros atentos, olhos de lince, óculos de visão noturna, observações de espião, toda uma parafernália tecnológica que custara as vistas da cara, mas mesmo assim, não conseguia achar a mais bela agulha do palheiro; os cálculos haviam alertado, mas mesmo assim ele insistira.
‘Chega’, chegou a pensar, mas a lembrança daquele dia, lá na distância de um ano, grudara como piche; portanto, avançou seu próprio sinal vermelho e acelerou asfalto à quente. À frente se muniu de ainda mais determinação e passou a não respeitar mais nem os feriados, período que até então ele usava para descansar sua lombar, obviamente já bem comprometida pelo tempo que passava sentado. 

Jogou as planilhas fora e foi à desforra. Custe o que custasse, a agulha teceria. Juntou todas as reservas que tinha e investiu: ajustou o carro para gastar menos combustível, fez acordo com todos os postos ao longo da rodovia e modificou o banco de forma a preservar sua já desgastada coluna.

Passou a acordar mais cedo. As cinco e meia já estava na estrada, e voltava somente as oito da noite. Assim, café da manhã, almoço e jantar, tudo se dava ao volante, exceto as necessidades que, a propósito, eram deixadas para os postos para ganho de tempo. Ficou então conhecido no circuito todo, e sempre que resolvia esticar um pouco mais as pernas durante as paradas, pegava uma lembrancinha, uma guloseima qualquer para distribuir entre o pessoal das cabines.

Logo virou uma celebridade entre os gestores de cada uma das praças. Àquela altura, ele sozinho já representava quase cinco por cento do faturamento, e seu nome, assim como seu carro, sua placa, seus horários, seu interesses, não passavam mais em vão.

A história se espalhava francamente e até as filas aumentavam. Todos queriam encontrar o cara. Todos queriam vê-lo. As meninas-de-marrom agora tentavam prever o horário que ele passaria e ajustavam seus turnos de acordo; os revezamentos foram ampliados e sempre que ele chegava, euforia. Sempre tinha mais que uma pessoa na cabine, até três. E foi aí que ele percebeu que o jogo estava virando. Na melhor versão do ditado ‘não cace, atraia’, sem querer virou um ímã.

Sua popularidade se tornou um polo positivo de atração e se multiplicou. De celebridade local, instigou também adjacências: outras praças de pedágio ficaram sabendo e de boca em boca sua fama ampliou. Não havia mais pedágios sem fila, fosse qual fosse o horário. Motoristas paravam no acostamento para vê-lo e o sistema ‘sem parar’ começou a ter problemas pois não tinha mais movimento. Caminhoneiros lá de cima de suas cabines o viam a distância e buzinavam celebrando sua chegada. O som inusitado atraía curiosos e as monótonas viagens adquiriam um outro tom. 

O destino depois disso era viajar sem ter chegada. As estradas eram um destino em si mesmas, e todos queriam saber do celebrado motorista que, ainda incompreendido sobre suas verdadeiras motivações, vira objeto de desejo de quem tem por motivo revelar.

Entra em cena a poderosa mídia. Não só aquela antiga-monopólio, mas a atual pulverizada. E dissipa versões. E cada um lê do jeito que quer. E cada um promove como lhe apetece. Motoristas de carro, de moto, caminhões; borracheiros, frentistas, atendentes de loja, operadores rodoviários, entrevistas. Todos querem dar uma palhinha para a mocinha da TV, que só fala a verdade, e chega voando. 

Nas semanas que se seguem a notícia é ampla e nacional, e repleta de explicações: ele gosta de viajar, é mecânico de carros, testa pneus, ama a estrada, é maluco, acelera por prazer, nenhuma das alternativas. Só ele sabe o verdadeiro motivo da empreitada e resolve revelar.

Em casa, sozinha-quietinha, está a menina dos olhos dele, assistindo o noticiário e especulando sobre quem seria a sortuda por quem ele se apaixonara.

Eurico Conceição Palazzo
#euriscritor