Acaso & Ocasião

Nem a música alta que ouvia antes e durante o banho conseguiria abafar o som que vinha do lado de fora do apartamento onde morava. Uma mistura de berros e batidas graves, incomuns àquela hora, naquele lugar, em qualquer medida.

Aumentou seu som para abafar aquele.  Mas tomado o banho, o outro persistiu. A curiosidade suplantou o descaso e ele acionou o olho mágico para ver o movimento lá fora: alguém, presumivelmente uma mulher – ele conhecia o vizinho -, espancava a porta do 114 com o aparente intuito de colocá-la abaixo.

Mas com o olho embaçado por meses sem uso, a necessidade de matar a curiosidade urgiu, e ele abriu a porta. O que viu foi um misto de medo e admiração, pois a confirmação da presença feminina veio acompanhada de uma admiração que ele, imediata e inconscientemente transformou em algo mais.

“Está tudo bem?” foi a voz da curiosidade.

As batidas pararam imediatamente, a gritaria cessou, a pergunta foi ignorada e a moça veio firme em sua direção. O algo mais agora tinha um e setenta, um rosto vermelho-momentâneo, e contrastantes olhos verdes. Mais um passo decidido e a saia veio dançando; e com ela as pernas, os cabelos, um conjunto suado que perguntava ofegante: “Você tem uma chave de fenda?”

Uma pergunta inusitada. Ele tenta se antecipar e pingar os ‘is’, mas é ela que se antecede: “O Verme está com uma mulher lá dentro.” ‘Verme?’ ele não entende. “Sim, meu namorado que mora ali. Seu vizinho, a propósito! E eu preciso entrar lá dentro.” ‘Verme?’ ele insiste confuso. “Sim! A gente chama ele de Verme. Agora vai. Me dá uma chave de fenda para eu abrir a porta. 

Luci, era o verdadeiro nome daquele por trás da porta. Um ‘galinha’, como se costuma dizer daqueles que não conseguem ficar longe dos rabos de saia, sempre tecendo uma nova costura; fazendo remendos e comprando linhas. E lá estava ele agora com um novo novelo. Se de lã ou de seda, um enigma a ser desvendado.

a resposta era um dos enigmas da perigosa empreitada.

Enquanto o devaneio em torno do apelido do vizinho e o pedido pela chave de fenda ocupava todo os seus sentidos, incluindo sua visão, a loira já tinha espiado para dentro da casa e apreciado uma grande e pontuda tesoura – sim, também servia – em cima da mesa da sala. Iluminada em foco, brilhava como uma solução talvez até melhor que a fenda. Por isso entra sem licença no apartamento e alcança o utensílio. Pega. Empunha: aquela empunhadura dos filmes de terror.

E num piscar de olhos ela já foi. No outro ela já está no corredor, caminhando de volta. Agora de costas para o vizinho solícito, sua saia foi determinada. Ele admirou o mundo invertido, sorriu para si mesmo e resolveu assistir de camarote: ela enfia a chave na fechadura, vira para um lado, cutuca de outro, tentar furar a porta. Esmurra com o punho esquerdo, crava a ponta com a mão direita, repetidas vezes, é pura fúria. Um urso ferido por certezas e esfomeado de evidência. Ela tinha que ter certeza, pleonasmo absoluto.

A cena é quase poética, basta enxergar a arte: um Picasso emoldurado, as páginas de um Dostoiévski, um conto de Cortázar. A história estava sendo contada ali mesmo, sem distorções ou anexos; ao vivo e captada em tempo real por um morador cuja lente saboreava dissabores, e tinha memória. Registrava tudo em seu caderninho mental enquanto a moça, provável personagem principal, atuava com perfeição.

Como se não houvesse amanhã, ela não só manteve a determinação, como aumentou a brutalidade. Usou também os pés, que vestidos de botas bicudas, amplificaram ainda mais a dramaticidade da cena; os punhos se alternavam; a tesoura também, e a voz que mudava de tom à medida que ela respirava-alternada. O vermelho do seu rosto apimentou-se e o suor começou a escorrer por todas as vias. Sua nuca molhada, seus braços úmidos, seu tremor incontrolado. Tudo sendo captado pelo vizinho que saboreava cada impropério desferido.

O tempo vai longe. Quando ela para. Pausa.

O Silêncio se instala; absoluto.

Ela encosta o ouvido na porta, nada; absolutamente.

A imaginação da asas às lentes do bom observador que consegue ver através da barreira que não abre; tampouco cai. Há duas pessoas lá dentro. Estão no quarto. Na sala. Na cozinha. Andando de um lado para o outro. Congelados. Estão em pânico. Debatem sussurros. Ela quer sair. Ele não deixa. Ela tem medo; ele tem pavor. Esperam que a tormenta passe, tic tac, tic tac.

