O Reencontro

Uma das melhores coisas de se envelhecer junto, e de pertinho, é não ver a idade passar. O tempo parece ser menos cruel com aqueles que convivem, sejam amigos, namorados, marido e mulher. Qualquer que seja a configuração, quando nutrida constantemente, parece enganar a passagem dos dias, anuviando rugas, pintando cabelos e escondendo barrigas. A gente vê a mudança-na-gente, mas não vê no outro, pois o tempo passou para ambos, e essa espécie de espelho da idade funciona sempre que olhamos para as pessoas que estão perto de nós, próximas.

Quando o envelhecer acontece em polos opostos, a história pode ser bem diferente. Com o tempo, chega a memória e a distância que, juntas e eternas amantes, criam outras narrativas.

A que começa quando o telefone toca já é, por si só inusitada. Quem, nos dias de hoje, telefona para alguém? Joyce. Sim, ela era desse tipo, ousada-que-ligava. Nada de mensagens de texto e similares. E se quisesse falar, chamava. Se o outro não atendesse, que se fosse. Mas o Beto não; pelo pelo contrário: “Alô”.

“Beto, tudo bem? Aqui é a Joyce, da faculdade, lembra?”

É claro que ele lembrava. O amor do primeiro ano; talvez do segundo, do terceiro… o tempo não esfumaçara por completo as lembranças que agora vinham novamente de atropelo. E pousavam sem conforto, pois a unilateralidade do sentimento de outrora deixara um residual infindo. Resíduo que agora, pelo fio inexistente do telefone celular, carrega a migalha que ele sempre recebeu dela, quiçá um pãozinho francês.

Há vinte e um anos; Há dezessete que não se sabiam. Por quatro foram, para ele, um casal. Para ela um amigo. Mais ou menos como a história da “Menina Má”, de Mario Vargas Llossa, que convivia com um, mas que amava muitos outro; menos ele, que acabou perfazendo um papel parecido com o personagem do autor argentino, durante os anos de Arquitetura. Tolo. Ela esperta, sem pensar até, fazia o que queria; o que desse na telha, ou no telhado. Não passava fome; tampouco vontade.

Saçaricou.
Brincou.
Namorou

Ele esperou.
Quatro anos e nada.

Nada além dos pensamentos do que poderia ter sido; especulara sobre tudo, desde o beijo, o abraço, o abraço sem roupa, o gozo. Os passeios de mãos dadas, as viagens, os jantares. No auge do amor injusto, fantasiou até com filhos, um altar, família.

Ela sequer tinha planos.

Os anos se passaram.
Anos universitários,
que por fim, desaguaram
para fora do campus,
para fora da cidade,
e de volta para o bairro de origem;
onde uma nova história foi forjada,
com novos dedos entrelaçados.
Que depois se vestiram de anéis,
e que migraram de um dedo para o outro,
e perpetuaram esse laço,
que justamente por ser laço
eventualmente se desfaz.
Eventualmente se desfez.

Solteiro ele. Solteira ela, vai saber?

Fato é que o passado vinha agora oferecendo uma nova oportunidade. O passado que não quis ficar lá; sim bendito pela chance, mas maldito pelo assombro.

A amor dantes tinha desbotado deveras, mas o fardo da lembrança era como uma farpa capturada pelo corpo que, embora não mais incomodasse, estava lá. Sentia-se. E agora estava logo ali, do outro lado daquele fio inexistente, cutucando mais uma vez.

Doera. Dessa vez não doeria.

Ao invés de ‘oi’ portanto, diz “olá’. “Joyce?” pergunta como se não reconhecesse a voz que nunca esquecera: “De onde mesmo?”, emenda, sugerindo ainda mais indiferença.

Ela incrédula, pois acostumada aos holofotes, explica entusiasmada: “A Joyce, da turma de arquitetura…” que ele ouve pacientemente e com atenção disfarçada enquanto elabora uma resposta para o que quer que viesse daquela conversa que, eventualmente se revelaria: Joyce diz que está por perto e quer encontrá-lo. 

As palavras dela foram “estou com saudades”. Falsa.

“Eu também”, dissimula ele. “Quando você vem?”

Logo.

E sem delonga começam os preparativos. 

