“Amiga, eu não sabia que cabia tanta merda em mim.”
Ao ouvir essa preciosidade, na hora estiquei o pescoço e peguei meu bloco de notas. Eu estava sem idéia para o meu próximo texto e a frase simplesmente chacoalhou meu repertório do pó, e instigou os meus instintos dormentes.
“Não acredito, Camila”, disse a outra assustada e em bom tom, o que me revelou ainda o nome da personagem central. Pois bem:
Ela tinha ido a um show de música com as amigas para rever uma cantora que mexera com os seus sentidos na adolescência. Estava animada. Todas estavam, e os namorados, toda a patota-de-outrora a desfrutar o mel de Kid Abelha e sua Rainha.
Rainha cujo mel da década de oitenta ainda lambuzava multidões; entre elas a apaixonada figura que não só queria ver o show, mas também ser notada pela estrela do palco; quiçá trocar olhares com ela. As amigas seguiam no fluxo. E nas intenções.
Eu tentava neste momento associar essa suposta paixão com a quantidade de excremento que coube dentro dela. Nunca tinha pensado a respeito, por isso me acomodei melhor na cadeira e apurei ainda mais os ouvidos para não perder nenhum detalhe: desde a eclosão do processo, como também os desenlaces.
O fluxo da caravana apaixonada pela abelha-mor só parou na frente do palco, quando entre elas e a majestade só havia a grade, como um favo. O fardo da vanguarda veio logo atrás: uma multidão de similares paixões chegando na cola. Os órgãos espremidos pediram socorro; os corpos responderam: pernas, braços, cotovelos, punhos, todos unidos em prol do pulmão que especialmente sofria. Integralmente o sufoco.
A luta vingou.
A massa se acomodou,
e elas respiraram
profundamente.
E estufaram o peito,
repleto e orgulhosas.
O show começa e o delírio acompanha. As meninas pulam e dançam com os braços ao alto e gritam tentando chamar a atenção da cantora. Chamam a atenção do guitarrista. Do baixista; mas a disputa pela Rainha é tão acirrada que os berros se amalgamam em uníssono neutralizando qualquer chance de exclusividade no êxito. A cantora olha para tudo e para todos, para frente e para trás mas não vê-na-verdade, ninguém.
As luzes não clareiam, muito pelo contrário desnorteiam.
O álcool contribui. Cada um, cada uma
já tem o seu copo na mão.
Entre um gole e outro,
gotas ao chão.
É difícil se mexer, mas todo mundo dança; operárias hipnotizadas, felizes.
A Rainha continua cantando; detém o pêndulo. Tic-tac travestido de Fixação e um repertório que vai aos poucos aquecendo ainda mais o que já parecia ebulido. O mel escorre e todo mundo se deleita; como se todos fizessem parte da mesma colmeia e compartilhassem um mesmo objetivo. Como eu Quero vem a seguir e todos querem mais. Lágrimas & Chuva, por que não? Uma Pintura Íntima se perfazia a cada mudança de tom e a conexão entre os músicos e a platéia se fortalecia de Peito Aberto. “Te Amo para sempre”, Ela gritou à cantora, e no momento em que a própria resolveu dar uma chance aos olhos que imploravam os seus, Camila virou-se de costas; de vergonha, algo inusitado se passou. Talvez nem tanto inusitado. Nem um pouco, na verdade; ela mentia para si mesma pois sabia a bobagem que fizera: bebera o que não devia, depois do que tomara: Xenical. ALERTA: NUNCA MISTURAR COM ÁLCOOL. Mas como a vaidade dos quilos amenos sempre pesa mais, optara por bloquear a gordura que entrava – eis a função da droga -, mas esquecendo que, do mesmo modo, tinha que sair. E que quando entrava na equação o etílico, o excesso era simplesmente posto para fora, negando qualquer consciência contrária e desprezando as urgências do tempo. Como dizem, mais rápido que próprio pensamento.