Quarenta minutos depois, o ímpeto da moça rescinde. O cansaço da sinais de vida e um tempo é solicitado. “Me arruma um copo d’água, por favor” ela bufa ao vizinho que não tinha parado de filmar nem por um segundo, enquanto caminha em sua direção, ainda bem selvagem: seus cabelos estavam completamente desgrenhados e emolduravam um rosto ao mesmo tempo triste e emputecido. Negando a resignação e vislumbrando alternativas.

Seus passos são lentos mas firmes, e ela até esboça um sorriso quando chega próximo do vizinho que, vislumbrando outros ângulos e perspectivas, talvez um outro olhar, correu até a geladeira para pegar a água. Voltou transbordando. Talvez fosse a ficção se tornando realidade, o inconsciente vindo a tona, o acaso, a ocasião.

A tesoura troca de lugar com o copo e ele sorri de volta enquanto ela verte o liquido refrescante com volúpia. A água escorre decote adentro. A blusa é branca. Eles não trocam palavra.

A fotografia é excepcional. Personagens, estréias do ano. Melhores coadjuvantes. Ou atores principais.

O desenrolar do filme promete; e a próxima cena só é adiada pelos pensamentos que antecedem uma decisão que já foi tomada. Ela vê uma oportunidade impensada. Ele outra, pensada mil vezes. Era verdade que já a vira e há muito desejara; portanto, de fato, e aos fatos. Ela teve o lampejo no corredor, enquanto caminhava. E quando ele a comeu com os olhos, puta. As duas portas se conectaram por desejo acumulado e vingança impulsiva, equação cujo resultado só poderia dar em intensidade; assim, o corredor, ambiente naturalmente cênico, torna-se palco de um evento para lá de teatral.

Por aproximadamente duas horas ficam lá; o tempo pôde se demorar a vontade. 

A vingança é mais doce quando servida fria, dizem; mas quando é imediata e longa, tem um impacto igualmente perverso, pois quando o Verme finalmente abriu a porta, foi ele quem levou a picada. De tudo que pudera imaginar durante aquelas longas horas – o silêncio que se impusera, a dúvida sobre o que fazer, a demora do tempo, as suposições… -, o que viu foi bem-além, dois corpos nus. Ela ele reconheceu no ato. Ele, mais uma picada: o vizinho.
Entrelaçados pós-gozo, repousavam agudamente.

Com o ferrão instalado e o veneno espalhando no corpo, o impulso foi ir à desforra; deixar o macho falar; abrir a jaula. Fazer o que fosse inconscientemente necessário para estancar aquela confusão que se instalara em sua mente. De amante passara a corno? E depois de todo aquele escândalo? Quanta crueldade. 

Sentiu-se profunda e duplamente traído. Estrago amplificado.

A imagem dos dois ali estendidos perpetuou-se em tempo real. Uma daquelas cenas de cinema inesquecíveis que vemos na infância, que grudam na memória infinda; e neste caso trágica, pois a tragédia da traída se transformou em vingança ao traidor; ele perdeu.

Mas protagonistas vencem, ele achava. Por isso pensa em mudar o rumo da história mais uma vez, taí a receita das boas narrativas.

O tormento tinha amplificado o verme, e o impulso começa a assumir o comando. Vem idéias para o fim da história. Idéias tresloucadas; a razão assumindo diferentes máscaras. Os olhos, embaçados pelo tormento, tentando enxergar qualquer coisa; acabam por achar a tesoura escancarada.
Caída ao lado do casal, a poucos metros de distância, oferecia uma boa alternativa. Ele até sorri. O protagonista quer virar celebridade, e ali estavam todos os elementos necessários. Uma pena que o vizinho que estava filmando tudo, e em seus deleitosos detalhes, neste momento desfrutava o profundo sono do gozo, alheio a qualquer mundo consciente.

Desperta, contudo, estava a amante do Verme que com ele contracenara ao prazer e à angústia das escondidas. Era ela quem filmava agora. Assumira para si a direção e resolveu rodar a cena imediatamente:

Verme em movimento. 

Ele vai até o casal e se agacha. Em close, sente seus hálitos: sexo. Seus óculos embaçam. Fica ali um instante, encarando-os sem ver. Foi brilhante o que ela fez, resume, enxugando a testa com as costas da mão.

A um braço de distância repousava a tesoura que também luzia. E nutria idéias; ele a pega. 

A câmera pega tudo. O foco agora é ele, seu rosto, sua boca, seus olhos, a gota de suor que agora escorre é dele; e pinga, e quando pinga, é pimenta e não colírio. 

O despertar assustado da moça também não é refresco, ainda mais com um olho em chamas; e que nem ousa enxergar. O outro tenta, e da mesma forma suspeita o pior, ainda que totalmente distorcido. Se apavora. Se debate. 

O amigo acorda e, mesmo sem pimenta nos olhos, também vê a mesma coisa. E também a amante do Verme que, já não mais no controle da ação, deixa de filmar, aproveita a ocasião, e pega o elevador que por acaso estava ali só esperando o corte final.

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