Ela dançou na frente do espelho, ele enfrentou o espelho e brigou com a barba que acinzentava; e a barriga que crescia. Ela ouviu muita música, o tempo todo, e cantou. Cantou enquanto fez e desfez a mala, enquanto pensou nas roupas, imaginou a maquiagem, com que rosto iria chegar? Ele trocou a cama, em todo caso; e os travesseiros. Arrumou a casa, trocou lâmpadas, passou um pano. Tirou teias da adega; comprou vinhos com a certeza de que as mulheres gostavam. Joyce odiava. Nem por isso não bebia; Dojão era seu apelido. Já ele nem tinha um: José, e bebia pouco.
Ela foi centro comprar seus extravagantes adornos: anéis, colares, piercings; e tinta pois na sequência foi ao cabeleireiro. Ele foi ao shopping pois precisava de uma mão do vendedor; assim fazia compras. Gastou com meias, sapato, calça, camisa de linho.

Tudo o que faziam, e fizeram deixou de ser fortuito. Mas a motivação por trás d’ação estava bem longe dos sentidos, tanto que o tempo, a percepção do tempo os fez mergulhar no cosmos da indomável expectativa. E como o controle não habita o universo dos hábitos, ele voltou a roer as unhas; não parava, arrancava cutículas. Ela paralisou; por algum motivo desconhecido, angustiou-se demasia. Ele trabalhava sem parar, tentando espantar o pensamento. Ela só pensava, sucumbindo às emoções, aos confusos sentimentos e a um futuro que ela sempre desprezara. Qualquer que fosse, era sempre no presente que agia. Mas o tempo verbal de repente se alterou e o porvir passou a ocupar todo o seu horizonte. 

Uma perspectiva.
Um ponto de fuga.
Ou seria um ponto de encontro?

O local estava definido.
Faltavam poucos dias, um tempo que
ora se alongava,
ora se espremia.
Horas que corriam morosas, e de repente
voavam num piscar de olhos.
E no ócio da mente nasceu o diabo,
e depois a ansiedade, que na cabeça,
costuma fabricar minhocas.

“Ele foi frio comigo ao telefone”, meditou. Mas ela foi gelada com ele ao longo da vida, e reconheceu. Teve plena consciência de que o fizera sofrer, e queria sinceramente escrever um novo capítulo, mas o tom do Beto ao telefone sugerira muito pouco. Quiçá só indiferença. Por isso o diabo nascido da pasmaceira não largava do pé das suas ruminações. E como o capeta também é onipresente, onisciente e os diabos, fez o mesmo com ele, que se agitava cada vez mais à medida que o dia do encontro se aproximava, e só dormia às custas de muita vontade, e depois de muitas horas.

“Doera, dessa vez não doeria”, foi dito.
Quem dera!

A Esperança, neste ponto, já em ambos residia. Superara a expectativa e se tornara chance. Uma escolha, no fim das contas; e com a qual era muito difícil de lidar. Para ele certamente; para ela um ato corriqueiro mas que que vinha, com o tempo, adquirindo mais complexidade.

No ar ela pouco dormiu. No chão ele bem que tentou.
No horário do pouso ele já tinha estacionado.
Ela foi a primeira a descer. A última a pegar a mala; o destino é cruel.
Ele também vai levar uma multa.

Se veem; se desconfiam.
É ela mesmo? É ele mesmo?
Se aproximam. Não muito.
Lentamente.
Joyce? Beto?

Sorriem quando chegam mais perto pois o reconhecimento mutuo automaticamente tempera a lembrança. As bocas se abrem; os dentes se mostram e as rugas dos olhos se intensificam alegremente. 

De orelha a orelha paralisam.
Mais perto e se tocam.
Vem um longo abraço
apertado.

A conversa que se seguiu foi como se tivesse sido ontem. Há tantos anos sem sequer-se-ver, falaram sem parar: enquanto caminhavam, dentro do carro, durante o caminho, nem os semáforos impediam seu progresso; e quando o silêncio vinha, era momentâneo: pausas naturais durante diálogos que fluem, sem cobrança, e sem tensão que, se porventura houvesse, fora rapidamente dissolvido pelas risadas e pelas lembranças compartilhadas lá nos idos da década de setenta. Todas as que vinham eram boas, fato curioso, ele pensou. Todas as que vem quando fechamos os olhos normalmente são, a ciência diz. Por isso, ou talvez por acaso, fecharam os olhos quando chegaram ao destino; não importa onde, só queriam estende-las. Ao máximo. 

Os bancos se deitam. Minutos se passam. Os dedos se tocam. Mindinhos.

Segundos depois, os dedos se entrelaçam. Os pelos ficam em pé. 

Eles se viram de lado e o tempo para. Seus olhos se encontram, nas profundezas. Conversam silenciosos. Revelam tudo o que uma visita à alma pode revelar. E repousam um no outro, serenos.

eCp
#euriscritor

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