Camila, ousada, tentou ser ainda mais veloz, mas os músculos tensionavam o avesso.
Ela luta – tem que controlar o corpo.
Ela tromba – sem querer.
Ela escora – para não cair.
Sua carne quer autonomia.
Suas pernas, só na adrenalina,
e cambaleiam.
As luzes, que já desnorteavam no encanto, na agonia embaçaram; o brilho vanesceu. A música já não era Nada tanto assim; ou sequer existia. Os sons oscilavam. As notas, afinadas-distorciam.
O calor da aglomeração a atordoou ainda mais e ela começou a se curvar. Com as mãos nos joelhos e a cabeça baixada, tentou respirar; ar que não vinha; ao redor, só pernas vieram. Num instinto então, ergueu a cabeça, tentou olhar para cima, mas o desequilíbrio já tinha assumido a gestão: era uma casa, muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada.
De gatinho ainda tentou se mover em linha reta, mas um inesperado, afiado e certeiro espasmo finalmente a prostrou. Resignada-relaxou. E desprendeu os músculos.
Eu não sabia se lamentava ou se sorria, depende da natureza da pessoa. Mas como escritor, absorvi; tentei neutralidade. Os pontos começavam a se encaixar, e meus ouvidos pediram orelhas espichadas. O que veio na sequência espichou também os meus olhos.
Camila em posição fetal, no chão. Ou fecal, pois entre seu corpo e o piso crescia uma mancha escura que não era mel, mas que ironicamente atraía as abelhas curiosas – naquele momento moscas famintas – que por sua vez formaram uma roda em volta dela. As luzes pirotécnicas deixaram a cena ainda mais insólita – e ainda mais viscosa, e os que estavam ali por perto fizeram uma outra roda para melhor ver a suposta performance; mas enquanto se aproximavam para ver melhor, foram bloqueados por uma película invisível, um aroma de vulto que emanava do centro. Sim, era ela a autora da extrema fragrância que, impulsionada pelos grandes ventiladores que assopravam trezentos e sessenta, chegou pesado ao nariz da Rainha, que extremamente olfato-sensível, não teve escolha senão parar o show.
Imobilidade geral.
Susto.
Incompreensão.
O silêncio toma conta-da-cena, e a já-dita-roda se abre ainda mais. Mãos são levadas à boca em espanto e muitas outras ao nariz. Infinitas aos celulares que, ainda não sentindo aromas, mas enxergando muito, vêem ampliados detalhes.
As luzes se acendem e começa uma correria. Aqueles que estavam mais próximos finalmente entendem o que tinha acontecido e recuam; os que vem por trás fazem o mesmo e assim a aglomeração ganha um toque de vara acuada. Não há mais abelha nem mel.
A cantora pede calma, que não foi nada sério.
Mas Camila continua a produzir conteúdo; é sério! Tenta se levantar, mas suas mãos escorregam e ela volta a ficar de quatro, tentando se equilibrar-naquele-mar. Àquela altura seus cabelos se tornam um problema a mais, pois longos, trançados e soltos, caídos na frente da cara, a cegavam. O pudor já tinha perdido o sentido e ela então jogou as tranças para trás lançando pardos borrifos para todos os lados. As telas dos celulares viram obras de Jackson Pollock e a arte adquire um novo significado.
A cantora pede mais calma. Pede ajuda calmamente.
Chega uma maca. A Cor, branca, contrasta com o piso e a garota contrasta com a maca. Ao ser levantada pelos enfermeiros de plantão, uma poça que já se formara embaixo dela transborda, e os pingos-respingam, pois caem da altura de ombros. Sapatos e tênis se sujam, e também escorregam; e quem se suja quer se limpar, mas não havendo onde-serve-o-outro. E assim o mesmo ventilador – agora metafórico – sopra para todos os lados, enquanto os homens de branco deixam um inédito rastro de sapatos não brancos.
