Talento & Detestar

Assim, ano a ano, a cada dia odiava mais. Odiava a comida, odiava o marido, sua cidade, seu trabalho. Detestava o sofá, o buraco do sofá, o gata que o rasgava, insuportáveis unhas de Fifi.


Se aborrecia com a colega do escritório que insistia em tirar os sapatos durante o expediente, meias furadas, unhas sujas e azedo de chulé.

Detestava o cabelo na sopa. E quando o via, escândalo: xingava o garçom, pedia pelo gerente, exigia o proprietário e uma indenização. E nunca mais eu volto aqui nessa pocilga.

Execrava desconfortos.


Enlouquecia com a hora perdida; a sua, dos outros, de quem quer que fosse, que o tempo hoje, ouro por minuto e não desperdiço nem centavo.
 Odiava perdas, e quando era rejeitada então, maldição que a morte lhe feria; uma fera que nascia e agora um morder de correntes adiante, dentes à mostra e cara de fera cuspindo lava, lenta e intensamente.

Quando o macarrão passava do ponto, ficou mole xingamento e joga fora.


Quando errava o caminho, mesmo tendo o mapa, forca ao arquiteto, engenheiro, construtor. Bando de idiotas, me perdi e a culpa é sua. Sempre sua, nunca dela. 

Que também nunca esquecia. Se perdia além da hora, coisa, era o outro, sempre imprestáveis empregados, ajudantes, descuidados assessores que me deixam olvidar; culpados que os detesto.


E também os que me vencem, na corrida, na disputa, tabuleiro ou vídeo game, abomino a mil forças a derrota até no coito, que pra mim é só por cima. No oral renego o seis, cachorrinho sou o dono, mamãe eu sou papai.
E que não broxe por favor; macarrão que perde o ponto é papinha de anciã, e malquero envelhecer.


E assim, com o tempo, aprendeu a detestar; não que fosse assim feliz, pois sabia que a ruindade lhe feria o semblante. Mas assim o era atualmente, carrancuda dos pés à cabeça, rabugenta de alma, a cada aniversário, de presente um novo asco.


Mas agora chega, decidiu. Entendeu que o tempo a corroera e optou por mais sorrir, admirar ao invés de reclamar e re-habituar, co-habitar com mais leveza, consigo positividades. 


E assim se deu o renascer: dela, do marido, da colega da meia furada, do sofá que virou arte, do macarrão agora percebido sempre ao ponto. O tempo agora é relativo, as pessoas são legais e aceito até perder; fico até por baixo.

A REALidade é a forma da Reação. E detestar jamais talento. Renego o grifo então, e volto a ser criança, que o tempo jamais me estragará.

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