“Uma água, por favor”, pede a amiga que ouvia a estória; eu aproveito e peço outra, talvez para limpar um pouco a cena. Levanto para esticar as pernas e tento ver Camila de frente; desanuviar a minha mente que só-há-via suja. Ela estava obviamente limpa, mas a estória ainda tardava.
O que vem depois da maca não é uma uma ambulância, mas um caminhão do corpo de bombeiros – para lavar Camila?, pensei. Não. A viatura branca é só para emergência, óbvio; portanto mandam um veículo sem estrutura alguma para a tarefa, apertado e hermeticamente fechado. Em outras palavras, para não faltar ar, um espaço de confinamento aromático.
Bingo & Vômito.
O que já era muito ruim consegue se multiplicar deveras, pois ninguém escapa da náusea que ali pousou. Todos os fiéis amigos sucumbiram ao desencanto e somaram à imundice, que nesse ponto fazia inveja a qualquer banheiro químico em época de carnaval.
Em amargura, a sirene gritou a plenos pulmões; e aos trancos e barrancos, e aos brados de clemência dos homens, o caminhão chegou ao posto de saúde. Um por um os ocupantes desabaram para fora ainda com o carro em movimento, e correram para qualquer lugar; inclusive o motorista, que desapareceu no breu.
Camila ficou lá, gemendo.
Se de dor ou pelo cheiro,
ou pelo tempo,
desmaiou.
O silêncio que se instalou neste instante, intolerável quietude, foi o único elemento que pôs qualquer um dos atendentes do posto que estavam por lá em movimento; a simples curiosidade jamais faria tanto; quiça o compromisso. Já o inesperado, a chance de uma desgraceira, sim; por isso eles voam até o caminhão cujas luzes continuavam a gritar a seu modo, e encaram a cena de pescoços torcidos.
O olfato deixa de ser um sentido, pois os olhos sentem muito mais. E o tato, está por todo o lado: nas paredes, nas roupas, na pele, digitais esparramadas como enormes mosquitos esmagados na parede.
Quisera fossem abelhas. Quisera fosse favo.
Mas a cor é escura.
Por isso,
e antes do posto
de saúde-limpeza:
água, chuveiro,
mangueira.
O esguicho a atingiu em cheio. A transformação da cor da água ocorreu conforme o resultado da soma das primárias, instantaneamente marrom, e escorreu rumo ao ralo mais ou menos como previsto, só que lentamente. As roupas, dos pés à cabeça também tiveram seu destino traçado de pronto, e ela, em pelo, sentiu também a alma ser lavada.
Os amigos surpreendentemente voltam. O motorista nunca mais.
Eles trazem também roupas desconhecidas e alguns produtos de higiene pessoal que conseguiram abichar sabe-se lá. “Onde vocês arrumaram isso?”, pergunta Camila, mas a resposta vem outra: “Vamos. Se troca. Vamos embora”. E num instante, Uber; no outro uma desconfiança: Camila reconhece o caminho e quebra o silêncio surpresa: “Onde a gente tá indo?” “Surpresa!”.
Dez minutos depois o carro passa em frente ao portão pelo qual eles saíram quarenta minutos antes; Camila reconhece e arregala os olhos. O carro avança alguns metros e para; “Gente, eu não acredito. O que vocês estão armando?” Mas a patota confiável nada diz; e conduzem a amiga através d’uma porta que levava não ao palco, mas ao Camarote da Rainha e sua orquestra.
Camila congela por um minuto: “Vocês não vão fazer isso comigo!?”. Mas fazem. Sobem uma longa escada e depois caminham por um curto-corredor até pararem em frente à Porta Real; à porta do Favo por trás da qual reinava aquela musa que por tanto tempo hipnotizara multidões. E agora Camila que nem acredita no próximo passo. A porta se abre e ela não meche. Troca o mais profundo olhar com o rainha , e sorri gigante quando o que vem de volta vai de orelha a orelha.
Mas dura pouco. O que volta também é a explicação definitiva para a frase que desencadeou toda a história. E Camila sai correndo pelo corredor desesperada.
eCP